31 dezembro 2009

Aqui me deixo II



E antes que siga a estrada, ainda encantada pelas luzes desta terra, antes que apague as imagens que guardo com estas mãos pequenas, deixo-me em palavras e nas musicas que encontro, na voz que as almas me cantam, e eu acompanho sorrindo no meu caminho de pedra.
Há aqui mãos que moldam granito, há homens de mãos suadas, há uma rotunda de um homem esculpido de branco, há gerundio cantado, há uma amiga tão bonita e despedida de dormencia embriagada, aqui há histórias minhas que não apregoo. Há ciganos que cantam, máquinas fascinantes, bancadas que talho. Há vasilhas de barro nas falhas de marmore, e caes misturados. Há pão cozido. Aqui, há agua verdejante, aqui o tempo não para, espera antes.
Aqui, me deixo agora, nas musicas e na vontade de não regressar.


OqueStrada


Descobri agora, vou ver assim que puder.


Rosario - Chambao


Vai ficar aqui um tempo, de vez em quando, encho os meus dias a ouvir Chambao, lembro-me da Andaluzia, de sevilhanas e flamenco, estas musicas levam-me longe. Como el aqua.




Miro a mi alrededor y no te encuentro
miro pa un lao y pal otro, y no te siento
a veces tan cerca y otras tan lejos
que no soy capaz de describir
éste sentimiento.


Será que te escondes
será que te pierdo
que no soy capaz ya ni de retenerlo
será que tengo miedo, miedo, miedo.

La luz de un nuevo dia me despereza

intento poner orden dentro de mi cabeza
quiero volar, volar muy alto volar
y poder cantar, lanzar al aire la pena.


Será que te escondes
será que te pierdo
que no soy capaz ya ni de retenerlo
será que tengo miedo, miedo, miedo.


Trilhos (da Guitarra Portuguesa)

Assim que voltei, ouvi vezes sem conta e juntei-lhes imagens tão bonitas que ficam comigo para sempre. 
Misturei azeite, que persiste no cimo da água até agora.


Amalia Hoje

Fiz tantos kms com as musicas na boca e um Sol no meu destino.

MU
Uma noite quente, dancei de pés descalços enquanto uma voz doce me mostrava o som da outra margem enevoada. Gostei tanto do que ouvi, e o ano que vem, voltarei.

Ana Moura
Tenho uma memória da minha cidade guardada com ela
E agora, que comi, que me lavei de terra e não guardei lágrimas. Sigo viagem com estas e outras, que mais que palavras valem gotas de chuva na estrada.



Assim me deixo

Acordei cinzenta como o dia, os meus olhos demoraram a querer despertar. O primeiro pensamento levou-me há exactamente 365 dias. Saltava da cama, atrasada para viver, tinha um sorriso cá dentro que me despertava antes de acordar. Tinha a consciência da fronteira entre o meu horizonte e o meu dia, tinha uma estrada que explorava no meu tempo. Este sentimento de evasão, esta forma de meio ser, era como um compromisso fronteiro, era um dia por nascer, o meu passado trazido numa mala cheia. Era como se os dias aguardassem, serenos que eu tacteasse o meu caminho.
Há exactamente 365 dias, eu escrevia como bebeda, escrevia muito na minha mente, nas horas que construia em mim, vontade de mais ser. Vinha de um dia escuro que me fizera crescer tanto. Tinha sentidos, tinha momentos comigo que são os que agora lembro. Tinha um não na boca a cada invasão e investida, tinha as viagens na memória, tinha uma morada e uns olhos verdes que brilhavam por mim, de vez em quando.
Não tinha muitos amigos, mas de vez em quando, sentia a presença que deixara nas vidas de quem gosto, que eu gosto muito e não gosto nada, tinha as vontades que construira em conjunto com as pessoas que entraram em mim e ficaram para sempre.
Há exactamente um ano, havia um bando de passaros no muro do meu jardim que partiam quando eu acordava, e eu gostava de acreditar que esperavam por mim mais à frente, onde os meus olhos vislumbravam uma luz demasiadamente forte naquele momento que eu queria tanto.
Tinha palavras que me saiam com conteúdo e integridade, tinha o meu amigo que não me olhava admirado como agora. Tinha vida cá dentro, tudo em mim respirava, tinha o mar e a terra ao alcance das minhas mãos.
Tinha uma dor imensa também, mas eramos companheiras e já riamos em conjunto. Tinha  doença silenciada, tinha na memória, os filhos que não tive, os sorrisos que calei por vergonha, tinha a traição abraçada, tinha a convicção de cada lagrima, mais por mim, do que por outra coisa qualquer. Tinha o Alentejo nos meus olhos, as palavras de amigos que fui encontrando, sabia que caminhava para um porto que não queria ser de abrigo, queria um barco que me aguardasse e levasse.
Há exactamente um ano, sorria o dia inteiro e a minha mente fervilhava de ideias novas. A minha pele brilhava  e o meu cabelo era forte. Por onde quer que fosse, gostava das minhas roupas e do meu reflexo nas montras, sonhava ter uma mota que me levasse longe e revia-me nas faces mais simples que se assomavam nas portas ao entardecer. Tinha-me em todos os gestos que encenava, protagonista num palco real que ensaiava.
Tinha construção nas minhas mãos, sonhos, aspirava amar de verdade um dia, daquela forma que não conhecia, mas lera nos livros, cheia de céu e inferno, cheia de mar e de terra, sonhava ainda com um cavalo alado que entrasse em mim e me despertasse por inteiro.
Hoje acordei cinzenta, ignorei os passaros, vi pela primeira vez no meu corpo as marcas do meu desnorteio, vi nas palavras o permeio de anseios e derrotas. Vi o que já conheço e julgara distante, diferente. Deixei-me estar com coragem para me olhar de frente. Num ano, vi o meu céu e o meu inferno, as minhas mãos calaram-se na minha criação, porém construi em esforço mediano, sem deixar nenhum sorriso, sem saborear nada. Conheci os meus receios e o meu descrédito, naufraguei no porto sonhado, vi o meu cavalo alado preso e cego, como eu, vivi cada acto da minha negação, ensaiei peças de teatro sem vida, por medo e evasão. Reconheço-me nos sonhos e nos abraços sentidos que dei, no meu esbracejar molhado e salgado de não saber. Reconheço-me desperta como o fogo que me invade agora.
Hoje acordei cinzenta de culpa e vergonha. De mãos fechadas e olhar distante.
Acordei e pensei que o meu sonho era mais bonito, que o medo tem fundamento, por isso existe, procurei nas minhas gavetas empoeiradas a integridade e a coragem, tenho um pedido de desculpas para me dar logo à noite, desculpa ao meu mundo e ao meu vento, desculpa ao sonho que não soube abraçar, desculpa às marcas insanas e a cada maré vazia que a minha praia vê chegar. Desculpa por precisar ainda de umas mãos fortes que se esvaziam, de uma morada que me acolha, dos meus gestos de menina que sou mais que nunca, do meu tempo e da minha estrada, das marcas, das falhas que no fundo nada de mim guardam. Cá dentro há alma viva. Digo que não gosto de ninguém, mas gosto de tanta gente... Por dois ou três faria tanto. Digo que sou grande e junto pedaços de mim agora.
Acordei e lavei a minha cara com a ultima agua que tenho. Convicta e decidida. Porque há um ano, me havia a vida.
Tenho tanto para crescer e caminhar, tanto que devo e guardo. Sei ser unica e diferente, sei ser meu mar e terra, sei o que me move e há por dentro, alma que chora agora.
Do cimo de uma cadeira, onde quer que esteja, o meu desejo, que daqui a um ano, onde aqui me deixo, tenha um sorriso nos labios, a pele mais sedosa, o cheiro da terra no corpo, tenha alegria à minha volta, tenha o sol nos meus olhos e veleje num barco solto. Tenha um lugar com o meu nome à porta, um canteiro de flores que não esqueça de regar, o meu amigo ao meu lado, tenha amor nos meus gestos e uma migalha de mim em cada passo. Tenha musica que ecoe cá dentro e vontade de escrever e de ser.

30 dezembro 2009

Instantes

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida,  
na próxima trataria de cometer mais erros. 
 
Não tentaria ser tão perfeito, 
 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.  
Seria menos higiênico. 

Correria mais riscos,  
viajaria mais, 

contemplaria mais entardeceres,  
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
 
teria mais problemas reais 

e menos problemas imaginários. 
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata  
e profundamente cada minuto de sua vida; 
 
claro que tive momentos de alegria. 

 
Mas se eu pudesse voltar a viver 

trataria somente  
de ter bons momentos. 

Porque se não sabem, disso é feita a vida, 
só de momentos;  
não percam o agora. 
 
Eu era um daqueles que nunca ia 
 
a parte alguma sem um termômetro, 
 
uma bolsa de água quente, 

um guarda-chuva e um pára-quedas e,  
se voltasse a viver, viajaria mais leve. 



Se eu pudesse voltar a viver,  
começaria a andar descalço no começo da primavera 
 
e continuaria assim até o fim do outono. 
 
Daria mais voltas na minha rua, 
 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo" 



Este texto, dos que guardo com carinho fica aqui agora, comigo.
A maioria, atribui a autoria a José luis Borges, tal como nas escolas nos presenteiam como exemplo de um livro de Ruben Alves.
Na verdade, este texto correu mundo, ouvi-o em bocas bonitas, em volta de uma fogueira, e sua autora uma desconhecida poetisa, de nome Nadine Stair, que o publicou em 1978, 8 anos antes de Borges falecer.
Por erro crasso de jornalismo, foi assim que o ouvi
Instantes
Instantes
Não interessa, é bonito e diz tanto! 
Viva!
Voltou o meu mau feitio.
Fez-me tanta falta estes dias...
Não gosto, não me apetece ver ninguém,
Não estou disponível para nada,
Vou para onde me der na gana.
Apetece-me comer porcarias cheias de açúcar,
Mandar os casalinhos passear e ouvir Rui Veloso
Desde que me deixem passar..
As mensagenzinhas de Bom Ano dão-me vontade de tossir,
A minha dor de cabeça voltou, deixo-a estar, sei de onde vem e vai passar não tarda,
Não gosto de nada do que me rodeia,
nem quero nada na verdade.
Vou-me despir e posar para mim,
Não gosto de escadas, prefiro o chão,
Estou a acordar de uma parábola, de um conto infernal.
Quero o desigual.
Não quero nada.

Só me vem à cabeça a musica do Ruca, não sei porquê!


E não é que está tudo tão lavadinho?

Paragens

Horas. Horas. Horas.
Conheço esta estação como se fosse minha paragem regular, não sei porquê, mas calha...
Outro dia, lavei-a de lágrimas, bebeda de palavras, hoje visitei-a como se fosse importante.
As casas de banho brancas, não gosto quando é tudo branco de mais, apetece pegar em canetas de cor e pintar, fazer desenhos. Cheira a lixivia por dentro e por fora, misturada com a nova vaga de detergentes de que alguem lucra, nas contingencias vigentes.
Pedi três cafés, de cada vez, ouvi "Bom dia" e "Boa viagem", à terceira meti conversa, tinha os lábios colados de estar tão calada e desperta. Soube do tempo e do vento, soube onde estão as tomadas para me ligar ao mundo e conversar calada. Esperava pacientemente que esta manhã terminasse, farta de entrar por mim adentro, sem reservas nem medos, ofuscada com uma sensação que não me gosto nada, nada.
A estrada foi deserta, mal a via, percorri-a sentida, meia zangada enquanto falava com o Lima, necessitado do seu ar de mestre de caminhos, vá por aqui, olhe que chove muito, temos tempo... Eu acompanho-me, eu cuido-me, porque o não faria aqui?
Noite cerrada, os musculos dos meus braços ainda doem, a minha vida é cheia de viagens que me não tiram do sitio mas que me deixam voar.
Horas de espera, carga errada, volta não volta, é isto.
Ainda deu para perder a placa de iman na autoestrada. Mas fiz marcha atrás até a ver. Quero lá saber.
E o vento que sopra e não ter mais vontade de escrever de dentro. Apetece-me ser insonsa, fazer uma loucura bastante, rir de mim, falar baboseiras e comer pão com azeitonas.
Apetece-me vomitar estes fragmentos de mim que não saem.
Assim, conheci profundamente esta estação de Pombal.

Ainda deu para bater de frente comigo e de trás com um qualquer. Ainda deu para me ver e me envergonhar.

Queria ficar aqui agora. Não me apetece voltar.
Rumo ao sul, as pedreiras, construir a destruição que há-de ser obra, explodir-me por dentro, num ribombar que estremece os corações mais fortes. Apetece-me gelar a alma e rebentar tudo à minha volta. Arquitectar com cuidado, com detalhe, as distancias e as simetrias, ligar com nós de mestria, e admirar o levantar sossegado que por dentro, se transforma.

29 dezembro 2009

Que pobreza é essa que se cala?

Assim que me toco, estremeço.
Sinto-me atolada em criação, fraqueza e arrogância, de normas humanas que não me pertencem, que dispersam vagas ardentes nas terras de ninguém. Vês? Não há gente nos lugares imaculados, não há sorrisos, não há nada, há faces cerradas, há figuras disformes, fantoches de nada. Agora, há lições que o vento solta, que o mar semeia na praia, vindos de uma terra de dentro, mais quente e sentida, manchada de vida e colorida de desordem. Há lágrimas pequenas que escorrem na gente, há mãos estendidas que tu não entendes, há mãos pequenas que te acenam de longe, que se entrançam e renascem na desordem, que se matam nascendo. Vês?

Sinto a culpa entranhada, sinto o silencio banal e desigual. Estremeço num calafrio. Que cor sombria é esta?
Que arrogância precisa que se faz desigual e banal? Onde está a minha parte louca que me disse que precisava? Que pobreza é essa que se cala?

Sou minha companheira, serei sempre, trago luz nos meus olhos, tenho lugares em mim que ninguem alcança,  desilusão nas mãos, cinza que me trespassa. Como um remoinho que dista anos em translação, que sei que há-de voltar, que passa e me cresce. Agora.
Tudo na minha vida deixou marca, tudo se fez guerra e paz, não consigo viver neste lugar de permeio, não sou capaz.
Não quero mais este lugar, quero uma cancela na minha porta, onde outrora cobrei bilhetes de alma a quem senti entrar. Mereço ouvir e falar.
Não quero mais ouvir musicas que não gosto, não me quero calar, não quero desacreditar e negar por esforço. O meu lugar já é onde me aposto, onde me vejo.
Não quero gente ausente à minha volta, tenho sorrisos cá dentro que preciso deixar, tenho abraços ao mundo inteiro, tenho uns pés sedentos de andar, tenho voz, tenho a boca seca de não estar.
Já não sei escrever, entrancei-me de um silencio que me mata devagar. Rio se choro, choro só agora, amanhã hei-de cantar.


Noite sem sono, contando as poucas horas que faltam para mais uma estrada qualquer, sai de mim para me ler.
Numa noite clara, as palavras parecem pirililampos ofuscados de luz, muitos, pequenos, parecem silabas sem fim... Atordoada com a minha ausência, apagada , vi-me enfeitada de cores e imagens, de uma tela gasta e sem expressão.
Os livros amontoados à minha volta, a vontade e os meus pés fincados no chão onde não moro.
Como é que aqui vim parar?
Se na minha histórias há fados e sonho, se há uma madrugada tão clara.
Que encruzilhada me torno?
Li o inicio e num piscar de olhos, agora, que vazio tão grande me separa?
Vou ali.
Venho já.
Que este dia que aguarda, que tarda, é só meu.
Olha para uma estrela pequena, que te ilumine na sombra.
Vai dizer que sou eu
Que me cheguei.

28 dezembro 2009

Escrevo sentada num campo verde qualquer, num tempo qualquer que é agora, escrevo da minha forma, deixo os dedos seguirem contentes ou tristes, deixo a minha cara quente de um rol de imagens e pensamentos, deixo-me em pedaços de terra que remexo, enquanto o meu amigo de sempre me chega de vez em quando e retorna.
Sopra um vento forte nas árvores em frente. Há um som distante, cinzento, o cheiro forte da terra que promete e encanta quem pára.
Escrever faz-me tão bem, neste dia de silencio, que me revejo num ano quase findo, sem metáforas nem prosas, lembro os meses que passaram, lembro um sol desconexo, uma praia ventosa, lembro a minha obra e a minha ruína, lembro as pedras com que me faço, lembro os erros, os traços do meu querer sem manejo, aprender o vazio das minhas mãos, reconhecer cada inicio e apoderar-me do fim que nunca ordenei, por fraqueza ou embaraço, lembro as palavras que me não dizem e o aceno não esboço.
Lembro o fim, e o meu despertar, o afago de um sentido que me atormenta há demasiado tempo, uma guerra sem paz, que me nego sabendo-me capaz, mais que qualquer analise ou razão, lembro as rajadas de ensinamento, como se as portadas da vida se me abrissem de par em par. Ofuscada, desgarrada, numa encruzilhada de olhares e demencias, numa busca incessante de sentido. Lembro a loucura da minha instancia, perdida em palavras iluminadas e afinal multiplicadas, lembro a estrada, a madrugada que me clareou e cegou.
Fiz-me menina de repente, fiz-me gente sem estrada, vi estrelas que me visitavam, descobri unidade e guerreei-me sem razão. Joguei cada pedaço da minha construção, brinquei com astros e verdades, chorei este ano mais que me lembro, perdi-me do tempo, pedi mãos, pedi abraços, dei nada, atolada na minha criação.
Neste campo, choro, por me não conhecer agora, pela vergonha de me entender, semelhante a outro tempo de escuridão. Lembro a mágoa e a dor que não quis causar por não ser capaz, lembro a doença que me assola e o medo agora de a enfrentar, lembro as amarras apertadas que soltei à dentada, calada, sem ninguém ver. Lembro os silêncios, os momentos, as viagens que fiz rindo alto ou chorando de louca, convencida que nada em mim se mostra.
Lembro a dormência induzida em mim pela convicção de se tornar apenas crónica, como se nada mais fosse, nada mais me fizesse, rotina de vida que me não cabe, a vontade que tenho de gritar alto. Se eu pudesse pedir um desejo, seria apenas o alivio de me esvaziar gritando, limpar esta mão pesada, esta alma criada sem expressão.
Foi forte o meu ano, feito de inicios e de fins, feito de rédeas soltas e sentidos desfeitos de normas e padrões, feito do mais fundo de mim, de um reflexo num espelho que nunca antes soubera ver, fez-me pequena este ano, no medo e na vergonha de não me entender. Desta mente desperta que não se cala, que não me deixa simplesmente ser.
As palavras nada valem, valem tudo neste instante, ou noutro qualquer como agora, em que nada é nada, silencio é só silencio e maldade nos envenena. Sou cabra cega e presa na minha mão.
Amanhã, bem cedinho, antes do dia despontar, estarei na estrada, no caminho que me dita e não me faz, que o meu norte e o meu rumo, não o vejo, não sei se mora, se me vê.
O que essencial, transforma-se em mim, neste ano em que me vejo, perdida e encontrada, iluminada e unica na diferença de me encontrar, de errar, de sobrar no que me falta. Agora aqui, já não reparto a encruzilhada, já não vislumbro nada, aceno a meu jeito, cumprimento o cenário que me engendra, a cama em que me deito.
Agora aqui, neste instante, arrogo-me a façanha de me olhar , de me rever, sou capaz, sou forte, sou grande ou sou apenas mais uma madrugada por terminar?

Querer

E, se em mim ecoar a voz que me faz, una em mim, há-de haver na linha do horizonte, um sonho, feito de vontade, assim:

Vou guardar esta imagem e o querer estar aqui...
Mais perto que a margem que não se vê.

Desprovida de armas e sedenta de Norte, antes de adormecer, descobri uma viagem, sem fim, tecida numa manta de sonhos. Passaro de Sul que assobia.
Falta partir, o resto já tenho.

Verde!!!!

Tão perto de nós, o silencio ditava vontade, mãe terra e sombra de imagem, vontade de resgatarmos margens e nos perdermos na essência de uma guerra que foi sempre nossa. Contamos histórias, rimos de coragem, tropeçamos nos passos que ensaiamos, limpamos as lágrimas que envergonham porque se soltam sem pensarmos.
Decidi pôr de lado os livros e as palavras, sorrir quando me apetece chorar, calar de tanto que ficou por dizer e inundar-me de vida, esteja onde estiver. Decidi contar a minha história de encantar, sou vilã e artesã e não termina aqui.
Queria regressar ao teu ventre, por um instante, o bastante para me envergonhar, para desta vez te embalar. Tens um sorriso tão bonito, um olhar sereno que eu adivinho distante como o meu.
Esta tarde encontramo-nos, enlameadas, sorridentes e encantadas com as coisas mais puras e pequenas que nos trazem, que nos movem.
Em volta, ninguem está, por não haver lugar ou porque o tempo nos anuncia a revolta dos sentidos, os bêbedos e perdidos, os capazes e audases, os sonhadores e dementes, dançam, na cegueira  a que nos vergamos, ora andando, ora caindo.
Vivam os caminhos certeiros, eu escolho nevoeiro.
Escolho as estradas invisiveis, os campos traiçoeiros, escolhos os meses do ano em que ninguem fala, escolho o que não sei, o que me enlouquece e aquece, escolho estar cega, viva e cada vez mais sentida de razões que a razão desconhece.


Escolho os movimentos insensatos, atolar-me na vontade que me há-de mover e nesta força de me querer.
Escolho as cegonhas que me levam, os ventos que se calam e os momentos em que me perco para me encontrar.
Tarde de sorrisos em tempo de guerra, de sorrisos e um prado verde que tentei atravessar, sem palavras, sorrisos, adivinhar ser ou não capaz.

Gostei de cada instante, do senhor Joaquim, sabedor de mais que eu, dos meus pés submersos em lama, gostei da calma...

Respirei fundo, o mais fundo que pude, bebi as palavras sabias
"Preciso que não diga nada e que faça o que lhe digo"
Fiz, com toda a vontade de tenho, que eu preciso de uma estrela brilhante, mais que as palavras ditadas por nada.

Este silencio, esta paz, os sorrisos alegres na cara dos que amo, as figuras anedóticas dos reticentes, o café quente de Sabores, as pedras triangulares, a tarde fria que se faz quente na minha vontade e, tu, minha mãe, no tempo que se faz tarde, és liberdade!

Ensinas-me com o teu olhar a guardar o medo, a seguir em frente, de mãos cheias de nada, a decifrar o que não entendo e preciso tanto como o ar que respiro, mais que saber, sentir, ser!

26 dezembro 2009

.......

Fecho as minhas mãos, silencio.
É em silencio que a razão caminha
É no alto de uma torre de tempo
que a razão diz que mora
É esta alma minha
Perdida e encontrada
Sem Norte de ofuscado rumo
que chora
Que nesta hora fez-se noite
sem madrugada
de horizontes manchados
Vazia, calada
como não sei ser
como não sei estar
Tenho a minha mão fechada
a minha cara fria
sou uma lagrima
e não sou nada.

25 dezembro 2009

Eternidade

"Devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterno até ao fim. "

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

Natal

Cheguei de olhos vermelhos, de promessa cumprida e a esperança nas mãos, da essência da minha vida onde me embalo e recolho. Noite de Natal foi familia, mesmo dividida em dois cantos do mundo.
Foi sentida, aquecida de olhares que se conhecem, de memórias, de risos, de histórias vividas em conjunto.
Recebi uma prenda que valeu tudo, que me aqueceu até agora.
Uma caixinha pequena, quase vazia, uma carta, e uma história feita de imagens. Deixei a minha alma receber cada momento enquanto olhava, chorei o que precisava para me sentir de volta, por inteiro.
Obrigada minha luzinha...
Tenho o meu coração cheio, sem pedir, sem trocar, ciente do meu lugar, doida por me entender. Tenho a ausencia que me dilacera como se parte de mim morasse no final de uma estrada feita de historias bonitas e de um sentimento que me transborda. Estou viva!
Amo mais que o vento, amo sem tempo, sem lugar, não chega no meu tropeçar de vida, mas é uma mão estendida que não pede.

24 dezembro 2009

Quero o meu sorriso de volta

Este vento forte que varre o que sobra e o que não habita aqui, esta agua mais fria que fresca que hoje cai aqui, esta neve, esta nevoa que enebria, reclamam e devolvem, gritam e choram e brincam no palco dentro de mim, cheia de nada.
Cheia de nada, vazia, vazia!
Sentidos, caminhos, palavras, esvaziada, errada...
Acredito agora, vejo, ouço, cheiro, cada sentido desperto, cada retrato, cada imagem carregada de madrugadas e silencios, de circulos fechados, de razão adaptada, de convicção ajeitada, de razão...
Pareço ouvir aplausos por detrás desta palavra, razão...
Tenho os meus dedos engasgados de vontade, semblante distante, cara fechada. Vontade de chorar, vontade de rir ao espelho, vontade de ser tonta, de ser nada, mas nada mesmo, que eu sou tudo e não vejo.
Prefiro ser equação, soma não, quero dizer alto, o mais alto que a minha voz soar que sou livre para gritar, sou livre para sair de qualquer lugar onde a cegueira enalteça a repetição, sou livre para o meu sim e o meu não, que a desilusão assina as minhas mãos, o meu medo e pecado, que não gosto de pessoas, não gosto de faces, não gosto de gente.
Quero na minha boca o sorriso que guardo cá dentro, quero nos meus gestos o primeiro sentido, quero ver-me no meu reflexo, que eu quero-me tanto...
A minha obra, a minha ponte, a minha guerra, o meu norte...
Tal como o vento, varro o que sobra, para longe, deito fora com as duas mãos, sem sentir cheiro, sem nada, varro-me, deixo-me, rebusco-me e relembro numa rajada o que me constroi, o que me faz de mim, o que me há e o que não tenho.
Quero o meu sorriso de volta, o meu tempo, a leveza de crescer e o peso da revolta, o desencanto misturado com um pranto que me solta, quero musica, quero ciganos, quero catraios, quero velhos, quero o que me encontrar.
Quero um Natal e deixar de me querer sem lugar.
E agora que a minha voz se eleva num murmurio tão forte, quero o meu sonho de criança, ser amada por inteiro, ser esperada, entendida, seguida e lembrada, quero ser vista, ser sentida, quero o lugar que é só meu, quero o tempo que me lembra, quero ser do meu tamanho.
Estou cansada desta cegueira e desta guerra nesta terra de ninguém.

20 dezembro 2009

Noite clara

Quero subir estes degraus, um a um, quero molhar a minha cara com a chuva que me aquece, quero ser amada por inteiro, quero que esta semana me fascine com a presença dos lugares que conheço, matizados de sons diferentes, quero o respeito do meu esbracejar infantil e do meu jeito, quero um arco iris no horizonte misturado com duas estrelas velozes, quero a voz que se cala e o silencio que ensurdece, quero continuar a mostrar-me o valor que sei que tenho. Quero visitar todos os lugares que o meu olhar não alcança, quero oferecer este meu ser, quero amar, quero poder guardar todas as memórias que me deixo.
E à noite, numa planicie serena, repleta do cheiro da terra, quero adormecer acordada, embalada pelo teu olhar.
Quero enterrar a chave que te desvenda, seres para sempre mistério que me encanta, quero os segredos que não entendo, para lançá-los ao mar, na onda mais alta, quero ver-te em cada madrugada, sem esperar nada, só porque habitas a minha alma. Quero mostrar-te um caminho que mais ninguem escolheu, e partir, sem mala nem volta, e uma estrela do Norte que se esconda, e a nevoa que se solte.
Quero agora e sempre o que esta voz pequena me canta.
As palavras mais bonitas.
O sonho que me faz vida.

A minha vida está uma bagunça, e cantei todo o dia, vejo o caos dançando à minha volta, e uma fogueira ordeira renasce em mim.
Ouvi um speaker em Hide Park falar do prenuncio do Norte que me há-de visitar, ouvi a minha avó na cozinha a bater claras em castelo à mão, que fica melhor, vi a face iluminada do meu pai que vive onde o Sol mais brilhar, mandei uma flor amarela à minha mãe que está cada dia mais bonita, mergulhei no mar do Morro de São  Paulo assim que despertei e disse aos meus amigos o quanto gostava deles, dei 10 biscoitos ao meu amigo de sempre, apanhei uvas em Champagne e descalcei os sapatos apertados no cimo do Monte Branco. Antes do dia terminar tinha beijado o mar e a terra e feito um castelo de areia junto a Finisterre, tinha dançado com um ciganito e jogado fora os meus pertences.
Sonhei hoje o dia inteiro enquanto, nas minhas mãos, a minha vida se transforma...

19 dezembro 2009

Um abraço a toda a gente

Aquela musiquinha de Natal do Paul Mc Cartney que todos os anos parece ser eleita, uma rebaldaria nas lojas emproada de caprichos reforçados, a gritaria das crianças histéricas, atafulhadas de quereres e espirito natalicio artificial, batons, saltos altos, mescla de perfumes que me fazem espirrar... Claro que sacudi as botas antes de entrar e espirrei de braço enfiado na boca.
Lembro-me que o que eu queria mesmo era um baloiço com um pneu, que as tábuas partiam-se, e queria que me deixassem experimentar pular as cercas de arame farpado por cima, e sentar-me no poço velho de pernas para dentro. Queria rebolar nas searas que a minha avó dizia terem carraças, queria beber vinho como os grandes, e ficar até tarde de volta da lareira a ouvir as histórias bonitas. Queria bolos de terra e levar os meus cães para a cama, queria os livros que o meu pai trazia quando me visitava, queria o sol que a minha mãe me oferecia com palavras amenas, queria conseguir saltar mais alto e apanhar as amoras verdes da copa por cima da eira, queria ver primeiro e sentir os cheiros todos, queria abraçar os touros que me encantavam e partir a cavalo até ao fim do mundo.
Sou saudosista da minha essência, viajo por entre as pessoas que viajam por fora delas, cumprimento e alimento as causas, sonho mais que o vento em pensamento e nunca encontrei Reis Magos, nem mirra, nem estrela. Vejo Maria em cada uma de nós, vejo José nos homens sentados a trincar palitos e a fazer magia com as mãos fortes, vejo Jesus todos os dias quando abro os olhos à vida, ouço os vendilhoes nos meus dias e cegueira nesta quadra desprovida de alma.
E em Copenhaga discute-se agora não poluir mais que 2%... Discute-se em guerra de caracter e pouca sabedoria. E ontem o arrumador da 5 de Outubro, tinha tomado banho e disse-me bom dia, com o sorriso mais bonito, e eu agradeci lembrar-se de mim, e algures numa casinha do Norte há-de haver um velhote de capote a acender uma lareira e a lembrar a sua Maria que ele até agradece descansar agora, e amanhã há-de ser outro dia.
Apetecia-me oferecer um abraço a toda a gente.
Precisava de ouvir que me amas, que eu amo mais que o meu tamanho.
Precisava de um baloiço de pneu e de uma jangada transparente.
Precisava de acordar.
Um abraço a toda a gente...

Just say yes

A musica é a minha companheira....
Eu sei que hoje em dia, fica bem ter aqui jazz pintalgado de musicalidades mundiais que ninguém ouviu falar. Que é imperativo um som de fundo, profundo...
Vinha para casa a cantar com os meus botões, e ouvi esta musica, fica aqui agora porque, fez-me derreter mais duas lágrimas daquelas que saltam dos olhos e já não contenho, que ando maricas demais...
Não é da época por me fazer rir, não é do frio que me aquece, é uma fase qualquer que uma voz me diz ser importante mas que custa...
Vinha depois de uma noite sorridente e acho que chorei de mim, por contente, por triste, por estar viva!!!

18 dezembro 2009

Despeço-me da mesma vontade

Despeço-me da mesma vontade de partir, num desejo de me distanciar das coisas terrenas e das que me habitam, que me bailam e visitam.
Despeço-me de braço dado com o sentimento que o meu silencio me aparta. Seguirei o desejo de partilhar construção, com a obra que me ergue, com a soma de caminhos e certeza.
Estarei noutra praia, feita das memórias que me vestem, do calor que a minha cara oferece e do medo que as minhas mãos não calam. Estarei no sangue que me percorre e nas pedras da calçada que me esperam. Estarei na promessa de chamar casa ao meu lugar e meus os despertares por mais nada.
O ruido que a janela para a cidade me traz, as luzes que não brilham por ofertas, o cheiro das castanhas, o grito das crianças e os dois musicos de violoncelo que me enternecem, nesta tarde cinzenta em que me despeço do frio e da febre e lembro cavalos alados, soltos da minha infancia.
Noutra noite, senti lágrimas de musica, num clarão desconexo de um tempo em que uma viola tocava e aprendia melodias novas e cantava, que pulava de colo em colo e oferecia uma festa, que amar era só ser e deixar-me embalar pelas cores da vida e por castelos de sonho.
O meu castelo por descobrir, e uma musica que não sei cantar.
Despeço-me da mesma vontade de ficar onde não há lugar.


17 dezembro 2009

Estatuas

Imagens hirtas, estáticas e inabaláveis, estátuas de uma ilha de Pascoa, pedras sobranceiras ao mar revolto que passa, que volta, cada maré ensinada de outra costa que abraçou. As imagens encerram as encostas e as histórias que o vento sopra. Vejo movimento , ensinamento.
Vejo que a imobilidade transborda de vida, que a construção milenar, alicerçada em pedra gasta, se move num bailado de tempo. Vejo os sons, ouço os pássaros brancos em busca de norte, ouço-me na procura distante, tão dentro de mim.
Um olhar que me encanta, raizes de oferta fechada, mercado de espanto. É de pedra o passo em busca do meu tempo. Entretanto, avisto a estrela polar, que se anuncia pequena, crescente, só por agora, serena que se refresca de mar e afaga as mascaras de pedra.
Cheguei tarde ou demasiado cedo, vim de uma terra quieta onde dancei e fiz fogueiras, onde aprendi a estender as minhas mãos e inventar brincadeiras. Encostada à pedra fria, acaricio as faces que se moldam nas minhas mãos, absorvo os contos do meu sonho que se fez dia.
Não há tarde nesta praia, o entardecer é novo dia, fico encostada às pedras de ideias fechadas, tão vivas, tão quentes no meu olhar desfocado...

Nevoa de fim

Uma névoa esbranquiçada, estranha, que não me embala, que me permite avistar mais longe, mais dentro de mim. Foi assim a minha viagem de volta, noutra hora mais clara, iluminada do cimo de um monte.
Como se tudo parasse de repente, num compasso distante. Silencio demasiado num rol de palavras.
Odes ao vento e sustento que desentendo por nada. Fado de um sonho que me aguarda, parada na noite mais fechada de sempre, cansada e ausente de repente... Parei na estrada, respirei duas vezes, fundo, e ali mesmo, abracei-me com toda a força que tive.
De mão dada comigo, revi cada momento só meu, prometi-me de assalto, de mão beijada, alicerçada em cada pedra da minha estrada, não dada, nunca, querida, guardada, suada. O caminho que me trouxe aqui encerra histórias mais bonitas, feitas de prazer e vontade, feitas de mim.
Não há Deuses, não há fados, não há sonhos meios nem magos, não há guerra nem paz, não há nada, há um pé descalço a seguir ao outro, há clarões de luz no nevoeiro mais denso, há vontade mais forte que eu de caminhar para longe daqui.
Não sou aqui nem em parte nenhuma, cadencias iluminadas de expressões fechadas, fim.
Há uma voz de mim, há este sorriso que sei de onde vem, há esta vontade, há a cor da terra, há o cheiro do pão, há-me em cada lugar que me enche, nas musicas que canto. Há de ser assim, feito deste ser que se desmente nos reflexos arcaicos e faces esvaziadas.
Há nas encruzilhadas que sei avistar além, nas mãos que já dei. Há o que me vir, mais que imagem, mais que vivencia apregoada.
Fim.

16 dezembro 2009

Memória

Sentavamo-nos numa roda  do alto da cidade iluminada, fumavamos e riamos por nada. Descobriamos que o toque das mãos era mais quente que detonante, que as pernas entrelaçadas nos uniam mais que as palavras que já conheciamos tão bem. A noite acompanhava as histórias que escolhiamos de entre as memórias que queriamos que ficassem. As outras eram iguais, crediveis de tão silenciosas. Eram as marcas no corpo, eram os rasgos no peito e as mãos que se estendiam.
A lua era nova, e o cheiro que nos impelia, que dava vontade...
Havia sempre uns que partiam a meio, quando a vontade era mais carnal, quando o desejo tinha horizonte e sujeito. Sem palavras que atrapalhassem, sem acenos porque voltariam, era só mais um passo em jeito de vida que se queria tanto.
Eu ficava porque tinha medo, porque não era ainda a minha despedida e a minha fronteira, sombranceira à muralha restava ainda um rasgo de estrelas que dizia só minhas, meu segredo, meu prazer supremo. Eu ficava e dizia o que sonhava, de pernas traçadas e cara ardente. Queria ser tudo num momento, queria a Lua cheia e o mar levante, queria viagens sem chegada, queria ser amada tal e qual como não sabia ser possivel, queria encontrar palavras para o que sentia.
Dos que ficavam, serenos de um fado anunciado, de olhos brilhantes no alto, enfeitiçados, lançavamos vontade de ficar enlaçados sem laços, em nada, feitos da vontade de descobrir o prazer que não acaba. de encontrar o reflexo na agua.
Hoje..
Tantos passos, tantas trocas, caminhadas que a cara mostra, que o tempo guarda, a mesma vontade rarefeita em pedaços de vida, em rasgos de prazer e de ser. Rugas e cabelos grisalhos, a mesma voz,  acho-nos ainda mais bonitos, mais brilhantes da puta de vida que já não ri tanto para nos deixar sorrir a nós.
De mil palavras faz-se uma, a de sempre, vontade...
"Amas?"
"Eu amo!!!"
Que bom, afinal valeu a pena a caminhada !!!!

12 dezembro 2009

Tenho a sensação do tempo utilizado em esboçar de palavras gastas... Hoje, dizer que se ama é caro e está consumido. Em época de dar e de nos quedarmos no virtuosismo, consumimos palavras que antes sentidas são rotineiras.
Dá-se um abraço, entrelaçam-se mãos, dois beijos e "amo-te".
Amar é sempre a primeira vez, amar é hoje apostado de intemporal. Amar tem que ser único, tem que se dizer em sítios novos, em praias desertas e campos que esperam por nós. Amar tem que ser novo, não pode ser igual com novo sujeito. Têm que se guardar lugares para dizer uma vez só que se ama. Mas só uma vez.
Amar é enaltecer a unicidade, tem que ser.
Se não, não se ama, re-ama-se...

Vou inventar uma palavra nova.
Um sitio novo
Arvores novas, um mar lilás e uma lua vermelha, um sol às riscas e relva castanha, violas de 10 cordas e carros movidos a ar, vou inventar outro tempo e outros lugares.
Vou criar vontade onde não ainda ninguém chegou, vou caminhar por cima das pedras e rejeitar caminhos.
Vou pôr pulseiras nos pés e aneis nos cabelos e vou andar ao contrário.
Hoje fiz uma trança ao contrário e fui capaz.

11 dezembro 2009

Cada vez mais desconfio das intenções, das exclamações e das palmadinhas nas costas.
Cada vez que olho com ar atento, acalento-me da convicção que o que sinto é mais estranho exposto do que se fosse camuflado em lufadas aparentes do que soa melhor.
Cada vez que olho de novo, convenço-me que há encruzilhadas cerebrais, há alegorias, que a carne que partilho se convence de uma orquestra sinfónica de músicos mentais. Que a Lei do mais forte actualiza-se para a Lei do mais esperto, que a supremacia de caracter se verga à esperteza saloia do que fala mais alto e depressa.
Desconfio da minha desconfiança e, sento-me no caminho a achar que não presto, com as baboseiras que sinto e mais as que penso. Desconfio da falta de assinatura no fim das páginas, desconfio de palavras camufladas e dos silencios, desconfio da primeira letra como da primeira imagem.
Confio-me a desconfiança de me deixar ser, pequena, errónea, cabra, falsa e o que mais me apetecer acrescentar.
Porquê? Porque o que mais há, estará ao alcance de quem vê. E eu, parece que ando a ver melhor.

O resto? Caminhar e, se tropeçar, não faz mal, aprendi a levantar e sacudir-me.

10 dezembro 2009

Mais que...

Mais que qualquer coisa, sou eu que me envolvo numa iluminada alegoria.
Mais que fantasia, são as vozes silenciosas que me despertam a alma e acariciam
Mais que musica é este soar do tempo que se faz dia
Mais que qualquer palavra que tarda, que não se anuncia...

Estou encantada com o meu olhar desperto
O meu corpo, o meu respirar
Estou fluida em mim, no sangue que me percorre
Estou perto

Pertenço-me afinal,
depois de te procurar nos quatro cantos do mundo,
e mais quatro que ainda faltam
que o meu mundo tem esquinas e cruzamentos
estradas e firmamentos
tem dois sois e uma lua
um mar e um deserto

Faço-me de cada pisada que escolho

04 dezembro 2009

Tresmalhada.



O tempo trouxe-me a imagem de uma boneca de  fantoche manobrada por uma mão que não conheço. Diria que tem vida e que se move sozinha no espaço que ninguém vê.
Outrora desenhou-se de  laços enfeitados, apaziguada dos caminhos desvairados e sem norte que percorrera, desta vez deixava-se em mãos quase mestras que a movimentavam em gestos contidos e orquestrados. Foi assim que conheceu uma estrada serena e terrena, feita de noites e dias continuados, foi assim que aprendeu a partilhar o que dantes só lhe pertencia e a deixar que o seu domínio se enquadrasse num mundo de cordas e conceitos.
Os sentidos despertos, mais vivos que ela, semearam um olhar distante, umas mãos frias e uma voz embargada e cortada, uma face zangada e desconhecida. Ela colheu cada um com que se foi vestindo, camuflada de cada pedaço de si.
Fantoche em palco, fantoche de uma vida anunciada, ameaçada de calmaria e dias amenos de nada.
Cada laço, cada aposta, errada, trespassada de um conhecimento gerado, herdado, umas meias altas de lã e o timbre dos sinais de vida que a trespassavam em rasgos de vento de norte, tão fresco, tão quente.
É feita de cordas minha história, feita de amoras que colhi e de gritos silenciosos que soltei, moldada por conceitos ditados e inventados, por medo de me deixar ser.
Sinto-me envolta no mistério da verdade, desaguada numa margem desconhecida que me acolhe, olho ainda as aguas paradas e limpidas, olho os laços que vou lançando na água, um a um, em mãos molhadas da foz que me aguarda. Atribuo um nome antigo ao fantoche que se ri, enquanto repito mil vezes em silencio o que ninguem mais sabe, o que me molda, o que me assiste.
Ontem tive tanto frio, ontem sorri para mim, olhei-me de longe, ofereci-me antes do tempo, a coragem de me vestir, de me entender, de querer ser. Aqueci-me do meu querer.
Viajam em mim conhecimentos ordeiros, acerco-me da cada viagem que quero fazer, da rejeição de me deixar em mãos que me calam. Ouço sinais do tempo, ouço-me antes de mais nada. vejo o meu sorriso multiplicado no tempo que agarro.
Inspiro-me, transpiro-me, conquisto-me de terra feudal em que me escondi. Agradeço este silencio que me arrefece e me faz caminhar.
Há vento na serra, há nevoeiro tão claro, há vozes celestes que me guiam e um pastor de rebanhos tresmalhados que ri. Há o agora e o amanhã que eu não conheço mas que quero ver, cheio de vida, cheio de mim.

02 dezembro 2009

Namibia

Depois de um incursão forçada ao pensamento de quase toda a gente que resolveu pensar, na História, e antes de me dirigir ao Juizo, passei aqui, só para dizer que
Gostava tanto de estar ali, no meio, sem sombra, sem ruido, com as cores que ficam..



Já me acarinhei, agora vou!

29 novembro 2009

Abraço


Hoje desfaço-me de laços,
E envolvo-me num abraço
ao que me move, ao que me gera.

28 novembro 2009

Não arranjei titulo...

Tinha um sonho, achei sempre ser um sonho bonito e muito meu. Não me lembro de ter tido a coragem de o contar a ninguém que me habitasse, pareceria criancice. Mas é meu.
Eram dois dias, dois momentos.
O primeiro tinha um mar e um tempo enublado, provavelmente estaria frio que não sentiriamos com os corações e as faces ardentes, e mais uns casacos de malha que misturavamos ate fazer uma tenda na areia molhada. Tu olhavas-me de repente, eu não podia estar à espera, por seres surpreendente e estranho, pensaria que me irias dizer para não apanhar frio e calçar os sapatos. Não ias olhar para mim directamente, olharias em frente, para o horizonte que parece que já conheces de há muito tempo e dirias de repente: " Vamos casar?".
Eu ficava calada, demonstrando o preço do tempo e um teatrinho sentido, só para não ter de responder logo, só para não me jogar nos teus braços e abraçar-te para sempre. Aspiraria um segundo e diria que sim, que sim, que sim, que claro!
Depois, um braço sagrado saltaria aqueles preparos que aborrecem, que arrefecem, que fazem esquecer o que vale e acordaria no alto de um monte castanho que eu conheço há muito tempo. De cima vê-se o rio e uma ribeira que passa, Vêem-se os traços árabes e romanos, vê-se gente serena e nada, vê-se o que se quer. No meu caso, só te poderia ver a ti, ocupas o meu espaço.
É uma ermida pequena que olha mais seis. Branca, Tão calma. Custa lá chegar, por isso transpira a vontade.
Eu tenho um vestido de linho crepe, curtinho e umas sandálias, um molho de mimosas amarelas na mão direita e um gancho no cabelo curto. Tu tens o de sempre, um olhar certeiro e pensado, umas mãos grandes e ar desconfiado, meio falso, para não transparecer.
A ermida não amedronta nem ecoa, enche-se de vozes alegres, de sorrisos e saudades, de vida que nos leva aqui, que nos começa, que nos eleva.
Sem demoras, sem muitas rezas, o Alentejo desperta e assente numa debandada de pássaros que se aprumam e voam, que ilustram a saudade de terras mais quentes, ainda mais presentes.
O beijo não é novo, mas tem um sabor diferente, que eu não conheço mas imaginei, sempre.
É só um sonho, desperto, que me apetece esquecer hoje, mas esquecer mesmo... Quis pelo menos sentir o sabor de cada momento.

O novo mundo de Pangea



Não me entra.
Comecei o meu dia a falar alto. Disse o que sentia, às amigas que me entraram fracas e carentes, cheias de ideias e auto análises confortaveis e sui generis. Há uma que dizia ser uma gaja do c.... Na verdade, hoje acompanha-se vergada à imaginação, contra si, contra tudo.
Continua a dizer o mesmo, mas só por metade, tem que se despachar para chegar a horas de mais um pedaço que a alimente.
Tenho a ideia empoeirada de redução aparente.
Na verdade, há dias de franca clarividência. Há dias em que as verdades se apostam, que se joga a cabra cega. O meu caminho mostra-me este grito de palavras em silencio.
Afastei-me do mundo inteiro, nada de novo, das amarras que julgava macias e me afrontam. do meu lugar que não vejo, do sentido enublado, dos abraços que pedi e de sei lá mais o quê que não entendo.
Afastei-me do conhecido, do conforto, do meio, senti-me vazia de mim ontem, sem rede, sem tréguas. Arrisco, por enquanto, arrisco-me.
Maior solidão se fez de companha, maior ilusão se fez no tempo que não me vi. Que pedi a equidistancia do meu alcance.
Chega! Chega!
Ah, e o mar cinzento hoje sorria para mim, daqueles sorrisos de criança que não se esquecem.
O novo mundo nasce do lado de cá, nasce do nada que se enche, nasce de vida, de vontade, de uma pedrada na maré julgada cheia.
E então.... Não é que me sinto acompanhada de mim? E contentinha....

Parte II

Renovada esta noite escura, pronta para me entregar de corpo e alma à minha aposta...
Triangulo de palavras, quem me gera, quem nos gosta, dois cantos do mundo, "para quê prosseguir nos caminhos que já conhecemos? se nos compete a ordenação do caos?"
O calor de uma barca que apanhamos no ultimo instante em direcção aquele momento em que tudo pára, o mundo se detém em meia dúzia de pormenores que um simples olhar eterniza. As silabas conjugadas em lembranças que temos em conjunto. É engraçado se agora entendo que a ti retorno sempre, pai...  Em silencio, em guerra, guardamos as mesmas imagens que partilhamos, madrugada adentro, com o sentido omisso e ouvido.
És o reflexo da batalha comigo mesma, és o meu ponto de partida, a minha fonte, és a minha guerra, a minha barca, velejador de vida. Entendes em silencio, espicaças-me parada... És um roteiro de estrada, daquelas que não se estudam, vivem-se.








O retorno não é nada, vale a caminhada, valem as cabeçadas e o medo que me larga, que me alerta. Tenho tanto em mim para dar, tanto...
Tenho um olhar pequeno, na noite passada, zangada, o meu sitio é onde me encontro, onde me sinta plena.
Amo mais que a vida, basta-me isso.
Embrenho-me agora nas minhas conquistas, acarinhada pelo meu amigo de sempre.
Estudar, conhecer, aprender, inundar-me de vida.
Tenho dois braços, duas mãos, três manias e um cérebro que não pára. Tenho medo de ser, tenho coragem para enfrentar, tenho-me a mim desconhecida, tenho sede de vida.
O que fica agora? Uma piscina de rochas adormecidas com uma barca ao longe e peixes amarelos à minha volta.

Parte I 1/2

Hoje Lisboa cheira a uma mistura de agua salgada e de erva molhada.
A serra hoje tinha cores de madrugada.
Tenho saudades das noites que deambulava por aqui, cheia de mim, sem mais nada...

Parte I

Escrevo numa folha de papel de um caderno quadriculado, escrevo num sitio onde não me sinto nem ninguém me conhece.... Escrevo porque estava sentada à espera que uma moça com ar empertigado (que não vou voltar a ver) me traga um prego médio e uma dose de batatas, porque tenho frio e a alma gelada, zangada. Entrei na primeira porta aberta que encontrei, ainda com a musica que ouvi toda a tarde, já a sei quase de cor, é a que me entra agora,  Radiohead - Jigsaw fallin into place
- The walls abandon shape
- There`s nothing to explain
Partes que entoadas se conjugam na minha cabeça, como pedradas mais soltas que as que rolaram hoje  debaixo dos meus pés. Escusado será dizer que o meu sitio hoje se decompôs em palestras lunaticas que joguei de mãos soltas em direcção a mim. Apanhei-as antes de cairem e guardei, guardei, guardei...



O frio que me entrou nas veias hoje, trouxe-me de volta aquele olhar que faltava, recebi-me estremunhada. bem vinda, seja lá quem fores. Esta casa é tua, porra, senti tanto a tua falta!

O prego tem ar de já ter sido engolido antes e, afinal não é isto que eu quero. O que eu queria mesmo era o que sonhei quando tinha uma sainha vermelha de xadrez inglês e um alfinete, dois totós na cabeça, o que eu queria mesmo era ter encontrado aqui o homem da minha vida. Aqui ou em qualquer lugar que ele havia de me encontrar. O que eu queria é o que não tenho tido.
Bebo kms como agua, enterro-me em lama de propósito que gosto de ver os meus sapatos sujos de calcario, ando de noite, de dia e por mera cortesia, adiro às opiniões femininas que nunca entendi. Jantar sozinha é rotina, e se os poucos que me entram precisarem de mim, estou a caminho. Mas estou sozinha numa tasca alegre, sempre estive e sempre estarei.
Destruo-me em paralelos toscos, sem nada de meu, não me encontro, procuro-me em faces que não me refletem.

Ah mulher, és maior! És sim senhor... Neste momento, venha quem vier, na tua companhia, sem que nada te espere, sem sequer saberes se viras à esquerda ou à direita, noite fria, quente, som, silencio, dentro de ti entoa a mesma musica que te aconchega há tanto tempo. Musica tua, sitios teus, imagens que afrontas naquele que te gera e entende... Quando é que foi o dia que assim não foi?
Balanceio-me no meu próprio desconforto, agora, temente e carente de pedaços soltos, que egoísmo tão grande, que me desconcerta, sou mais livre que penso. Amanhã caso comigo e vamos juntas em lua de mel.
Há-de ser o primeiro de três sonhos.
Que venham mais noites assim, o resto que se lixe. Tenho febre de mim hoje!
Vou-me embora, o prego fica.
Vou comer um bife onde me apetece, mas antes ligo o pc só para me deixar, parece-me uma boa altura, esta uma noite escura!

25 novembro 2009

Fechada para Balanço!!!

24 novembro 2009

Estar

Estar só, pode ser não estar simplesmente, pode ser estar por inteiro.
Estar só, pode ser o anunciar de uma partida ou uma chegada.
Estar tem que querer dizer, qualquer coisa de profundo, de estranho a meu ver. Podendo estar em muitos sitios, sinto não estar em lado nenhum.
Estar só, não é estar sozinha, dona S, da mesma forma que olhando a tua imagem, podes reduzir "estar com" a uma solidão tremenda.
Hoje estive só, sózinha e estive sem. Não gostei de tanto que preciso de estar.  Não gostei do que vi e entendi. Não gostei de mim sabendo que me gosto. E no entanto, feitas as contas de deve e haver, a minha caminhada sempre foi só e sozinha. Acrescentava "com" para parecer bem.
E não é que o resultado de com ou sem, foi o mesmo?
Sobra o que esqueço sempre, eu!

Eu, não é "só", não é "sem", por si só. O meu eu, é alma que se enjeita apagada de tanto que se quer.

Enervante este estar sem, cego do tanto que tem. Vergonhoso este estar só que não se aceita, sabendo como é, saborosa esta solidão que entrou por mim adentro como há anos atrás.
Mais vergonha ainda da equação, entre dar e receber, saldar o meu lugar, e demonstrar que a mim, nem dei nem recebi, estornei-me.

Posto isto, composto de uma lágrima de revolta e de uma assaz memoria por demais duradoura, vou-me embora.
Estou zangada demais com o meu não ser, não estar e não nada!

Instinto V



Cheguei aqui...
De palavras opacas que os meus labios entrelaçam
Sim, faço tranças
Faço mantas de retalhos,de pedaços de mim.

Instinto IV

Um conto de Guerra:


Toques monocórdicos, que soam em descompassos, opostos, os gestos salientes não são mais que continuidade. Erguem-se armas já gastas, num campo empoeirado, sem som, sem espaço, só as vozes de outrora. O caos trouxe a desordem e a passagem foi uma mera fronteira, grosseira de mão forte.
Campo envenenado de orvalho seco e corpos mortiços que aguardam a noite. A história é pequena, fala de uma guerra de ser e de estar, fala de lágrimas pequenas à chegada. Fala de decretos vigentes acerca de povos desconhecidos e julgados. fala de agora como sempre.
O general prostrado, mastiga tremoços que cospe e, aflora, firmemente convicto que a razão impera deste lado da trincheira. Apoquentado, no seu âmago uma azia continua não o deixa. Em tempos foi rapaz, tambem ele, travou guerra, pediu paz. Decreta agora a ordem.
Na sala, um batalhão resguardado das feridas impostas e emprestadas, lembra dias, cala horas, assente. O homem forte fala, e no que não esboça chora, ama não querendo. Guerra igual. 
Recorda que em tempos, sabia mais que isto, sabia o preço das horas, das conquistas e das derrotas, sabia oferecer o gesto preciso. Em tempos, uma palavra significaria a vitória do que valia, do que se sente e não se entende, nunca.
Hoje mastiga e ordena. Hoje as mãos rudes acenam e omitem. Hoje há apenas silencio e guerra.
Pobre homem que sente e não fala, que sabe e não geme, não chora, não erra.




Um Conto de Terra.


Lá fora, um sorrisinho pequeno, um olhar miudinho, um piscar de vida que se descobre. Tropeça, sem sequer perceber muito bem se o caminho se faz ou se ainda agora deriva numa enchente que a leva deixando o que resta , o que a faz. Umas mãozinhas pequenas com recordações pintadas e um arquejar estranho. 
Não sabendo porquê os olhos ainda brilham, teve três filhos, cada um mais bonito que o anterior, um partiu sem voltar mas deixou-lhe um sorriso que dura até hoje, os outros seguiram-no reticentes, descrentes, não chegaram ainda.
Na ausência descobriu vida, perdida pediu água, pediu terra para semear, pediu ar, perdeu ar, ganhou terra.
Lá fora, não espera, vive, vive os tempos que a guerra lhe deixou, vive ainda agora o sabor de um ventre nascente, e de uma aurora qualquer. 
A marca ficou, guarda paz e guerra, guarda cada lagrima que ficou num sorriso que encerra. Já não espera, vive.


Lá fora, esta guerra morre, com ela morreu a paz e a ordem. 
Por detrás de um monte desfeito pelo rebuliço dos estilhaços, sopram brisas sonoras, restea de história. Armas depostas no horizonte e uma aposta, dedos cruzados em jeito de esperança, troca duas mãos cheias de paz guardadas no olhar por uma só de guerra, verdadeira.