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04 novembro 2009





Bebi um amanhecer , num copo de cristal, enfeitado com as cores da Lua.
Saboreio-o ainda agora.

16 outubro 2009

Sol Poente






Imagino-me agora à sombra de um entardecer renascente,
de um sol poente que me revive.
Imagino-me mais viagem que destino,
Mais em nenhum lado do que em qualquer um.

Imagino-me Lua crescente, meio cheia
Nascente em ocaso de Outono.
Imagino a paz verdadeira
Mais em mim que em lado nenhum.

A vivencia remanesce em quadros a carvão
Esboços feitos de sonhos
Nem despertos, nem vividos
Perdidos nesta liberdade a que assisto
Meia

Neste meio jeito
Sonhadora e descontente
Solto os gestos que desconheço
Despeço
e adormeço
à espera que a Lua me encha.

Até sempre, sol poente, raiado de um dia que não termina
nem se deita.

14 outubro 2009

Faço-me falta

Cheguei a casa trazida por um vento quente que se sublima na minha cara. Veredicto transformado em neblina. A minha cabeça é o indicador do meu reflexo interior. Encontrei o meu abraço nos livros que mantenho em cada  passo do meu dia. Servem-me para não pensar, pensando no que preciso saber.
Ilha numa sala demasiadamente branca onde se vulgarizam vivências que não partilho, sinto-me envolta em mim e no que me permito apreender. É exiguo o meu mundo, face ao desprendimento do meu sentir. Deixei-o livre por fraqueza, por grandeza que não encontro, mas sei existir em mim.
Sinto-me estranha, cada vez mais distante.
Do silencio, fiz uma arte em que me desenho. A voz é mais audível não falada, se digo, não me ouço.
Encontrei-me defronte de um senhor idoso de bata branca, em poucos minutos, disse-me que a matéria era outra, inorgânica, do foro emocional. Ensinou-me exercícios e deixou-me chorar. Disse-me que precisava de falar. Disse-lhe que não. Que falava demais sem conseguir dizer o que sinto. Que se chorasse, era mais sincera. Chorei então.
A minha cabeça doi em proporção.  Todos os meus gestos são negação, oposição. Saudade sem expressão, um vazio feito de mim e da minha falta.
Sinto-me cada vez mais a caminhar de encontro a algo que me ultrapassa, imagens bailam em mim, arrastando-me para rituais desconhecidos, parecidos com os que já não julgava existirem. Elementos antagónicos alternam-se, loucura embebida de uma lucidez lancinante.
Hoje, o meu sitio na serra, acolheu-me como sempre. Sereno, iluminado. As ultimas palavras devolviam-me uma calma que já não me lembro. "Você faz falta...". Efemeras palavras que me induzo em jeito de convicção. Faço-me falta!
Retrocedo em cada momento que me esqueço de não me pensar. As contas ajustam-me a dormencia do meu entendimento. O meu vazio é tão grande....
Talham-me os olhos inquisidores, não os vejo, colho uma flor sem cheiro, aspiro, sem respirar, ando sem caminhar. Tropeço em mim mesma em cada passo, enquanto a minha alma vagueia em mim, solta, sem perdão, ilustra espaços, imagens, um olhar que me cegou de tanto me saber.
O meu despertar foi esta noite quente em que me vendo, não vejo.


03 outubro 2009

Solidão

Noite tão clara, esta, tão sossegada e iluminada.
O Alentejo hoje, recebeu-me ameno, castanho, envolto em cheiro a erva, vivo de manadas andantes. Percorri-o de janela entreaberta, percorri caminhos que me inundaram de memórias que iluminam e entristecem.
A Liberdade e a vida que a solidão desperta, não encerra, uma sensação nova, desconhecida para mim. Refazer conceitos adquiridos e tão pouco certeiros.
Foram tantas as vezes que me senti só numa multidão entusiasmada, foram tão poucos os momentos em que me senti tão viva e liberta numa solidão bem vinda. Este Alentejo habita cá dentro, sem pressa, sem horas, destinos marcados de um sorriso e de uma açorda.
De manhã falavamos de percursos paralelos, à noite, em contares entusiasmados da mesma história, revivi a essencia do silencio harmonioso, dos percursos que não vislumbramos e limitamo-nos a percorrer, devagar.

Na minha mente, palavras, instantes, vislumbres de um olhar que finalmente me alcançava, um veneno que me encanta, um soluço de saudade e raiva misturadas.
Percorrem-me palavras que se trocam silenciosas, a paz do entendimento, a voz que me vê e que fere, em mim, descubro a magnificência de as ter. Imagino as migalhas humanas que percorrem uma vida sem sentir.

A solidão tem uma palavra, tem uma descoberta que cala o medo. Tem a fronteira entre o antes e o depois, linha ténue, de mil cores que já não me ofuscam.
Trago comigo esse sorriso que me recebeu numa cidade de sonho. As pedras iluminadas, as conversas que se prolongam sem expressão no tempo. Cada conceito parecia ser hoje revisto em mim.
A minha solidão foi hoje companhia, amizade verdadeira, foi despedir-me do Alentejo, quase nos ultimos minutos do dia, sem pressa, sem medo da estrada escura ou da distancia que nem sinto.
Escrevo à toa, cansada.
Sinto-me.

Poucas coisas me importam, sinto uma leveza nova, uma proximidade de mim que nunca senti. Reconheço-me pouco experiente no quanto me devo e não vi. Tenho engenhos automáticos para todo o tipo de deficiencias, sou amiga, faço-o por mim. O que me move não tem retorno, pouco espero dos outros a quem dou sem hesitar, faz-me falta aprender a dar-me a mim. Pensamento simples que deixei passar.
Os termos esvaziam-se na minha experiência, as distancias, não as sinto, o vazio é ilusão, o preenchimento é uma solidão tão rica e o tempo é o caminho até aqui.

Deixo os meus dedos expressarem-se, soltos, não penso, mais uma sensação que pouco conheço, o dominio reduzido a este momento em que me faço, grande, pequena, como for.
Prometi-me o Marvão Mouro, prometi-me experimentar, acreditei no que sinto. A mistura das cores e conceitos, elabora-se sem o meu gesto contido.

A minha solidão está tão cheia de vida. Tão cheio de vida está afinal o meu coração.
Gostei de cada minuto deste meu dia, de cada conversa com as duas amigas que me conhecem, cada uma, tão diferente na forma de esconder a luz que as ilumina, como eu. Gostei de me cansar ao ponto de não pensar, das horas com a Marta que nunca vejo passar.

Estou tão cansada que me apetece acordar, não pensar, um sentimento que calo e reformulo mas que é meu, memórias que doem mas que guardo, só minhas, sei o valor que tiveram. É neste processo que me encontro. Aceito não gostando deste medo tão guardado de me deixar ser, quem sou.
Descobri-me, despertei-me, cansei-me de me cegar. Devo-me tanto quanto o que sinto.

01 outubro 2009

Setembro

No limite entre dois dias que transpõem 2 meses, não sei se os entendo, passado e presente, aspiro uma vida que não sei se percorri nestes dias do mês em que nasci.
O mês de Setembro costumava ser celebrado por mim, não pelo nosso aniversário, meu e da Inês, nem sequer pela despedida da Estação. Era um mês de chegadas, primeiros dias de aulas que sempre detestei mas em que renascia. Eram dias amenos, de cor laranja, de abraços calmantes e sonhos repartidos.
O mês de Setembro anunciava os dias cinzentos e o cheiro a castanhas assadas. Era o mês em que apetecia uma manta e um livro sábio que enchesse as horas comigo, era um tempo que me assustava com novas faces e em que me vinha sempre uma vontade de visitar o mar à procura da primeira neblina do Outono.

Este Setembro foi diferente, não passei por ele, passou antes por mim, feroz e apagado, calado e sombrio, verdejante e enebriante, matou tanto de mim e reclamou que nascesse no instante a seguir.
Este Setembro foi silencioso como uma noite sem estrelas ou Lua, passou e eu não o vi, tão perdida andei de mim.
Mês arrogante, de crescimento interior, de esclarecedores desencontros e formas gramaticais. Mais interjeições que interrogações, mais pontos que reticencias.
Este mês terminou uma fase demorada da minha vida concedida, consciente, quase sempre ausente de mim. Anos que não vivi em pleno, adiados, sentidos, em que aprendi termos que não conhecia, em que dei tanto do pouco que tinha. Momentos felizes e outros de uma solidão desmedida e sem expressão.
Setembro mostrou-me o anoitecer de um dia claro e breve, de um tempo sem tempo e do despertar de uma visão esbatida, plena de mim,  que agora se tornou real e inimiga.
Este Setembro foi o fim da chegada, foi um barco à deriva sem ancora.

Vejo-me ao espelho, mal me reconheço de tanto que me desentendo, esta imagem distante que protagonizo e que encerra tanto, que se mascara de forte e treme por dentro, que percorre os dias ausente, que sente um mar de tudo e de nada, que é minha.
Sinto-me a chegar, sinto-me tão perto de ter que me enfrentar, quase ouço os ultimos passos e o fim desta estrada. Sei o certo e o errado, sei o que este mês me mostrou, sei o que preciso fazer,  está a custar tanto sentir-me detentora da verdade mais clara, sei que preciso de força, de amigos verdadeiros, da fé que o senhor Arlindo me deu, de meia duzia de pertences e do tanto que sou eu.
Preciso do meu Deus e do meu Diabo, da guerra e da minha paz, preciso do paninho para passar nos dedos e dormir, preciso de falar alto o que já me cansei de perceber calada.

Porque sem amor, não se é nada. Setembro não foi chegada mas viu-me chegar, devagar como sempre soube que havia de ser.

30 setembro 2009

Sem amor, não se é nada, pensando ser-se

"Não se faz nada sem amor, sem amor, as pessoas andam perdidas".
Entre um soluço contido e um abraço, ontem vi um sol branco por-se, ainda na serra. Ontem deixei-me lá ficar, entre amigos de verdade, as pessoas que genuinamente me acolhem, sem truques, nem julgamentos.
Ia cheia de papeis para assinar e coisas para dizer. Trouxe poucos e pouco disse, mas quando desci a serra, já noite cerrada, vinha emocionada e embalada em mim e no som do saxofone que se anunciava ali perto.
Há muito tempo que sei tão mais que isto que ando vendo e auscultando, num espaço que não me pertence nem sinto. Sou uma pessoa diferente, eu sei que sim, trago comigo todos os dias um sorriso na  boca e nas minhas mãos um perigo que me sossega, enfrento distancias que não me cansam, estradas vazias e altivas, nas quais me cruzo, por acaso, com os casos de minha vida. Ninguém nunca esperou no meu albergue, apenas no meu destino. Ao longo dos anos, ganhei respeito por mim mesma, aprendi a perceber o que rege gente grande, que admiro, tão distante de outras de que julgo fazer parte, nem fazendo.
Vi nos olhos do sr. António, a compreensão humana, em vez de hipocrisias disfarçadas, sem vivências que fundamentem nada, vi a minha voz embargada e uma vontade de me mostrar, o que tem sido, a quem sente antes de pensar. Dei um abraço à Anabela, que sabe de mim.
Olhei para os meus pés, brancos, a minha saia empoeirada, aquele fim de dia de tons claros, o barulho  do desligar das  maquinas, a serra preparava-se para me ensinar que a minha verdadeira essência está em cada momento em que me digo bem alto que sou como sou.
Meu bom amigo, o sorriso bonito, o mesmo boné de banda, umas mãos feridas, grandes.
"Oh mulher, tu havias de me ter contado isso antes, tu não vês?"
Eu via, mas estava cega de ver, eu sabia mas perdi-me de acreditar no que sou, eu julguei-me em verdades distantes que são migalhas do que tenho cá dentro, eu verguei-me ao julgamento de quem se calou, sem nunca ter sido capaz de me ver. Nunca, nunca seria mais do mesmo, porque o mesmo não é nada, o mesmo é o primeiro ponto da reticencia que nunca teve direito a existir, o mesmo é obra embargada pelo medo de seguir uma estrada que não se conhece mas que é preciso, o mesmo é ausentar-se da vida.
"Sem amor, as pessoas andam perdidas".
Tapei a minha boca com o carinho das palavras sábias que ouvi, por detrás do contorno da serra já cinzenta, das luzes minúsculas dos vales efémeros, onde habita o conhecimento ressequido, embargado de sentimentos. Mais do mesmo é ler páginas e páginas passadas, iguais, iguais, iguais, por mim e por mais. "Onde é que estava a diferença?"
Multiplicam-se, proliferam seres verdes, quase espaciais, frios, gelados, ausentes e incapazes de se sentarem numa pedra poeirenta e limitarem-se a assumir o erro de simplesmente ser. Eu amei, amei de verdade, amei a vida, amo a minha pequenês, cada erro que cometi, estendi os meus braços traçados e pedi, por antes de mais nada sentir.
Não suporto ver o que vejo, não tenho estomago para ver a minha vida virada de "pantanas" e ainda me sentir culpada. E a mim? Alguém viu? Alguém lutou por mim?
Estive sempre sozinha, julgando-me acompanhada, percorri estradas nocturnas, consciente da minha distancia em troca da escolha de mim. Hoje, olho em volta e sinto quem realmente me ama, quem me acompanha.
Já não tenho vergonha, sou assim, sou meia maluca, desregulada, não sei onde pertenço, nem sei o que fazer, mas estou aqui, não me escondi, estou aqui, escrevo por mim, grito o que sinto, hoje sim, amanhã não, e se alguem me perguntar, é só porque ao contrário de quem se limita a saber, eu admito o meu medo e desconfiança, eu assumo ainda uma esperança que guardo cá dentro, não digo palavras bonitas e certeiras, vomito os rasgos soltos de uma alma vivente.
Estou tão cansada de me entender, estou exausta de querer enquadrar o que já é, mesmo assim, eu hoje tive um momento, com uma mão amiga no meu ombro, que nunca me sentiu, mas que me conhece tão bem, que sabe o esforço que me assiste em chegar ali e não me queixar nem do pó nem dos olhares descrentes, de não ter horas de voltar, porque pertenço mais ali do que a outro sitio qualquer.
Faço centenas de kms todos os dias. Entro na minha cidade e respiro-me, subo a serra ou piso as searas secas de Setembro e encontro-me e ainda agora, ando aqui, armada em parva à procura de um entendimento  que não existe, nunca existiu.
"Sem amor, não há nada!"
Seria incapaz de não acreditar, seria incapaz de ser fria e calculista, não sou assim, seria incapaz de ver sofrer e não fazer nada, tenho o meu coração dormente e cheio de vida, sou bonita por dentro, não estou adormecida, nem me refugio na banalidade.
Já noite fechada, parei no meu sitio, pingado de luzinhas nos vales mortiços, a neblina crescente em baixo, joguei fora o meu lixo, varri-me do que não preciso.
Obrigada meu bom amigo Arlindo, obrigada!

24 setembro 2009

Esfera vazia

Quantas vezes morri e ressuscitei? Quantas me adormeci e quantas me matei?
Quantas vidas gastei e quantas me restam?


Sou esfera vazia no meu meio, e simultaneamente tão cheia do que calo. Silencio gritante. Vejo-me ao vento, embalada em cascatas de sentimentos que me inundam e, não digo, sorrio, apenas. 
Ao meu redor, este espaço onde me isolo e transpiro, cada gota um sentido, embalo-me e abraço-me, sei quase de cor o que guardo cá dentro. 
Saio e acompanho o sol crescente, todos os dias, visto-me de cores e dissabores e ensaio a opacidade com que me apresento, sorridente e vigente. Pronta para hastear a minha bandeira de vida.
A manhã quente de Outono, devolveu-me sangue nas veias.  Não tomo calmantes nem nada que me entonteça, o meu cérebro, encarrega-se disso, o que sinto, desnorte, alucinio, é tão forte que estremeço.
O meu rosto, fantasia, transparece, o que pretendo enquanto grito em silencio, a distancia de um entendimento que desentendo e odeio. 


Sinto-me produtiva, a minha mente organiza-se em tons de anseio.
Renasço? Mato-me por dentro?


Ouço palavras doces, abraço sentido, das poucas pessoas de quem gosto, da forma mais pura que conheço, a única que me ultrapassa e tem mote próprio, os sentidos. E ainda agora, teimo em não me acreditar.


Faço quase 200 kms todos os dias, transporto-me, aturo e chateio, chatearei a autoridade enquanto não aceitar, não entender porque tenho que me vergar ao que não acredito. Agora, não! 
Tenho palavras oprimidas, castradas, não saem, treinadas à força da minha própria negação. Hoje quis tanto dar um abraço do tamanho do que sinto à minha irmã e não consegui. 


E antes do sol partir, partimos nós os dois, soltos e abraçados, eu e o meu amigo, estrada fora, cada vez mais distante. 
Amanhã, outro dia, cheio de gente e de vida e de mim, meia, cheia e vazia.

21 setembro 2009

Percorro a minha memória em caminhos nos quais a sede se tornou realidade. 
Saboreio-os como se fossem agora. As gotas de orvalho escorrem lá fora, sinto o esfriar da minha face, tento ainda reter nas minhas mãos, só por um instante, o que o meu olhar abandona. 


As leis humanas nunca foram redigidas. Sei que há tentativas vãs de normalizar e enquadrar directivas, porém, falta a mão divina que nos anuncia a magia do que nunca seriamos capazes de alcançar. Talvez um dia nos tornemos maquinas pensantes e previsíveis, alvos de análises e antevisões. Por ora, resta-nos apenas  sermos almas mágicas ou somente fantoches de teatros inventados. Os primeiros viventes, os outros já estão mortos.


Estou a escrever no momento em que nasci, segundo a minha mãe. Não fui fácil, porque não queria nascer, contorci-me para ficar. Fui uma criança feliz, mas não havia um único dia que não olhasse em volta à minha procura. Sempre tive medo de me perder. E no entanto, vasculhei a vida, remexi-a e virei-a do avesso, escondi-me e procurei-me em cada lugar que hoje relembro.


Tive momentos, poucos, em que me senti, por inteira, não comigo, com a vida, momentos em que me deixei simplesmente ser, sem pensar. Penso demais, sempre pensei.
Gostava de não ter pensado tanto.
Ou se calhar devia ter pensado melhor.
Gostava de nunca me esquecer de ser quem sou.
Gostava de não me importar, nem de gostar tanto dos outros
E no entanto, gosto de tão poucos.


Aqui vejo, o quanto já fui simplesmente feliz e profundamente infeliz.
Gostava de ter sido menos de cada, ou mais ainda.
Gostava de ter ficado mais tempo aqui ou ali.
Gostava de não ter desacreditado de mim nos momentos em que as labaredas daquela razão enquadrada me negavam. Perder, ganhar.
Na soma, sobro eu, plena e vazia de mim.


A estrada que me aguarda, não sei, não a conheço. 
Enalteço o que fiz e o que sou capaz de fazer. 
Gostava de dar um abraço a uma velhinha agora. Encostar a minha cabeça no seu colo e deixar-me estar e, de seguida, sorrir por saber que farei sempre o contrário do que me ensinaria. Gostava de ouvir o velejador louco a esboçar-me palavras sábias e calmas. Gostava de ver um sorriso verdadeiro nas faces terrenas da minha mãe.
Gostava de dar um abraço à minha irmã, convicta que tudo valeu a pena.
Gostava de poder sentir espaço, para ser como sou.
Gostava de amar, mais ainda, de enlouquecer por amar. 
Gostava.


E no entanto, viva, despedida e sofrida, estou contente, não sei porquê.
Nem faz sentido o que digo.
Afinal, tanta vivência e sabendo tanto, não sei nada.
Parabéns Sandra.

19 setembro 2009

A verdade invade-me em turbilhão.



O que vejo?
Fraqueza escondida em evasão.
Ilusão disfarçada
Por detrás desta vaga,
Distorção!

13 setembro 2009

Monte

Meio perdida, procuro a ruela entre uma esquina fechada. Conheço a distância e de manhã, o cheiro a mercearia, uma rua pequena e escondida e, em cima o alcance de um sonho, o despertar de sentidos, o vento nos pinheiros testa a persistencia e filtra os estranhos, os pequenos.
A escuridão e a fé espreitam como se aguardassem os terrenos, os que amam.

Do alto, a avenida escondida, o castelo sabedor, o rio que termina. Eu, no palco de actos em busca do melhor e pior que há em mim, trouxe um vestido que não dança, um casaco, encontro-me aqui.
Já me apaziguei aqui, já me despi de mim e abracei a minha cidade com uma vontade lancinante de me deixar, já chorei...
As memórias percorrem-me num relampago, velozes e apressadas a chegar a um momento guardado.

Um abraço sentido que durou tanto tempo,um banco de jardim, o vento, o silencio, uma nevoa que descobria a cidade em cores imaginadas de tão verdadeiras.
Vivi esse momento como se fosse eterno, uma tela sem quadro, sem tempo, como se ali me tivesse plena, de coração e alma. O sentir que vivi não se enquadra, entende-se num olhar desperto, um sentido que via.
Também a  minha cidade iluminada,nesse fim de tarde, ouvia baixinho e guardava em silencio o que hoje lhe ofereço para me guardar a mim.

A minha cara ferve e eu rogo à Senhora que tome conta de mim, que me arranque cada pedaço ardente, que o guarde, que me ampare e a seguir me mande embora por me tornar estranha neste sitio que se fez em mim.

Quero achar-me lá em baixo, na praça onde ouço musica, embarcar no rio contra a minha maré, quero paz, quero cegar o resto do mundo e despir-me de vez.

01 julho 2009

Horas

Deitei-me e levantei-me.
O sol está a nascer agora. Nasceria sempre.
Estou sentada à minha porta, porta aberta, pernas cruzadas como sempre, nem sei porquê, e o meu amigo olha-me com ar de espanto.
Daqui a nada o meu dia reclama e eu, ainda desperta vou esperar por ele.
Escrevo de papel e caneta, sentada, calada e atenta. Devo o mesmo ao descanso que devo à vida. mas estas horas ensinam-me e escutam-me.
Mudei tudo e emigrei.
Não quero falar com ninguém, quero ouvir-me e saber.
Quero também eu despertar.
E, por favor, dormir a seguir, descansar!

25 junho 2009

O meu amanhecer começa aqui

Fui descendo a rampa e tinha uns soluços guardados que me molharam a cara, perante o olhar acostumado dos vendedores da rua, confrontei as minhas pernas para se apressarem, preferia ter corrido mas já antes escorreguei naquela descida.
Senti-me uma estranha na minha cidade, sentei-me perto do corrimão verde e chorei, mas uma voz cá dentro foi falando cada vez mais alto, mais clara.Senti-me rebentar de raiva e vergonha. Olhei em volta e vi gente que deambulava na estrada mais presente. Onde estou eu?

"Estás aqui, és tu, Sandra, lembras-te?"

Estava ali, cansada, a luz tornou-se escuridão e essa voz cada vez mais clara foi-me enfrentando.

"Não"

A palavra ressoou em pancadas, fez-me estremecer.
Antes, outra voz soara em mim, sentida e quase magoada.
"Luta por mim!
Luta ao meu lado e não contra mim!
Não te reduzas à fraqueza e insignificancia do que os teus olhos veem e os teus gestos alcançam, e sonha!
Dá-me a paz e segurança que preciso, mostra-me o valor que eu tenho para ti!
Não é dificil porque a minha vontade é já tua aliada.
Enquanto fabricas raciocinios elaborados para orquestrar o caminho, deixaste de me ver, limitaste-me e isso assusta-me.
Sou mais que isso, tenho uma nuvem à minha volta mas a minha luz brilhou sempre para ti.
Mostra que estás comigo, que és capaz!
Quero ir contigo, não sei viver sem ti!
Mostra-me que sou especial e que os meus dois AA sobressaem dos outros.
Não me julgues porque não sabes.Mostra a força que tens comigo! "

Fechei-me no carro, perdi o bilhete de estacionamento, odiei esta distancia que me tem afastado de mim, gritei com a minha alma toda ao desgraçado da Caixa, encontrei o bilhete, paguei, pedi desculpa e subi de novo para a minha cidade.
Enquanto à direita da Avenida, a dormencia me chamava, olhei em frente, procurei na minha mente, rebusquei em todo o lado, o que valho, o que sinto, o que sou, levantei a voz a mim mesma, redefeni-me em segundos.

"Não, não, não!!!
Não me mereces, não acreditaste em mim, não confiaste, não quiseste.Não viste o mais que os meus olhos te disseram, não percebeste nada!A razão apoderou-se de ti. Vivam os seres pensantes!"

Tambem não, Sandra, Vivam os dementes!
Quero-me de volta, preciso das forças que me definem para me erguer.
Onde devo não é aqui, aqui senti, aqui descobri, nada na minha vida me foi dado de mão beijada, um mar de vontade tomou conta de mim, abracei a minha cidade nas cores em que a revejo, disse-lhe "já volto" e provavelmente esqueci-me do radar de velocidade.
Jurei a mim mesma integridade.
A minha metade de mim não me pertence e despedi-me dela para sempre.
Só hoje não chega , o que sinto é maior que os três tempos.
Meses cheios de mim, sem espaço nem lugar, há-de haver um tribunal que me condene pelo crime que cometi, apontado e falado por ti, dono da razão e da integridade, mais ainda por mim!

À frente, parada, sobressaltada e assolada com a minha força quase desumana, com a verdade já clara e decidida, despedida de mão apertada, abri o vidro da carrinha e suspirei com as contrariedades. Estava a saber-me tão bem acelerar, chegar depressa para falar, para decidir.
Estrada cortada, sirenes, helicopteros, o meu telemovel tocava "estou bem, não sei o que se passa".Sai do carro, andei, andei muito e embrenhei-me num grupo que falava com expressão do Norte "Vamos estar aqui até a meia-noite, virou-se um autocarro ali a frente". Andei mais e dei comigo a caminhar ao lado de mais gente igual a mim, não sabia porque andava, não suportava a prisão de estar fechada, percebi a analogia e sorri.
Mais a frente, cruzei-me com dois homens que alegremente perguntavam "Alguem quer coca-cola?", e a senhora do carro ao lado, inteligentemente loura perguntava "Não tem agua ?" .
Naquele bloqueio de estrada reconheci vida em mim, falei com estranhos que me pareciam familiares, senti bocadinhos da estrada por onde ando e nunca vi, lembrei-me de lugares e senti voltar-me a mim. Perdi. Perdi tanto mas estou aqui!

Vi imagens tristes, gente perdida, um autocarro mergulhado no pasto, sangue na estrada, pedaços de betão aparentemente indestrutiveis espalhados, soltei um ultimo soluço e tudo aquilo me mostrava o fecho deste conto, tudo tinha o sabor da metafora e da alegoria que agora vejo.

Abri os vidros e saboreei a distancia, equacionei a historia da minha vida nos kms que faltavam e , na ultima curva da estrada, naquela em que me desviava, disse o mesmo adeus que dizia, nos dias que sonhava. Direi adeus a tudo menos a mim!
Abri a porta da minha casa, reparei no tanto que já fiz, abracei o meu amigo de sempre que agora me recebe com uma almofada e entrei no silencio que enfrento. Olhei em volta e antecipei o gesto a que me habituo agora.
Não liguei a TV, abri a porta de par em par, deixei o ar entrar, esperei .
Vou esperar, liguei o meu computador e a força misturou-se e coloriu-se com a minha vida. Foi sempre assim, ausentes mas capazes de adivinhar-nos nos momentos assim. Amo-te tanto minha mana! Sei que estás ai!
O meu amanhecer começa aqui.
Do cimo do muro, decidi, vou antes voar, vou em frente em direcção a mim. Mereço o que me sente, mereço o mar que me atrai. A minha metade e o meu passado, os lados da divisão, foram o dito e o ouvido "não".

Já não tenho medo da estrada, ela ensinou-me que quando perco, ganho, quando paro, vivo e, Meu Deus, como eu quero viver! Venha o que vier, estou aqui, aguarda-me a minha palavra e a decisão tomada.
Não sou uma qualquer, sou diferente, sei que sou, sou demente, consciente, emocional e racional, gosto do que não preciso, amarro-me porque tenho medo, mas sou alma e não dependo na verdade.
A minha vida vale mais que isso.

29 maio 2009

Sinto-me perto da loucura e da razão

Ontem, depois de um dia dormente, desprovida da minha metade raciocinante, depois de me sentar numa sala demasiadamente branca, com demasiadas mentes nervosas e uma carencia enorme de mim, olhei para umas folhas brancas e atrevi-me a pensar "Qualifico-me aqui?".
Não sei.
Rebuscada, quase ferida de orgulho, a cadência de pensamentos assemelhava-se a um vendaval desnorteado, enquanto olhava em volta, colava-me à cadeira e percorria com o olhar, um amontoado de perguntas que quase riam de mim. Inspirei e lembrei-me da solidão. Do poder da minha mão, do caminho que percorri até chegar aqui. Recorri a expressoes sem sentido e artigos definidos que em nada acalmavam a desordem da minha razão.
Daí até aqui, distou o tempo de fechar mais um conto, desta feita de encantar. Está feito.
Aquecida, carente, rendida, cheguei à minha casa bonita, tão sossegada, abri as portas de par em par e sentei-me à entrada, enquanto assistia à procissão da minha vida, dei comigo a sorrir.
Sinto-me perto da loucura e da razão.

03 maio 2009

Mãe

Acordei com o mesmo brilho que o sol que me esperava. Não é só esta leveza sustentavel, é a minha cara quente, o sangue que me percorre, é o meu corpo vivo e dormente, é esta alma presente, esta calma ....
Dei duas voltas ao meu jardim feito de acasos e escolhi uma flor amarela, a mais bonita de todas. Embrulhei-a na folha metalica que agora uso com carinho e decidi que a minha roupa teria que combinar com a cor dela. Enquanto abria e fechava armários e a agua quente corria, relembrei mil histórias da minha mãe, daquela voz doce, do meu amparo de vida. O caminho foi ameno, cantado e sorrido e em dois minutos tinha o abraço mais doce do mundo, um sorriso que só a minha mãe tem que se ilumina com uma simples flor. Não é a cor dela, não é o cheiro que trouxe comigo, é um laço que nos rodeia, do tamanho deste amor que sinto.
Vimos juntas as formas da vida, ouvimos o vento junto ao mar, rimos enquanto as amostrinhas de gente brincavam em fantasia e, ao voltar, os meus olhos brilhavam ainda mais.
Foi assim o meu dia terminado no mar que me habita e preenche, noutros olhos tão fortes para onde caminho, sempre, sem antes pensar.

30 abril 2009

Deixar-me ser

Enquanto uma voz ímpar, desconhecida e cada vez mais lúcida se faz ouvir em mim, sinto a minha forma fugir, tornar-me quase invisivel. Penso em duas questões: serei a personificação da negação de tudo o que acredito e me fez chegar aqui ou antes uma alma desentendida?
Com a mesma expressão com que um dia, mergulhada na mais profunda lama , soube olhar em volta e avistar mais além e uma vontade suprema de ser, com a mesma força de vida com que alterno nos opostos da minha existência, revisto-me de capas sagradas, dificilmente mostro quem sou, sei que sou!
Com as minhas estrelinhas do norte e um sol que nunca deixou de se mostrar, sempre segui caminhos, parei para respirar, encontrei lugares que decorei com os tons feitos de mim, só para me sentir em casa, lutei, lutei, perdi, ganhei, estou aqui, não respiro, sustenho a respiração num impeto do tamanho do mundo. Conheço a estrada mais larga e sempre que olho parece-me estupidamente familiar, tem passadas repisadas, quase arrastadas de quem espera tão pouco da vida. Sei que nunca soltaria os meus laços coloridos para saltar nesse caminho, encontrando de vez em quando outras paragens de gentes, de sorriso contido e agradecidas pela comodidade do percurso.
Hoje zanguei-me com a ironia dos acasos, pouco banais, com o descompasso do meu tempo, com a inverosibilidade das minhas formas. Tenho febre e estou cansada, e tão cheia de vida que me apetece perguntar se estou em algum programa de Apanhados. Poderia oferecer-me hoje Tchaikovsky e reviver os meus amados Cocteau Twins. Viver uma epopeia forçada ou simplesmente deixar-me ser.
Deixar-me ser. A resposta para os meus primeiros passos, para a paz que me liberta; enquanto o digo, relembro as 7 saias e fitas e capas com que me revisto julgadora de me saber esconder. Encarar caras deslavadas, sorrisos tristes e frases feitas, enquanto dentro de mim, negoceio contratos de puro determinismo. Sou falsa, já sei! Contratei-me para isso ao preço de conquistas de vida.
Preciso de deixar-me ser, só isso!

22 abril 2009

Espreitar

Sinto que, sem querer, abri uma porta e avistei um lugar cheio de sol e de cores. Não andava perdida, tenho esta mania de espreitar, parece que aquela frase de saber o meu lugar, não se ajusta a mim. Gosto de espreitar às janelas, de olhar para dentro das casas e fixar-me noutros lugares, gosto de ver as carteiras e ouvir as conversas, abrir portas que não estão fechadas, conhecer outras pessoas e ver-me nelas. Sinto-me sempre ausente mas até a diferença acalma-me.
Talvez porque não me encontre, gosto de espreitar. Entrar e sair, ter coisas para ouvir e contar, gosto de deambular sem saber onde estou, raramente me sinto perdida e continuo com a sensação que um dia hei-de me encontrar.
Também gosto de falar, às vezes falo demais mas tenho sempre qualquer coisa para dizer, noutras alturas estou calada e deixo-me ouvir por dentro. É sempre a parte mais complicada.
Tenho a sensação herdada que há um tempo que me espera e tudo tem o seu lugar. Quando me ouço, há uma voz desordenada e sentida que me diz para nunca deixar de procurar. E os episódios, desenquadrados, vão-se tornando parte de mim e, estas portas que abri, refletem a mais simples razão de ser.

19 abril 2009

Teste

Ontem, depois de ouvir o meu nome num corredor enorme e cheio de gente, entrei e sentei-me numa cadeira de uma sala de aulas. Sentei-me junto à janela e a primeira coisa que reparei foi na vista fantástica sobre a Leziria do Tejo e num pardal pousado numa caleira. Respirei fundo e, numa fracção de segundos apelei aos Deuses a calma que preciso, desliguei-me do mundo falante lá fora e, encarei uma personagem tipica de professora que ditava palavras sabedoras acerca da forma como nos deviamos comportar.
Preferi voltar a fixar o pardal enquanto uma distancia de tempo quase eterna, distava do momento em que umas poucas folhas brancas aterravam à minha frente.
Chegava o momento de testar a minha "Cultura Geral" e, ainda tive tempo de me lembrar das ultimas palavras carinhosas de minha encarregada de educação acerca da promessa de não se zangar comigo se tivesse má nota. A questão é outra. É uma vontade de aprender que me prende à vida e ainda quem sabe, a satisfação de me dizer ainda capaz.
Numa fracção de segundo, acarinhei-me em silêncio e de seguida, lia 3 páginas de perguntas enquanto a personagem divagava acerca da forma de preenchimento dos quadradinhos de resposta e ouvia perguntas desnecessárias vindas de umas mentes decerto mais calmas que a minha. "Devia ter trazido uma lapiseira, se me enganar, parece que é grave" !
Outra personagem ainda mais aprofessorada mostrava um semblante preocupado não sei com quê e não vi mais nada porque, depois de umas tantas cruzes certeiras e instintivas, a pergunta 8 tornou-se maior; quem raio é este Coubertin? Em vez de uma cruzinha, fiz uma bolinha e segui em frente.
Entre ruidos de fundo, o frio das minhas mãos e a construção de novas caligrafias por forma a caberem nas impiedosas 10 e 15 linhas, passava da hora quando voltei a olhar em frente, dormente e mais calma do que esperava.
O Homem com ar de professor, esboçava um sorriso esforçado entre uma nuvem de pelos em volta da boca. Entreguei-lhe as minhas folhinhas , com a palavra Cobertin na boca calada, sai em silencio, vesti a capa que preciso quando me sinto assim e desci umas escadas muito mais iluminadas do que aquela sala de onde se vê por inteiro e espero ter deixado de mim o que sou.
Está feito, esperavam-me dois sois lá fora.
Pierre de Frédy Coubertin - 1863-1937- mais conhecido pelo seu Titulo Nobiliarquico de Barão de Coubertin, foi um pedagogo e historiador francês, tendo ficado para a história como o fundador dos Jogos Olimpicos da era moderna.

17 abril 2009

Quero ser burra por um dia

Cresço enquanto a minha voz se cala. Numa simbiose de verdade, percebo os instintos e as vontades. Percebo que, da minha boca a convicção deixou de ter lugar. Não estremeço ao pensar que viver é apenas viver, sonhar é só sonhar e pensar... pensar nunca me fez ficar e nem nunca me deixou viver.
Quero ser burra por um dia, despir-me dos conceitos orquestrados em jeito de harmonia, quero as minhas mãos soltas, quero lembrar-me que vivo.
Os meus pés soltos partiriam e eu atei-lhe umas presilhas cor de canela para ninguem as ver, as minhas mãos ensaiam uma dança desordenada que só eu entendo, por isso, mantenho-as fechadas em punho cerrado e zango-me por estarem sempre frias. Antes de acordar, já despertei, antes de decidir, já a minha alma aspira solta tudo que não vejo; levanto-me e falo, respiro vozes de intenção, sem expressão e, resignada, ela volta. No minuto seguinte, sou personagem ficticia e quem não me vê, sorri sempre para mim.
Acompanho-me neste teatro de vida treinada à custa do meu lugar, asseguro-me que carrego nos bolsos uma mão cheia de equações e lógicas para me entreter, e as conquistas não pesam nada e as lutas valem enquanto as viver. Sou desordenada e animada e cada vez mais calada, enquanto me vejo crescer.
Estou cansada e orientada, cega da minha sede de viver.
À minha volta vivo esta calma que reclamei das noites negras em que perdida, julgava saber, e da janela do meu carro, as paisagens ancestrais cruzam-se comigo, noutras cores, noutros cheiros e sei o que dizem, ouço-as falar. Ensinam-me o conto mais antigo acerca de tantas visoes sob o mesmo olhar.
Não quero partir, não quero ficar, sento-me entre duas luas, no chão mais frio que encontre, entre aqui e o horizonte e deixo-me estar, solto os laços de mansinho e deixo-me apenas levar, basta-me a mim e qualquer caminho e, enquanto as minhas mãos aquecem e o vento adormece as mais distantes razoes que me fazem ser, sou eu por inteiro sem mais nada, sem pensar. Estou comigo e sei viver.
Vozes de carinho preenchem-me os dias, sou enfeitada de cores que escolhi nesta vida duma pouca cheia de gente que não se nega a entender, almas gemeas e feitas de mim e de lugares, vazios de outra gente que ambiciona o que diz ser. Sou amada e querida e, neste mar de gente, sei tornar-me em nada, quase desaparecer. Vergo-me às teias da vida, às alegorias e sarcarmos, embrenho-mo neste rebanho, na ilusão de me disfarçar sem sofrer.
Quero ser burra por um dia, não me rever nem pensar, apenas viver.

18 março 2009

O que resta de ficar sem ti?

Nas asas de um sonho feito de mim, enfrento hoje o que me assusta.
O que resta de ficar sem ti?
Desse olhar que não me vê, dessas mãos que me desejam, dos retornos vazios da fantasia de querer perder-me em ti e na vida que sempre quis contigo.
Não foi uma despedida porque as minha palavras ouviram-se noutro lugar.
Não tenho asas, estão perras e caidas, mas sei ser capaz ainda de voar.
Estou parada nesta clareira onde volto sempre e me encontro; neste lugar onde cresci e posso gritar e chorar as lágrimas que me apetecer... Afinal sei parar! Aqui falo comigo e neste medo atroz de reaprender a dizer alto, o estatuto que a minha vida confirma sem ter querido reparar... Tudo está no seu lugar.
Este silencio é-me familiar, somos amigos e existe vida nesta solidão. Estou cheia de mim e desta dor que me acompanha e que reclamou o seu lugar. As palavras são já passado e, nem disseram nada.
Ergo as minhas mãos em honra da minha bandeira, hasteio-a ao vento sem precisar de mais nada. Quero chorar até me cansar e, de seguida, continuar neste lugar.

10 março 2009

Não penso, logo vivo...

Há um momento entre a vontade e o bom senso, equiparavel à fronteira entre a realidade e o sonho.
Ajustamo-nos e adaptamo-nos ao ritmo do preço da vida e da nossa própria liberdade.
Quando o dia termina, e nos minutos que antecedem a dormencia, há outro momento de clara e perfeita lucidez, como um rasgar desse espaço entre o sonho e verdade. Há um monólgo continuo ou exaperado advindo dos actos que preencheram um dia. Uma mescla de fantasia que dignifica a vida e de uma realidade que me adjectiva aqui.
Ás vezes admiro os instintos, no seu estado mais puro, reconheço-os em mim como a mais simples identidade. O raciocinio e o somatório de valores adquiridos tingem-nos de mil cores, desviam-nos e contrariam-nos, imperam as vontades e as omissões.
Surpreendentemente, somos seres sedentos do que não temos, porém, ao mais leve esgar de conquista, os nossos olhos buscam de imediato outro horizonte. Na verdade, somos velejadores em busca de farois inalcansaveis na mesma proporção deste imaginário nosso.
Na verdade somos humanos.
A magia do silencio descomprometedor permite alcance do imaginario enquanto as palavras, mesmo que soltas, refletem verdades ou mentiras com substancia, limitam o horizonte desse olhar distante.
Falaram-me do alcance do silencio e eu lembrei-me da armadilha da palavra
Antes falara da voz do silencio.
Os instintos perderam-se na ilimitação das nossas necessidades, caladas e camufladas de palavras inteligentes.
Penso, logo existo.
Será o pensamento fundamento?
Será a existencia o verdadeiro mote de vida? Será que nas diversificações da alma, não nos perdemos já dos próprios elementos?
Não penso, logo vivo...