11 Março 2012

Há um ano, estava perdida de mim, os acasos ainda agora me atormentam, se por uma voz me vejo aqui agora. Estava onde me não lembro, estava morta ou mais que viva. Era mãe e não me lembro, havia  um  ser por que tanto lutei, pequenina e eu, não me lembro, não me lembro. Há um ano,celebrava a vida e devolvi-me da morte. Morte, uma palavra que mal pronuncio, como se me garantisse a sua negação. Toda a minha vida brinquei com ela, e nesta noite fria, as minhas mãos molhadas tremem pela pequenês, pela ironia que me cala.
Há um ano, tive uma filha que me dá vida.
Há um ano, quase perdi a minha.

Hoje não me apetece a prosa nem a musica que as palavras cantam, preciso respirar fundo escrevendo, sinto um grito cá dentro, tão calado que me dá medo. Não me vejo em nenhum sitio e existo, vivo e grito. Vivo de um sentimento tão forte e ainda desconhecido, a minha flor pequenina que me dá vida, no resto, sou uma imagem baça do que sinto, sou silencio e desencanto.  Há um ano, fugia-me a vida, sem me dar conta, não me lembro, ainda agora me esforço e as imagens não chegam. Olho para trás e dá-me vontade de rir, o forte que sou de tão pequena me sinto, e ao invés, caem-me lágrimas num desvario que não conhecia em mim, agarro-me a mim, abraço-me, esqueço-me porque preciso de ser mais sana que sentida.
A minha filha é linda, todos os dias assisto a momentos que guardarei sempre. Dedico-lhe a minha vida, por inteiro, e por isso sou mais forte ainda, mas cá dentro, grito, esperneio. Não me vejo.
Estou cansada de palavras, só queria alivio, calcorreio caminhos interminaveis em pensamento, olho em frente, cega de um desejo que já não creio, já não bebo, e tenho sede, tenho a boca seca de vida, de um abraço que me sinta, incorpóreo, sentido, estou despida, desenvolta das imagens construidas, das palavras compostas e dos dizeres fantasiosos, queria agua fresca de um ribeiro, queria fechar os olhos e calcorrear o caminho sem que as pedras me doessem, queria não me reconstruir todos os dias, ser sentida apenas.
Não sei se é tarde, se é cedo ainda. Não me sei perdoar pelo que de mim vendi, penso demais, sinto demais, olho em volta e os espaços são ocos, as palavras mal falam.
As palavras não saem.
Recolhida, na serenidade que me mata, nos valores que não desdigo.
Recolhida e perdida.
Estou tão cansada.
Estou tão errada.
Estou tão zangada comigo.

06 Janeiro 2012

O tempo também é distancia

" O tempo também é distancia", disse-me de um soluço que o vento frio sustenta. Vejo-me ao largo, vejo-me ao longe num horizonte estranho, vejo-me aqui vestida de saudade e esquecimento. Ao meu lado a vida que me dá alento e uma corrente de imagens que correm no meu pensamento. Se me quedo ou desengano, se sinto  ou adormeço, doi-me o corpo se me vejo. Ver-me com olhos de dentro, que calo a toda a gente, dos gestos que mal me dizem, do cansaço que não sinto, deste pranto e contentamento. Vejo-me ausente se me vejo.
O tempo ofereceu-me a história que escrevo ano após ano, vista agora parece tão estranha. 
Um dia quis crer ser verdade que se lançasse uma fita quebrada ao mar, na sétima onda, ser-me-iam concedidos três desejos, um deles, doido, era repleto de ilusão, pensava eu, os outros eram apenas uma questão de gestos que não aprendi a orquestrar. Enquanto os acordes soam na minha mente, ainda agora não os conheço e porém, o mais distante, o mais sofrido, o que tantas vezes me fez desacreditar, cresceu em mim, feito de medo e de uma força maior que o meu corpo, deu-me um horizonte novo para alcançar, deu-me rumo e uma vontade tremenda de me ver. Já não sou dona de mim como julgava ser e, no entanto, tenho-me inteira, sem a sede de outrora de ser vista, ser amada ou sentida. Sede apenas de ser viva.
O tempo não muda nada, distancia-me, deixo o tempo lá atrás e metade de mim abala com ele em troca de um mundo de agora, de memória e esquecimento. O tempo não muda o que sinto, sinto o mesmo, a mesma sede, a mesma vontade ridicula de correr, o mesmo amor por qualquer coisa que não existe senão cá dentro, um amor assolapado que não me prende a nada, que me cala de medo que um dia o veja passar sem que o tenha vivido. Miséria a minha, sentada, atenta, o rio que passa, a foz que adivinho, a descrença que ainda seja agora o mesmo tempo, que o faça, que o sinta.
A intemporalidade reside nos passos que deixei marcados no caminho onde agora me vejo. Tenho vergonha de tantos, culpa por outros, tenho medo de me ter desviado numa altura do caminho e  me ter perdido, tenho a sensação que me encontro no que vejo agora, nos sentidos com que pinto a minha história que o tempo me ensina, me açoita, me grita cada erro e cada vitória, tenho uma história que não conto mas que sei quase de cor, vista de tantas formas.
Enquanto guardo um respirar tranquilo, lembro de momentos cheios de palavras que ficaram sem ser ditas, de tantas sem sentido, do grito que me chama e não me sai, lembro-me de tantas horas que enchem um tempo que agora parece pequeno, da história que é urgente saber contar, erguida da memória e deste tempo que me permitiu não esquecer.


10 Dezembro 2011

Veste-me  névoa fria, reconfortante. Algures há aquele silencio que oferece vida, uma calma transparente, pequena, há uma moça sorridente que sonha sentir os lábios mais quentes, a tez ardente. Aqui, me tenho cansada de ser segura. Aqui me tenho lembrado de mim, vista de um vértice novo e inquietante. Vejo-me pouco, olho-me muito. Olho as histórias uma a uma, marcam agora a minha forma de as entender. Lembro-me do tanto que me ofereci em troca de quase nada, das marcas lavradas numa passada fugidia, apressada contra um tempo que sempre pareceu desconexo. Quis ser amada antes de tempo, quis dormir acordada, quis que os sonhos se fizessem dia com um estalar de dedos. Cheguei a já não querer nada. 
Respondi, estou desiludida. Não com nada, comigo. Não sei se gostaria de me conhecer de passagem. No fundo, sou boa pessoa, tenho um mar de sentidos em mim, orfãos, desirmanados entre si. Nada passa afinal, ficam as marcas, faltam as palavras quando desaguo a escrever. Falta-me um grito calado há demasiado tempo, falta-me esse sorriso gratuito que me seria devido. Perco-me num medo de já ser tarde quando sinto que ainda quase nada começou. E tenho este tanto cá dentro, em silencio.
Apetecia-me correr agora, só parar para gritar de vez em quando. Apetecia-me mergulhar em tudo o que sinto, beber cada trago, entender. Apetecia-me chorar muito, muito, até vir aquele soluço de alivio, e depois, deixar-me ser, sem medo, sem silencio, esquecida do medo e do tempo.


01 Dezembro 2011

Há quem ainda chore sem saber bem porquê, que reflita na face molhada o que não sabe expressar, há quem ria ao mesmo tempo e se pergunte se assim se apazigua. Há quem se esconda nas palavras e quem nelas se confunda, há quem ria dos outros na penumbra do desconhecimento, há quem grite e quem se conforme. Há quem se auto analise sem duvida, há quem se cale e seja transparente, há quem minta de tanto que fala e há quem sinta que não tem nada a acrescentar, mesmo tendo. Há a melhor e a pior mãe do mundo, há o que mata e o que morre um pouco, todos os dias. Há o que muda e o que teme, há ainda o que lamenta o dia que pisou o caminho ameno. Há o velejador que já só se encanta com o horizonte, e a menina que sonha um dia se deixar voar. Há o triste e o contente. O que inveja e o que desmente. Há o intelectual que desdenha o tangivel e o que se preenche apenas com um dia. Há o que ama e o que já não acredita. Há o que critica porque sofre não ser e o iluminado que julga saber. Há o triste e o contente e, de ambos o que não sabe sentir. Há o confiante e o desconfiado, há quem, cheio de narcisismo, seja cego e quem, não sabendo, tanto conheça. 
Há os que julgam e desdenham, há os que cansam, perdidos de palavras encenadas para a audiência, há os que não ouvem e não se perguntam, há os que não existem, há os que vivem e os que passam, há os que ficam, por muito que aconteça. Há os que esquecem e os que lembram, há os que amam sem tempo e os que ocupam o tempo de presença sem mais nada. Há os de caras ferventes e os de quem ninguém se lembra. Há os encantadores de alma e os pedintes de afecto. Há os que se despem e os que se mostram, há as putas e as que compram, há os que pedem e os que se vendem, há quem troque e quem se ofereça, há quem beba e se esqueça, há quem se drogue e ainda sinta, há quem não faça nada. 
Há quem chore e se esconda, há quem cante mesmo quando sofre. Há quem procure e encontre, há que procure e não peça o fim da história, há quem já não se contente e quem não ouse crer em mais ainda. Há quem ria simplesmente. Há o sério e vazio, o preocupado e o doente. Há o demente cheio de vida. Há o louco e o temente. Há o que escreve e o dormente. Há tanto vazio...
Há o que ainda não se conhece e o que não se permite a pergunta.
Há o que chora, o que teme, há o que conhece.
Há o que ama e o que se arrepende.
Há o que ri e que chora.
Em cada um, estou eu.

21 Novembro 2011

Fui agora lá fora, abri a porta e sentei-me num instante na soleira. Faz frio e a minha cara ainda ferve de vez de quando. Ao longe, misturam-se os sons da noite, compõem a memória que faz tanto caber num instante. Misturo as pedras que me erguem, as lágrimas que correm e me aquecem mais ainda, não estou triste, que sorrio. Sorrio do que conheço e saúdo, das palavras que me saem sem pensamento, das musicas que lembro e canto. Sorrio e tenho o coração apertado. Há pouco revisitei o meu pai, nas palavras com que cresci, num segundo, voltei a ser pequena e a olhar bem alto para o ver, de mãos dadas no passeio que sempre fazíamos, em noites assim, frias e quentes dentro de mim. Sentado como eu, escrevia num sopro de saudade e medo, imagino que no fundo chorava uma perda adivinhada, confundida com a mesma rua onde já ninguém passa e pára, onde já ninguém assoma para dizer "bom dia". Meu pai grande que fala, dizendo sempre o contrario do que lhe vai na alma. Pequena como me sinto ainda, quis dar-lhe um abraço com toda a força que tenho, com o que também eu sinto e mal falo, com outra saudade dessas mãos grandes que me seguravam e o mundo parecia um lugar encantado. 
Em pensamento, enchi essa rua das musicas que a avó cantava, do semblante pasmacento do "ti Diogo", da nossa algazarra, das brincadeiras, do cheiro, das caras risonhas que enchiam as conversas às portas, das filhas que esperavam vê-lo surgir lá em cima na curva a seguir ao campo da bola. Imaginei uma lua cheia por cima e a promessa que nada passa, nada acaba, sentado na rua agora cheia, não estarás nunca só, nunca pai,.
Agora, enquanto a minha pequenina dorme e tudo parece calmo, parei um instante, aspirei fundo e não me apetece dormir, quero lembrar-me do tanto que se fez em mim de ti. Lembrar-me dessa velhinha que embalas sem uma palavra. 
Amo-te muito pai!

11 Outubro 2011

Palavras.
Faladas, são respiração da alma, são cansaço, alegria, são abraço e empatia, se o mesmo timbre, dita o compasso que as separa, como um suspiro, no laço que se cria. Palavras são embaraço, são a vergonha de não ditas, telas coloridas, caladas de tantas silabas que nada dizem.
Escritas, demoram mais tempo, guardam ideias em simultâneo, o toque dos dedos, os tons do lápis, guardam os olhos que as combinam.
Palavras não são nada, falam muito porquanto escondem, calam o que fica cá dentro, o que agonia, o que dá medo, mais tarde, hão-de ser um grito, soprado num instante, num momento em que a solidão nos diz tudo.
Já misturei mil palavras num pensamento, ficou emaranhado e sem sentido, já falei tanto em silencio, já ensaiei discursos, para mais tarde me esconder, já enchi paginas sem sentido. As palavras cansam, aliviam, choram por mim e sem eco, vou escrevendo, sentindo o que conto, o que calo, o que minto e sinto.
Palavras, palavras. 
Das histórias, não me lembro das conversas, lembro-me dos gestos, e os meus, nem sempre falaram de mim. Das conversas, ficou-me o tom e o ruborizar da minha face, ficou pensamento que mais tarde me voltava à mente, ficou mais o compasso que a orquestra de silabas inteligentes.  Sempre pensei haver palavras em falta, na minha escrita, no meu dizer, outras cansadas de tanto ditas na ânsia de as sentir. 
Embebedo-me de palavras, horas a fio, no que leio, no que ouço dizer.  Por vezes, julgo-me louca nos devaneios que me permito, no que vejo, no que sinto, forço-me uma normalidade dita em tom de conversa, aqui e ali, ensaiada. Cansada de palavras e da falta delas.

02 Outubro 2011

Ergo os olhos e prometo que da próxima vez, dou-te as mãos e mostro-te caminhos que descobri, dou-te um pacotinho de lapis coloridos para desenhares os teus sonhos, de mãos dadas contigo sou uma mulher que conheço e destapo a cara para que vejas cada pedaço de mim.

O meu coração transborda só com o teu sorriso.
A manhã cheirava a um fim condizente, de cores quentes e musica que abraçava o rio em baixo. Na sombra, em cada banco, havia uma história que me entretive a ouvir, sem que de palavras se fizesse, é o reflexo em cada espelho, nas caras serenas, outras zangadas, onde sempre me revejo.
A manhã falava baixinho, havia guardado os cheiros porquanto os sentidos se enchessem de salva e alecrim, e respirasse este bairro antigo que fez tanto de mim. Aqui estudei um tempo, aqui me encontrei e perdi, experimentei saciar tanta sede sem receio, sem esta vida pesada de passado e presente, vim aqui tantas vezes, olhar a cidade onde cresci. 
Imaginei a mulher dobrada sobre um jornal amarelo, passando pelas horas bebidas de historias que lhe roubam a solidão, o homem ávido de agradar a cada rebento que o habita só nestes dias por obra de um qualquer fim. Imaginei-me a mim, perdida aqui, sem antes ou agora, só aqui. Com o mesmo brilho que não sai dos meus olhos, feito das memórias, dos instantes, porque não guardo muitas histórias, guardo os sentidos, a dor de estômago de calar a resposta, o calor da minha cara tocada, as mãos dadas que me valiam o sustento de um horizonte bizarro que não era só eu que via. Guardo as palavras enfeitadas, espelhadas do que não se dizia, "os meus trapinhos" coloridos, aquecidos de nostalgia, nem sei de quê.
Precisei de tempo, para ver o que não via, mesmo sabendo. Precisei de crer que a honestidade me salvaria, que as vozes concordantes me devolveriam; precisei de me zangar comigo, de gritar alto e de tempo para me desiludir e trair, de tempo para desacreditar e amar um momento, e mais tempo ainda para me sentar aqui, num mesmo banco com cheiro a madrugada e deitar uma lágrima, por nada ser assim.
Sou a mulher do jornal amarelo, transparente a quem passa, fugidia de mim, mesmo sabendo, desconfio da minha capa, conheço a cara tapada cujos olhos ainda sonham e choram por nada, porque ainda sinto e não passa. Este tempo, deu-me o maior sonho escondido, deu-me vida e matou-me um pedaço por dentro. Agora, contar-me a história que vejo, seria baixinho para só eu ouvir.


22 Setembro 2011

Sentida de uma lágrima que aprendi a conter, se um sorriso é preciso no teu despertar, triste, tão triste pelas coisas pequenas do meu mundo, se é ele feito pela soma de cada uma. Sentida por  cada decisão e hesitação, tornados agora caminhos onde mal me vejo. Esbracejo e soluço em silencio e conto na minha memória se cada segundo não foram antes horas que me quedei sem me ter. 
Triste por deixar que o que sinto me tome, triste por cada passo pesar, sorrio porém agora, porque nada disto importa, nada, o teu sorriso é mais que tudo.
Foi só um dia, só mais um.
Nada importa, nada mesmo, sinto tanto agora, sinto-me capaz de tudo, houve um segundo em que as tuas mãos pequeninas despertaram a percepção da minha essencia. Talvez por ser novo, talvez por já não ser o centro do enredo, nada mais importa, apenas tu, minha pequenina.
Foi só um dia, cheio de ti.
Foi só um dia cheio do meu verdadeiro mundo.


20 Setembro 2011

Esta manhã, trouxe-me cheiros que outrora vazios, me despertaram memórias. Lembrei-me da casa que oferecia um sorriso raro à minha avó, na azafama da vida. Vida acompanhada e desmultiplicada de ornamentos, vida simples de pensamento, vida suada nas terras e chorada sem que poucos vissem. Lembrei-me dos passos firmes que me ensinava, da voz mansinha com medo que se ouvisse. Aquela casa na esquina era um sonho por demais distante, se a sua fora roubada nos gritos levianos que apregoavam liberdade. Alentejana perdida numa cidade que a acolhia roubando a verdade e ousadia. Para trás ficara uma vida, deixada caida no terreiro do monte, de fugida. Lembrei-me de não ser tão complicada, de cabeça caida no seu colo, e de me sentir capaz de abraçar qualquer mundo. Lembro-me de tanto, tão pequena...
.... Do que me prometia e cumpria, de roer as unhas até fazer sangue, antes de cerrar os dentes e aceitar ser capaz, das conversas que tinha comigo, quando tudo me assustava. 
Esta manhã, devolveu-me a minha companhia, ser inteira por um bocadinho, sem mais nada, sem a saudade que me tenho, sem a falta da metade que deixei perdida no caminho. 

Talvez por entender agora que há um amor inteiro e infinito, pelo soluço que engulo tantas vezes nestes dias, talvez por encenar tanto este sorriso, mesmo quando o sinto, lembrei-me que ainda acredito, que ainda sonho ser inteira e abraçar o mundo que via. Há uma luz que me guia agora, que ofusca a ilusão e o medo de me perder. Estou meia, cansada, cansada, rendida. Não me encontro onde me quedei, não me vejo quando me olho, não digo o que sei e preciso de mim como nunca precisei. 
Talvez por agora ter pousado no meu colo um rosto que é tão mais que apenas eu, preciso de lhe oferecer uma voz mansinha que almeje a mesma luz e outro sonho, ainda mais bonito, que o meu afago se estenda ao mundo e, se as palavras não me chegaram, tem que chegar um momento em que o abraço seja mais que um laço, seja a sede de ser capaz. 

Este palco, que percorri de canto a canto, onde encenei cada embaraço, falei tudo menos do que sinto, este cais onde aceno e chamo, este traço esbatido no meu caminho. Cansaço. Passei tanto. Chega. Preciso abraçar  este mundo.

20 Agosto 2011

Trovejará onde estou? Aspiro aquele cheiro molhado do feno, tenho saudades da cara lavada sem sabor a sal, a terra moldada debaixo dos pés, pegadas de acaso, quando não sei onde vou. 
O entardecer quente e cinzento, ofereceu-me um sorriso. Quem dera ser guiada pelas ruelas da cidade, poder misturar as palavras falando do mesmo, sentar-me no chão em silencio e ouvir a musicalidade do devir desse momento. Quem me dera saber pintar o que sinto. Guiei-me a mim, sem destino, esquecida dos minutos que passara numa maquina cavernosa, ruidosa que auscultava o meu cérebro. Estou intacta... Afinal o turbilhão é o meu, revigorada numas imagens de mim por dentro. Achei bonito.
Habituei-me aos acasos que a vida me oferta. Julgava dominar cada minuto, julgava não ser verdade poder morrer num segundo. Aspiro as lembranças de mim contadas por quem me ouviu, soube agora que resisti. Sou eu, por inteiro, somada, acrescento de um ensinamento que apreendo devagar.
Na mesma parcela de tempo, perdida numa ruela qualquer, ponho tudo em causa. Tenho pressa mas quedo-me ali. Quem me dera ser guiada, só por um bocadinho...
Mostro-me forte e segura, os meus passos tendem em trair-me nos compassos hesitantes do caminho. Não sou assim, tenho medo que seja tarde para tudo. Medo de quê? Já não sei se quero um cais seguro abrigado do desvario, já não sei se me magoa o que vejo e não digo, já não quero ser tudo, já não quero andar mais depressa, queria ver o mundo que os meus olhos pedem. Queria um livro que falasse comigo.
Encontro pessoas novas, escuto tudo, estou tão cansada de frases feitas e caras tapadas, sempre as mesmas, retidas como eu num ser onde se mora de vez em quando. Vejo o meu orgulho espelhado, a minha hesitação. Ouço o meu coração como nunca ousei ouvir, bate forte, tantas vezes. Outras, apetece-me esquecer, fazer por um instante o que a minha alma pede, o que me apetece, despir-me de mim.
O meu coração bate mais forte agora, apertado, nunca senti assim. Apertado como o mundo que seguro no olhar para oferecer. As palavras que guardo, os sitios e a simplicidade que prometo. Já não quero ter muito, quero ver, quero aprender com isto tudo, um abraço sentido e um horizonte como o meu.
Sobrevivi, já não vejo como vi.

19 Agosto 2011

Devia ser uma menina bem comportada, como sempre me disse aquela velhinha de cabelo como a lua que avisto agora. E eu, sempre me apeteceu dizer-lhe que ao ser assim, perderia o que julgava ser encanto, porquanto me veriam sem as mascaras com que me vestia. Cresci na ambiguidade de saber mais que isso e, mesmo assim não ousar ser. Perdi-me nos abraços vazios que me despiram mais que aqueceram, nas palavras desbocadas e sem sentido que os meus olhos pediam, pedi emprestadas dez vidas, ou mais que isso, sem mais nada, sem calma, queria ser amada, sem saber que tal seria. Mesmo assim, hoje sentei-me à beira daquela porta  que teima em não morar na minha memória, reli as linhas que falavam de mim nesses dias; fumei um cigarro e, como sempre distrai-me a ouvir as conversas que me ladeavam. É mais facil do que sentir.
Entrei na hora certa, mudei, cheguei a pensar que chegar a horas era sinal de ansiedade, mas as minhas horas são outras agora e a minha verdade descontinua-se no rol de ilusões a que me assisto. Chegar a horas é o respeito que devo, assim como o abraço genuino com que fui recebida. Aquela senhora conheceu-me noutras horas, horas de breu e de um caminho que hoje me assusta ao ponto de não querer pensar.
Constrangida, emocionada pelos rostos que guardo e a quem devo a vida, entrei na sala em direcção ao abraço quente, indefesa, grata e pequena. Pequena perante esta vida de acasos com sentido, pequena na emoção que me acompanha e aperta o coração, grata por esquecer e poder viver, indefesa na verdade que me ofusca e envergonha. 
Ouço e leio frases estanques, adjectivadas de pronomes e imagens, metáforas da vontade e inverdade, eu não sei quem sou, não sei o que fazer com o que sinto e o que penso, sei agradecer estar aqui. Não sei ser simples no turbilhão que vive em mim, não sei se me devolvi os pedaços que ofereci a troco de nada, não sei se paguei o que roubei a quem se despiu perante mim, nas minhas  imagens moldadas, sempre me desiludi. Não sei se fui amada, se quis crer que sim, sou hoje o passado que guardo em mim. 
Sei as lagrimas que solto na incompreensão. Sei o silencio onde me guardo e este abraço. Sei o medo da descrição, de um conto meu a que não assisti, e o meu sopro de vida é assim, um respirar finito, compassado no meu sentir. 
A dadiva da minha vida é tão mais que eu... " que parva que eu sou..."

15 Agosto 2011

Lethes

Gravado no granito majestoso que sempre me fascinou, li dizer a lenda que ali existia a fronteira entre o mundo dos vivos e dos mortos, que o Lethes transposto, oferecia o esquecimento ao qual me apego na duvida se seria a dádiva, vida ou morte. Esquecer é renascer ou antes morrer de um pouco de mim?
A distancia temporal dá-me vida e clareza, na culpa, na vergonha de ser pequena e mesmo assim, ouso não querer esquecer, morrer ou reviver mais ainda. A distancia da minha janela que amanhece todos os dias, tal como eu, clama vida, e neste rio, renasci, como aprendi em cada viagem, em querer saber, e morrer assim, ou renascer.
E o cheiros que vivi? O cheiro fresco dos poejos abraçados à corrente, desfocada da algazarra festeira e da romaria, perdi-me nas lendas e no alcance, nas pedras magnificas esculpidas de historia e revivi ser eu ainda apaixonada por ideais erguidos em mim, feitos de imagens e sonho, irreais de tão sentidos.
Preciso tanto destes momentos, de desordenar o caos que me ordena e sufoca, de ver cores e ouvir gentes perder-me de olhar e sorrisos quentes, sentir a chuva na pele quente de cansaço, e de repente morrer um instante, para nascer em mim. 
Esquecer é tanto morrer como perder a herança que me fez assim. Por isso, sem hesitar, atravessei o Lethes para me lembrar, sempre.

02 Agosto 2011

Passaram 10 anos de um dia que se fez, de mansinho, noite escura, madrugada e amanhecer. Povoada de noites escuras e claras de não dormir, de sonhos cristalinos, de medos e vergonhas, de uma culpa e de uma verdade dificil por doer. Passaram dias opostos à sucessão de ruelas cinzentas onde me perdi, da embriaguês que me seduz, da metáfora alucinada na qual quis crer. Não me sinto diferente agora, revejo-me nas mesmas horas, prevejo a voz que me chama, que me atordoa. Ancorei-me por temer um mar onde me perderia de vez, calei-me de um grito só meu que ecoa em baforadas estrondosas, vezes demais. Sou livre agora, não sei.
Não sei o que significa tanta coisa.
Tenho sede de saber, de ouvir, mais que palavras, os sons que me tocam por dentro e são tão poucos. Da mentira, retive ser capaz de exponenciar a minha essência, da vergonha, o medo de me mostrar no reflexo espelhado que teimo em esconder. Da culpa, calei a minha arrogância em ser maior, sou pequena no que me devo, no perdão que peço ao amor verdadeiro que me deu vida, tantas vezes foi preciso.
Tenho mais medo. Tenho medo do que vejo e aprendi, tenho medo do que penso e não digo, escrevo em mim, num canto cá dentro que me dá vida. 
Não sei o que é ser feliz, não consigo, baila em mim um turbilhão de dias cinzentos pintalgados de sorrisos por nenhum motivo. Às vezes sinto-me sozinha outras, agradeço poder escolher. Não sinto como devia, penso.
As mais duras guerras são comigo.

Tenho saudades do meu amigo.