18 novembro 2010

Saiu no mesmo movimento que orquestra cada gesto mecânico, as chaves na entrada, organizadas, um ultimo olhar desnecessário no seu condado de cantos e fados, seu armário de artefactos guardiões de viagens mais que  sonhos, leito ensaiado de noites suadas e vazias de conteúdo, outras, cheias de si, pleno.
A rua, aplauso silencioso de movimentos ainda estranhos, quem dera poder ser-se no turbilhão estranho das caras saudadas e cumprimentos diários. A cidade não o habita, porém veste-o de gravata, todos os dias, lavado de sentidos transbordantes  que apelam, que chamam. As árvores já despidas, reflexo de um anseio que poucos olhos conheceram, o seu âmago, seu peito. As passadas consentidas, caminhadas perdidas de encontro a uma vida mais sua que esta rua, esta casa.
Já viveu muito, tanto que os corpos quentes perderam o encanto, as palavras dizem mais silenciosas e no entanto, os seus olhos buscam apenas a certeza de, para além das ruas e das serras, haver névoa branca, haver mistério, busca nos olhos o espelho de si mesmo, rasga o céu nas tardes amenas compondo poemas entrelaçados de espanto, crescimento. 
Diz de si, pedindo, reservas silenciosas. Dir-se-ia estranho no despropósito de ser assim, desmedido e cauteloso, incapaz de partilha sendo meio, cheio de encanto de mãos vazias. Quem o procure que busque nas serras e nos campos, nas aguas correntes e nascentes, que o veja no vento forte que lhe lava a face e nas marés, testemunhas de conversas consigo mesmo.
Não chega, sendo já tanto.
O café quente tem mais sabor assim, jogo continuo, sedento de descoberta, não interessam as conquistas efémeras, guerra aberta com um descontentamento que o alucina, queria tormenta num farol distante, queria paz num colo quente que não tem corpo nas noites necessárias por ser humano, desumana esta oferta sem conteúdo. 
Saiu  como todos os dias, cansado de ver mais que queria e menos que a sua alma roga, vestido de imagem e  metáforas, ornamentado de um mistério que o anima e lhe dá cor, mascara da vergonha e do medo de se saber grande na nudez que já não mostra. Saiu, cumprimentando a rua, vestiu-se a preceito para ser ele mesmo, sem hora nem destino.
A estrada é pensamento, a musica que toca baixinho pauta a vontade de ser caminho, nas margens do rio que percorre na memória, tantas histórias que estas margens contam quando a nascente se torna paixão e a foz alberga semente renovada de esperança de ser esta mais que uma. Será que um dia se lança sabendo que nenhuma margem o alcança? Será barco à deriva, por enquanto, revisto nesta bruma amena da estrada que percorre. Quem dera perder-se nesta terra de espuma, ser ave migrante, quem dera ser cheio da terra quente que o chama, fazer amor por inteiro, gritar baixinho do medo e ser ouvido, ser mais que gente, menos que poema, quem dera ser essa voz de dentro, apenas.
O ocaso assiste, respira fundo e pára, firma os passos na areia molhada, a prosa ganha contornos na sua mente, terá forma mais tarde, por ora ultrapassa o instante que o separa do horizonte. Detem-se na praia deserta por ser fria, aspira o vento cortante que lhe seca a cara e olha em volta. as chaves desarrumadas num bolso, não é mais um dia, são aquelas pegadas firmadas na areia, é o grito que clama e o esvazia das ruas e das caras, é o corpo das rochas moldadas, o silencio que lhe fala, o bailado de palavras na sua mente, é esta verdade.
Quem dera ser agora maré vazia por ser cheia para lá do que avista.

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida

Muito cheio de emoção e de vida este belo texto que adorei ler.

Quem dera ser agora maré vazia por ser cheia para lá do que avista.

Uma verdade...para além de nós.

beijinhos com carinho
Sonhadora