31 agosto 2009

Hora dificil

Cheguei agora a esta casa vazia. Sentei-me aqui em busca de companhia, nas palavras que vou soltanto já soltas pelo cansaço, pela dor que sinto cá dentro.
Tenho tanto medo, tanta culpa, tanta desarmonia, como se um vendaval tivesse passado por mim e quebrado e destroçado tudo o que me erguia. Sinto-me sozinha como nunca me senti.
O meu amigo, ao meu lado, olha-me meio admirado. Também deve estar cansado porque nestes dias, tem-me acompanhado nos kms que fiz nesta casa sem ser capaz de parar, viemos tarde de casa da minha irmã.
Trouxe comigo algum fortalecimento, trouxe um desenho que as minhas luzinhas fizeram para mim, um abraço e compreensão.
Sinto-me destroçada e tão sozinha, urge viver comigo nos minutos que se seguem, apenas isso, exercicio quase desumano para não pensar muito, para hastear o que resta e erguer-me.
Dava agora tanto por um abraço, vou tentar descansar, já não o consigo fazer há tanto tempo.
Importa-me apenas quem amo.

29 agosto 2009

Lisa Gerrard


Voz que sempre conheci com Dead can Dance.
Em conversa dispersa, aceitei a sugestão, ouvi uma, ouvi todas as musicas dos albuns a solo. Estou a ouvir agora!

"Music is a Place to take Refuge. It's a Sanctuary from Mediocrity and Boredom. It's Innocent and it's a Place you can loose yourself in Thoughts, Memories and Intricacies..." Lisa Gerrard.

28 agosto 2009

Alexandre Herculano

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?
 
 

Festa na Aldeia

Tarde quente, como sempre, a minha mente despede-se por momentos das planicies laranjas e, tornando ao vale, lágrima verdejante neste campo agreste ribatejano, parei no largo da aldeia. Hoje é dia de festa. Não sabia.
Tenho andado meia cega, meia dormente, esquecida de reparar que a solidão está cheia de vida.
Um senhor rude, disse que me conhecia, todos conhecem o meu amigo, mas eu pouco tenho sorrido a esta gente. Sentei-me a ouvir uma musica antiga, e outro homem ofereceu-me o jornal do Ribatejo, vi sem ler.
Em dias de suposta calmaria, apregoei o julgamento de uma gente requintada e emproada que habitava aqui, sentia-me estranha nesta aldeia, sentir-me-ia sempre. A vizinha que respeita o meu amigo com um nome mais altivo, sentou-se na minha mesa.

- Não incomodo pois não? Tenho-a visto aqui, com o seu livro e o Francisco...
- Claro que não, fico contente por companhia!

O cheiro do frango assado, esta musica festiva, a minha companhia conversadeira, foram-se metendo comigo, brincando..
Curiosa, deixei os musculos do meu corpo relaxarem, adiei o cansaço e deixei-me ali estar, há gente bonita nesta aldeia, afinal.
No fim, comprei uma rifa.

Moinhos dos Canais

Azenhas de Mertola

Lembras-te mana?
Lembras-te de enganarmos as horas e descermos o vale, de joelhos "escalavrados" , nas nossa bicicletas até aqui?
Lembras-te do sr Nicolau que vinha vender gelados ao final da tarde?
E do Elias que compunha poesias em tom de canção?

Lembras-te de arriscarmos, de cada vez, chegar mais longe e um dia, conseguirmos atravessar o rio? E da cobra com cabelo que aí vivia?

Estas azenhas guardam sonhos que criava, sentada nas pedras verdes e escorregadias, alguns, são hoje conquistas e caminhos alcançados, outros, ainda sonhos, tal como os vi, no primeiro dia.

Almendre

"Desde tempos imemoriais, o Homem olhou o céu"

Junto a uma encosta suave, voltada a nascente, uma estrada pedregosa que levanta poeira castanha, nada em volta, apenas calma.
Passei aqui horas que se estendem no tempo, na minha essencia, nas raizes da terra que me dá vida, nas evasões das conjugações e concessões, este sitio, acalenta a minha calma e imaginação.

Imagino a intemporalidade deste espaço, ouço as vozes ancestrais, sedentas de entendimento, os traços nas pedras assumem uma presença que me encanta. Vejo-me rodeada de espiritos dançantes e de sombras soltas, ensaio o achado machado de pedra  polida.

Em todos os dias que aqui estive comigo, encostei o meu corpo ao mesmo monólito, em cada tempo, a minha sombra pareceu reflectida de forma diferente. Sapiencia exacta do que não vejo.

Sombras. Traços eternos.

Outras vezes, quis trazer aqui alguém, alguém que ao olhar, também visse esta sabedoura calma.

Nas planicies laranjas, nos sobreiros paternais e azinheiras serenas, os meus passos são soltos, dormi sestas envolta no trigo quando era pequena, feri as mãos para apanhar amoras e espargos, tive um baloiço num chaparro, pisei uvas e bebi agua no meu cocho. Apaixonei-me pelos mestres da cortiça, pelas tias que lavavam roupa no tanque, tenho tantas memórias, tantas histórias que me acompanham.

Passado o caminho, em Valverde, os homens acenam, os silencios emanam o gerundio da fala que compreendo. É desta gente que gosto, gente presente que me ensinou a mestria do tempo, e a também eu, se quiser, olhar o céu.
´

Duas Luas

Já tarde, de volta com o meu amigo ao lado, olho o céu em volta, busco duas luas.
Esperei este dia anunciado, de duas luas, só uma de verdade, a outra fantasia, do olhar.
Desconfiada de anuncios pouco crediveis e convicções infundadas, documentei-me. Tratava-se da aproximação de Marte à Lua, existente há muito. Falara-se de aproximação, na verdade, Marte e Lua estão-se afastando, cada vez mais.
Invisivel aos olhos, insistente, olhei o céu em volta...
Vi a Lua, meia, brilhante, distinta, rainha do céu limpido e estrelado.
Maravilhada, num campo  entre o sopé de uma serra e o vale, bebendo o cheiro da terra, já tarde, o meu amigo comigo, aspirei o essencial.
A Lua, os astros, estes cheiros, o silencio calmante que esta noite me traz, apaziguadora da minha guerra, esta terra apregoa paz.
Num minuto, enlaço-me na noite clara de meia lua, recebo o abraço quente que precisei, peço força, peço esta luz, relembro as vozes serenas que ouvi, nos passos até chegar aqui.
A noite dos astros, nem era hoje.
Mas fiquei aqui e trouxe esta lua comigo!
Lua e calma crescentes, crentes, vi-me na face, unica, diferente, aspiro paz e respiro fundo, devo à minha vida tanto quanto lhe puder dar. Sou mulher, pequena, capaz  de me oferecer a essencia que me seduz, um lugar feito desta luz, uma planicie de onde regresso e um mar. Atraida, dorida, a lucidez alterna-se com o sentimento, sou filha da terra castanha e de um velejador de sonhos, de uma menina e de um lobo, sou o que trouxe do meu caminho, serei até chegar.

27 agosto 2009

Textos Secretos


"Já não te amo como no primeiro dia.
Já não te amo.


No entanto continuam em volta dos teus olhos, sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original.

Disso, sei apenas o seguinte:
que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia, de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que vivia, e que também não sabia que fazer de mim.


Dizem que o tempo do pleno verão já se anuncia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão, no fundo do parque. Que às vezes não são vistas por ninguém durante o tempo da sua vida e que ficam assim ali no seu perfume esquartejadas durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que esquece. Nunca vistas por mim, morrem.
 
Estou num amor entre viver e morrer.
É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua qualidade, essa, precisamente, de me agradares.
Penso que apenas me interessa que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.

É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.


E tu não sabes."

Marguerite Duras "Textos Secretos"

L'homme Atlantique

Marguerite Duras no hall do Hotel des Roches Noires


...e não há o menor sopro no alto das florestas ou nos campos, nos vales. Não se sabe se é o verão ainda ou o fim do verão ou uma estação mentirosa, indecisa, horrível, sem nome. [...]

Marguerite Duras,«O Homem Atlântico» in Textos Secretos (1992)

25 agosto 2009

Correntes Contrárias

Turbilhão vazio, imensidão oca e plena, reclamo passadas vividas, pisadas minhas, feitas de sentido, feitas de mim, pequena e tão cheia.

Sem tempo, eu sei, desfocadas e tão sentidas, mais que palavras, mais que silencios, gritavam alto os gestos que eram para ti. Não eram frutos da razão que me gere, do meu mundo sustentado e ameno, eram os sopros puros da minha alma, emoção crua e despida, era a minha luz e por fim, a minha calma.

O meu amor sentido, despertar de uma vida merecida, erguida de sonhos e conquistas, de tempos demorados e outros descompassados.

A corrente contraria, que se mostra e impõe, como se antes não a visse e apontasse na minha direcção, carregada com uma culpa minha, entranhada. Entendo o mesmo medo, entendo a solidão da ironia, entendo os rasgos dolorosos, ardentes da mente. Entendo os momentos adivinhados, mesmo que errados, em que a fé te abandona e a raiva te cega.

Hoje, erguidas as muralhas ao finito silencioso, o "não" ecoa em mim em gritos ensurdecedores, vi-o chegar, tem a expressão do tempo sem tempo e da voz da razão. Gemo e entendo.  
Entendo esta angustia que hoje me assola.
Entendo o tempo. Entendo.Vejo te agora, de volta à barca, cega e calma, e cego tambem eu a visão.
Barca solta a tua.
Embarco eu na junção das correntes, à porta do mar que não chegamos a navegar.

Olho-te, longe, lembro-te em cada pedaço do meu respirar, arranco-me, contorço-me, querendo esquecer, adormecer e acreditar.
Tenho o meu tempo que resta até chegar.

Correntes Adversas

No meio do meu caminho, cansada e desavinda, com a vida em desalinho, sento-me, naufraga das correntes adversas, da ironia da minha vida, no areal da minha praia deserta. A dormencia, não era um sono qualquer, fruto de gestos inconsequentes ou caprichos carentes, era o de uma mulher perdida e descoberta, entre o sonho e a vida, entre limites finitos, vontades e medos. Dormi dias, meses talvez, perdi-me do tempo, naufraguei nas correntes adversas do meu pensamento. A minha ausencia desperta, pedia caminho.

Esfrego os meus olhos de espanto, de corpo dorido, perdida nas descobertas e suspeita em palavras sofridas, ainda mais perdidas. A magnitude do meu olhar desenquadrado, quase me enlouqueceu e turvou a visão, como um fogo rasgado no ar, indecifravel, incompreensivel. As minhas mãos inquietas, a loucura dos meus gestos, pequenos, incongruentes, na escuridão, as minhas mãos que buscavam luz, uma luz qualquer, um alumiar de vida que guiasse um caminho que preciso percorrer.

Aos olhos que não veem, apenas olham, adquiri a imobilidade da pedra, atrasando lançá-la à terra, semente divina da qual germinaria a civilização, ideias claras, forte convicção, desgarrada e sem chão, confiada a missão solitária de mudar e governar a terra, fundar a civilização plena e glorificar os dogmas da criação e destruição. O meu sonho, levantar-me e caminhar.

Quebrou-me a desresponsabilização, a descoberta da banalidade, é minha esta cruzada, a alvorada da minha civilização, imposta pelo varejar do vento, do sol que descobri num abrir de porta, um sol que me esperava por tras da neblina. que agora se encobriu e apagou. Soltam-se verdades amigas, bandeiras de outrora, o sonho comanda a vida, mas as passadas seguidas não se transformam.

Foram muitas as horas em que tentei refrear um emergir vespertino, temente de não ter lugar, que obrigava a minha mente a rodopiar como se me lançasse num pião, tentando compreender, indagando a ironia, buscando ajuda e certeza nos meus passos. Certeza tão minha, de cada pedaço se erguer em busca deste sol, das epopeias de ideias, em noites claras, desafiando a minha razão.

Medito agora, "na libertação dos destroços do meu passado", o concilio divino, assiste, calado, em jeito de cortesia, invadem-me descobertas poeirentas, não me chamam, implacaveis, soltam gritos estridentes que me invadem e inundam de medo e desatenção.

Mergulho os meus pés na areia quente, este espaço reflete a minha solidão antes de me erguer, dilacerada e de cara ardente, esqueço as mãos dadas, relembro a minha caminhada, nas esquinas sombrias, invejando os casais abraçados e os abraços que não sinto.

Sei não poder falhar, rogarei aos deuses a capacidade de lamber as feridas que teimam em sangrar, debeis, os pedaços caidos, o despertar dos meus sentidos, olhos perdidos, caminharei em silencio, troco o meu mundo, recebo em volta, nada mais senão eu... O direito a falar mais alto, o direito de me mostrar, como sou, pequena...
O meu lugar que nunca descobri e,....

Seguirei os loucos que, destemidos, penetram nos reinos povoados por demonios, confirmando a sua autenticidade, buscando o sonho, rumo à irracionalidade guardiã da razão. Leio a "Coragem para mudar" partidária, esquerdista, baseada em experiencia não vivida, observada, raiada de julgamentos certeiros.
 Percorro a vida, em vivencias terrenas, desordeiras e desconexas, as minhas, não deixarei serem promotoras da minha essencia, o que sabia, sei mais hoje, jogada injusta, mas minha.

Estou cansada, sinto-me cheia e vazia de mim, sinto-me sozinha à ombreira da porta que abri, que já não é minha, rogo ao vento que leve este medo que me assola, desconcentra, ajusto-me na convicção, deito um olhar à desresponsabilização, hei-de saber, um dia que esta semente de vida foi regada por mim.

Lançar-me-ei ao mar, como um dia sonhei!

Correntes Prometidas

Desci do alto desta serra, parei no meu canto e deixei que o vento me remexesse, abanasse o meu corpo, lavasse a minha cara que hoje permanecia molhada e quente.
 

O tempo, o tempo!

Esta porta aberta ao mundo que não conheço, tirou-me vida construida e deu-me um horizonte que aspiro e me derrota, da minha porta, nao me vejo. Porta que nem é minha, semi aberta, de rompante, num abrir tão cheio de luz e de vida, da vida que conheço, que sonho.
 
No meio do mar, antes do horizonte, erguia-se um barco à deriva, sem rumo e em silencio. Daqueles silencios quase ensurdecedores, ao longe vi para além da bandeira hasteada, do leme solto,vi que me acenava despropositadamente, como se pretendesse mostrar que não via, não queria ver. Vi a magia das correntes prometidas que me falavam do mar, que rumavam perdidas mas na minha direcção.
 

Dei dois passos, descalcei-me e saboreei a areia, deixei que a agua me inundasse, fria, aquecendo a minha vontade de me inundar desse mar, na corrente convergente, rumo ao sol distraido que brilhava por mim nesse dia.


(continuará, um dia...)
postado no meu lugar de descanso, ontem.

Mãe

Vem e deixa-me encostar a minha cabeça no teu colo
E contar-te as histórias do que não vivi
Não viajei e não me esqueço dos sitios que não vi
Não vivi e sonho com tudo o que senti
Traz uma caneta azul para escrevermos
e uma flor pequena, como tu
que nos invada de cheiros de cor laranja

Quando passas a tua mão na minha cabeça
É tudo tão verdade
E o teu abraço
Dá-me vida!

Estou à tua espera à porta
vestida, pronta...
Preciso de uma mão na minha
Preciso de ti!

21 agosto 2009

Valmonte

Tem duas paredes brancas, quem passa, não repara, tem esta inscrição numa delas. Valmonte. Recorda-me a herdade do Rio das Flores, do excerto que guardei por me marcar:
"Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de ter viajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenho medo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade".
Como poderia ser a liberdade um vicio se só agora aspiro a ela?
Este sitio, de onde parto e me lembro, onde parava a favor de mim e do que amo, e amar só tem um nome, e mesmo calando, se sente, mais forte que as amarras que apertam por desassossego da vida ou por falta dela.
Vou guardar este sitio, sempre!

Não sei

Duas mulheres falavam, sentadas numa pedra solta:

- Tu és da cidade, sabes muita coisa.
- Não sinto isso, não sei quase nada.
- Mas, és feliz?
- Não sei, sou actriz, e tu?
- Porque não haveria de ser? Vou casar para o ano, com o meu namorado, nunca tive outro, nao tenho tempo para trabalhar, trato da casa, vou ter filhos e tratar do meu marido e, de vez em quando hei-de tratar da horta e dos animais. E tu? Tens namorado?
- Não, mas sou livre! Já tive uns tantos. Tenho o teatro, faço o que quero.
- E o que queres?
- Não sei, não sei mesmo!

Caminhar

Caminhar é ter poder para andar, andar é decidir não estar onde estamos, sonhar é acreditar no que existe para além do que somos, respirar é prolongar o tempo de vida e, acreditando, somos capazes de caminhar.
Sinto-me a galope em várias direcções, numa montada escolhida mas que não sei acompanhar, contra ou a favor do vento, sol de frente ou na sombra, sentencio-me copiosamente em frente à tribuna em silencio. Vozes estridentes ecoam-me aos ouvidos, palavras jorradas, anjos da guarda e do diabo. Sou juiza no cimo deste cavalo alado, convicta da minha julgada cegueira ou estado de embriaguês.
Ontem, pousei-me em chão sereno, calei-me, ceguei-me e deixei de ouvir, sentei-me no meu sitio de sempre, do cimo da serra, em frente ao mar, deixei-me estar, inundou-me uma tristeza imensa, reprimida em falsas justificações, por tempo demais. Olhei em volta e não estava ali ninguém, lembrei-me que nunca estive ali com ninguém e, no entanto, aquele lugar enche-me de vida, acompanha-me, acalma-me. Sinto que percorro um espaço, demasiado importante e doloroso para não me acarinhar, nem que seja só, de vez em quando.
Ao longe, cada contorno, mostrava-me o meu próprio abandono. Despi-me do direito de ser expontanea, de ponteiro erguido, em cada passo, avalio-me de punhos cerrados, oprimida, reactiva, não conoto a minha vida com a minha mão.
Despedi-me daquele lugar, com vontade de ficar ali, ficar mesmo, de verdade, sem mais nada.

20 agosto 2009

Carta a mim III

Vou antes falar contigo.
Afinal, lembras-te de criarmos esta face de sonho para nos lembrarmos? Que significado teria senão, o libertar das minhas mãos, aqui, deixá-las falar o quase inverso dos meus dias em que és tantas quantas preferires?


A tua face quente, esconde esse sopro de alma vigente, instalado e despropositado. Vejo-te tão mais criança agora, sei seres capaz de empurrar o mundo e o quanto as passadas são pesadas agora. Sei da voz que te acompanha, sei da tua vontade de fugir. Sei tambem que lá fora, nas vozes pausadas, ninguém cobra, ninguém chama, e aos teus olhos tudo parece um mecanismo engrenado por vontades ancestrais, os dias sucedem-se em catadupa, andamos, fazemos, engrenamos.


Anos, vidas, ouvimos histórias, invejamos, rejeitamos, atraem-nos os contos antigos, as pisadas impensadas, as planicies laranjas, vivemos numa cidade dormente, sem vida, cumprimentamos sem resposta, sem apelido, a lua amarela de outro dia não deixou de nos chamar, os passos de flamengo, as palavras sentidas que deixaram de ter lugar, a tua bicicleta, as azenhas, o mar!


A meio da tua vida, a nevoa amiga deu lugar ao sol e, este tão maior, nasceu, mas tu já o conhecias, as passadas na areia eram as tuas, as fugas.
Queria oferecer-te os gestos ancestrais que te dão vida, queria embrulhar-te em fantasia, a vida que conheces, a tua.


O sonho comanda a vida. O tempo dá-nos força.
Seremos crianças sempre, capazes de ordenar castelos no ar e vida. Acredita por favor no que ainda não sabemos e vemos, seja o que for.
Seremos tudo ou nada, paradas e envelhecidas, não!

Ilusão

Numa ruela branca, salpicada de pinceladas garridas nas janelas antigas. Ao longe, as luzes altaneiras contadoras de viagens que admiro, um convento antigo, ponto de partida de forças magnificas, mais que humanas, energias faladas.
Aquele lugar expira magia que junta ao encanto que sinto por ti. Noite de merecida calmaria. De vivencia escalada em vagas contorcidas de emoção e razão. O pendulo ganha equilibrio na história que vamos fazendo, no balouçar dos opostos que se alternam, embaraços tão mal entendidos por sentidos, equilibrio nesta teia que desfaço.
Olho-te com todos os olhares da minha alma, tenho tantos, vejo-te e aprendo, não consigo deixar de me encantar com as faces do teu todo. Ver-te-ia sempre de novo, em cada novo olhar. Fascina-me não teres lugar e morares em mim, encanta-me albergares a minha alma pedinte, rendi-me à tua face errante, sendo a minha.
E olho de novo para te ver longe e, cada vez mais dentro de mim.

19 agosto 2009

Luzinha

São estas coisas pequeninas que dão sentido à vida.

Tenho saudades das nossas tardes na praia, das musicas pimba que decoravamos para cantar, desse dia que descreveste.

Mais ainda, tenho saudades tuas, minha luzinha!!!

Histeria

Não questiono porque eu própria tenho destas coisas...
Ultimamente, assisto a um estranho movimento que me soa a histeria colectiva. A primeira reacção seria entender, estudar, ler, contrariar este proposito alarmante que nos invade em cada emissão dos media, dos falares conjuntos ou efusivos dos peritos ou não...
Gripe A, gripe das aves, surtos de variola, surtos disto e daquilo, abrem telejornais, ocupam horas que substituem noticias que a mim me faltam.
Não consigo deixar de sentir que há uma intenção camuflada em distrair.
É grave, sei que é, mas não o são tantas outras coisas que determinam o meio em que vivo?
Será que ainda não percebemos que há muito encetamos uma espiral de infecções, alergias, epidemias, pandemias, esperadas há muito, consequencia apenas do desgaste de acções desta sociedade doentia.
Parece que gostamos de estar doentes. E estamos doentes, mentalmente dementes.
Lembro-me do dia em que precisava apenas que alguem me ouvisse, a minha vida complicada, pesava-me nos ombros caidos, não confiava, queria falar com um estranho. Aderi e fui a um psiquiatra, conotado como um dos melhores. Falei, chorei, ele não disse nada. Vim aliviada mas carregada com uma folha A5 de antidepressivos, calmantes e afins. Diagnostico: Depressão profunda. Eu só estava triste e cansada, sem rumo, só precisava de um ombro amigo!
Estamos afundados em quimicos, competimos acerca de quem está mais gravemente atingido.
Estamos virados de costas para a essencia da nossa própria natureza. A mim, basta-me esta nuvem que não sinto, que me assusta e desgasta, sem face que me enfrente, só com nome, colmatada com meia duzia de gestos diarios. Não aceito mais que isso.
Ao minimo espirro, olhamos de lado...
Porra, há crianças a morrer de fome...
Há surtos de doenças extintas em Africa.
Mas temos razão, vamos falar muito nisto, todos os dias, pode ser que passe!!!
E dia sim, dia não, substituimos por outra distração, e vamos todos gritar e ver o futebol....

Amigo

Meu amigo está doente.!!!

The journey continues...


Tipificados por nós, sedentários e pouco sonhadores, que cada vez mais nos rendemos à aceitação muda e surda, perdemos o entendimento desses que partem, credores de uma vida sem lugar aqui.

Os primeiros cruzaram noites escuras, beberam dos poços, descalços, em montadas emprestadas por quem ainda levantava a voz à disfarçada inquisição. Lutaram, esboçaram sorrisos, sem expressão, em lugares saudosos, guardiões mor da minha patria, da essencia desta terra que pisamos sem sentir.

Chateiam nas estradas quando chegam, empatam, fazem-me rir na minha ignorância desnecessária, prossecutores do pimba e do rasca, da tasca da aldeia que se enche de histórias sofridas e enfeitadas. A ilusão comanda a vida de mais uma jornada de volta, consciente ou carente de ter um fim. Um dia...

Não me é dificil entender a linguagem trocada, os laivos de magnificência, podiam-se encostar à direita nas estradas e ouvir outra musica, podiam não precisar de mostrar tanto nestes dias, porém perderiam um encanto sazonal que ilustra este pais inerte, cansado e ausente.

Porque as remessas contam para o rendimento e produto nacionais, o governo esquece mas agradece e, aos outros, tal como tudo, fantasia uma burocracia hipocrita aos que se enganam e buscam o sonho aqui.

Emigrantes e imigrantes, compradores de sonhos em troca de terra e carinho. Admiro-os como devo à vida, ouço-os e penso que, pequena sou eu em julgar o que nem conheço.
Homens e mulheres grandes!!!

18 agosto 2009

Passaros de fogo


Do casulo Universal
nasceram túlipas abertas
envoltas em serpentes.
Híbridas, diferentes,
ergueram-se em abstractos
desenhando beijos e mimos no firmamento
em saltos supremos de trampolim.

Saltimbancos,
amortalharam a razão
no som estridente de um clarim
quando, cansados de si,
se metamorfosearam em sensibilidades
no clamor de um plasma
e, em leito atapetado d’erva ardente,
de pétalas rubras, suor e grossas lágrimas,
se amaram, perdidamente.

Dos subterrâneos da mais inútil solidão,
do casulo morno do relógio do tempo,
regressaram as raízes,
em meditação do fascínio ou do logro,
na amplitude d’asas de cetim,
ora amplas, abertas,
ora quietas, doloridas, amarguradas.
Na periferia da aurora boreal,
aqui e ali, no canto e na água,
os sons erguem-se e ecoam dulcíssimos,
cristalinos, assinalando um lugar secreto e clandestino,
e os voos são um jogo de “Pássaros de Fogo”

Bailado de Igor Stravinsky, 1910, baseado numa lenda russa em que o Pássaro de Fogo,belíssimo, tanto pode ser uma benção como uma maldição para o seu captor.

Sigo-te

As cores do entardecer convergem num bailado ensaiado de passaros pequenos no céu. Somos só e apenas, observadores despertos de um mundo colorido de imagens, de sombreados iluminados e névoa cristalina.
A poeira não me cega, nem os teus olhos descobertos, é o teu semblante dominante que me despe e desconcerta.
Sigo-te sem passos, sem movimentos. Sigo-te pela razão da vida, rendo-me aos elementos que me dominam. Respiro no teu corpo enquanto me encontro e assisto ao passar das cores, dos cheiros humanos e reais, glamorizo o privilégio do cenário que me ofereces. Sei que é mais que isso, sei que além do silencio da individualidade promovida, há um momento em que me olhas e lês, Vês? Sinto o mesmo que vias.
Há tanto que preciso entender, crescer, há passos que não percorri, por medo ou pressa, o voo dos passaros expressa o quanto me resta por viver. O voar ausente de promessas, só horizontes, terra e o vento, e o meu caminho ali.
Imortalizadas histórias, em formas geometricas, criadas à mão, as memórias de uma terra que me chama por ser tua, por ser viva, aprendo tão mais do que entendo, aprendo a ouvir-te olhando, vendo-te com as minhas mãos que se movem sozinhas.
Desprovida de palavras, construo-te em imagens o que sou. Rasgaria os ceus todos os dias, ou pousaria em recantos conhecidos, contorcer-me-ia em reacção, mas asas soltas voam sempre em direcção à luz que as ilumina.

17 agosto 2009

Mãe

Lembro-me de ti com uma voz quente, andar unico, passadas tão mal ouvidas por quem rasga a vida em cavalgadas infinitas e indomaveis, as tuas, marcadas sentidas, seguidas por mim em direcção a um pôr de sol laranja, sombreado de azinheiras contadoras de histórias.

Eras diferente, filha de uma terra distante que nunca deixaste e que te obrigaram a abandonar, atravessavas o rio que te atormenta, em silencio, como sempre fizeste na vida, de olhar fixo em cada sentido, mãos fechadas em abraços só dados, no ninho onde me despertaste, no berço da minha vida. Minha mãe.

Até hoje me proteges desta senda de devaneios e intransigencias. Olho em volta, aqui sentada, as nossas imagens vividas em retratos, este sitio onde descansas, os teus livros, os sonhos refletidos em artefactos bonitos, o cheiro do Alentejo que és tu. O verdadeiro é já diferente, mais arisco e inventado, visitado e invertido.

Encostas a cabeça no teu próprio abraço, sofres, dava tudo por te oferecer a tua vida, minha mãe. És a luz que conheço, és o que acredito ser, ouço mais que a simples aparência do embaraço, ouço os gritos reclamando expressão, ouço-te em mim, ecoando canções, lições, perdões.

A tua capacidade de perdoar....

Se houvesse verdade

Abraçarias hoje um ser tão grande como tu.

Correrias numa planicie só tua, nesse pôr do sol que me mostras todos os dias, livre de amarras e aceitação, pequenina, do tamanho das ervas altas que te acarinhassem, de tez morena e um eterno sorriso que é o teu.

Deve-te a vida minha mãe. Olho-a e admiro o quanto nunca te fez hesitar. Amo-te tanto minha mãe, nas tuas coisinhas, na tua ilusão, neste sitio onde me albergo, me relembro, na imitação do jardim que devias ter, na imagem despedida do homem que nunca foi o teu. Está algures, o teu, sentado, de cachimbo e ar ausente, à beira de um ribeiro corrente, à sombra, carente de ti por, num momento da vida, se terem cruzado sem ver. Apetece-me encontrá-lo!

Ficas tão grande, escondida atrás da imagem cega dos teus dias. Quem olha vê-te assim. Não precisas minha mãe, vejo-te maior descalça, viva!!!

Embaraço-me a escrever. Sinto mais que isto.

O teu braço ferido será só e apenas mais uma expressão do que quer que seja que esta vida sem sentido, insiste em te fazer.

Amo-te tanto minha mãe!

16 agosto 2009

Compreensão

Tento fechar nas minhas mãos as forças estritamente necessárias para a sentida compreensão.
Ornamentada de minutos ocupados, de simples passos num qualquer sentido, vou ouvindo silencio em voz de razão, vou guardando a saudade, calando uma desnorteante vontade. Mantenho a força a qualquer custo, arte demente.
Vou andando.
Assimilei os códigos. Desfaço-me na margem de cá, na simples imensidão que eles ditam, recolho os meus, pedaços, sentidos. Retenho a imagem de uma ampulheta caida, instrumento adverso, já sem vida. Coloco-me ao lado do meu tempo, apertei-lhe a mão, arrisco confiar-lhe sentido.
Esqueço a reacção, aquela minha eterna inimiga. Desgastada, tambem eu sem vida, oponho-me ao protagonismo. Antes lancei-me em queda livre, arranquei-me de mim até entender, reler tudo do inicio, juntar os espaços e recordar.
Assola-me a loucura da lucidez agora.
É hora não minha. É nova a hora, nunca tracei o caminho, e nesta terra sem vida, remexo, estremeço, só isso, em busca da minha, olho por algo tão maior e de facil compreensão cujo reflexo não peço, não pediria, por essa imagem caida. Quero muito mais que isso, quero o tamanho que tem, quero a vida, o caminho sonhado e sentido não foi percorrido, não tem expressão.
Invadem-me em tempo de fraqueza, imagens vividas, agarro-as, peço-lhes vida e atiro-as em seguida à corrente.
A minha avó está de partida e o meu corpo ressente ainda agora cada visita, em forma de dormencia e vazio para a seguir me assolar de culpa por não ser diferente.
O meu pai ontem lembrou-me que me adora e tem saudades minhas. Tem razão!
O que pensava ser distancia, invade-me agora em multiplas formas de reacção postuma.
Rezo pela cruzada do meu tempo, apetece-me pedir desculpa à vida, infantilidades que me fazem como sou.

Estou desligada!


Mas por favor, na minha escuridão, não acendam e apaguem velas!!!!!
Luz, eu preciso de encontrar o botão!

15 agosto 2009

Ouvir

Os meus dedos, extensão do que sinto, parados. Imagino-os com vida própria.

Preciso que saibas que te entendo, preciso que saibas disso.

Argumentei-me mil formas que não há, de qualquer forma, encontro apenas uma.
O excesso meu e a falta tua. De palavras que na confusão deixei de ouvir.

14 agosto 2009

A minha Luz

Entrou na minha mente, de mansinho, como que explorando, pedindo licença com carinho.
Cascata refrescante de ideias, conhecimento e sede de saber mais, de encontros de palavras, descobertas de lugares ausentes, tempo intemporal, chuva quente de sentidos sem voz presente, sentidos adormecidos que se espreguiçam numa cadencia de despertares singulares.
Remexo na minha bagagem de mão, a desilusão, a banalidade, a terceira impressão, tornada certeza, o que vem a seguir à aparência, a fuga e remissão. Instrumentos rudimentares, inuteis.
O silencio ecoa sentidos unidos.
Aperto os meus lugares para lhes dar lugar, cresceram, vida própria, nova vida. Sem expressão corporal, vejo uniões, õs sonhos guardam corpo que já não é só meu, reivento a ilusão da loucura dividida, mais lucida que a percorrida. Apoquenta-me a razão de antever um caminho nebuloso e de luz intensa, raiada de historias multicolores que criam ainda mais vida. Tremo e calo.
Ouço. Sinto.
Fujo sem sair de onde estou, apaziguo-me com permissas e limites finitos, de mãos dadas, abraço a vida, percorro distancias com um simples olhar, divido contos singulares, lugares, vida, vida, vida.
Caminhada colorida de cores que não conhecia, de descobertas do significado de me deixar ser, levar, ser. O raiar mais bonito, o despertar mais desperto e sereno.
História tão bonita. Acompanhei duas com fim adiado, continuado, entendido por mim, distante, perto, significado de conceitos que apreendo, parecidos e mascarados.
Deixo-me, solto-me, entendo, sinto, sinto tanto, dou voz ao sentido, explosão de razão cheia de vida, sim, não.
Conheço o dia como noite, adormeço, desperto, duas faces da lua, magnifica, escura, amo as duas, enterro a minha mala de mão, tremo com mãos e furias, perco-me, encontro-me, afogo-me e salvo-me.
Entendo, não entendo.
Recebo o que dou, não tenho o que peço.
Esta luz não me cega.
É a minha vida. A minha razão.
Ergam-se vozes vazias, ponteiros e trovoadas. O sonho acompanha-me na voz da saudade, da minha expressão nascida, que aprenderá a andar.
Atravesso a caminhada mais sentida e dificil, deixem-me passar, nem que seja a gatinhar, por enquanto!

A pequenez da ilusão

Tenho um patiozinho no meio de casa. De paredes brancas. Brancas demais.
Mil pardais todos os dias, pousados nos telhados, de voos baixos e chilreares bonitos.
O meu amigo ainda sonha apanhar um, um dia.
Há dias, vi um pardal ainda pequeno, no chão desse patio, sem conseguir voar, preso nas paredes brancas e altas. Resolvi ajudar.
Deixei agua, migalhinhas, ia visitar de vez em quando, julgando ser capaz de o ver voar.
Derreti-me a ver um pardal grande, acho que a mãe, que logo de manhã vinha ter com ele, piava enquanto ele tremia as asas, soavam os dois, dias inteiros, e eu sorria, julgava fazer parte do dom da vida. A mãe fugia quando me via, mas voltava sempre.
Hoje de manhã, a primeira coisa que fiz, foi procurá-lo. Não vi. Pensei que ganhara forças e voara. Fiquei contente, fui à minha vida.
Há bocadinho, ouvi a mãe, pousada na ombreira da janela. Ainda lá está. Ainda o chama.
O pardalinho voou e afogou-se numa tina de agua minha.
A mãe ainda está lá agora.
E eu tou a chorar.
E a sentir-me ainda mais pequena

Desabafo

Curiosa esta vontade de saber, mexer, por nada, na vida que não pertence.
Como me enervam "Crónicas Femininas", "Marias", "Tv Guias" em forma de gente. Parecem-me vazios preenchidos com o que quer que seja alheio. Não por entendimento, não por empatia, apenas porque se passa algum tempo a dissertar no que provavelmente se gostaria de entender, ou ter, ou viver. Não me interessam os motivos, menos a expressão ou razão.
Interessam-me os momentos em que me rendo, que me entendo. A conversa sentida, o reflexo da minha vida, ser humana, meu Deus, humana, só isso.

Tão facil falar de conquistas, percursos, raivas e razões. Mais dificil entender a humanidade da loucura, perceber que tudo o que me sustentava, certo ou errado, o que defendia e me erguia, deixou de ter lugar numa ironia temporal, num alucinio tão mais forte que razões, em que as mãos pendem, cada gesto parece certo e errado, que o que sinto me engasga, cala e enrola, e simultaneamente, me liberta e enche do que nem sabia existir. Dificil é dizer alto para me ouvir que estou perdida, que a terra foge debaixo dos pés, que não sei o que antes sabia num orgulho desmedido que agora não me ajuda.

Não me ajuda o que ouço, não me ajuda o meu passado e muito menos a outra história, não me ajuda odiar-me pelo medo de arriscar, acreditar por mais de um dia, não me ajuda este odioso não confiar que não gosto em mim e preciso de aceitar, não me ajuda não ter razão, não me ajudam as aparências e as primeiras impressões, a razão, as minhas arquitectadas razões que não servem para nada.
Não me ajuda o tempo, não me ajudo eu!
Não me ajuda não entender e por isso deixar-me pensar.
E não me ajuda não me sentir especial por não o ser ou não o ver em mim?.

Olhar um olhar novo e perceber que se falar, falar de mim, vejo uma expressão, um sorriso, não sabemos nada, no fundo sabemos, eu sei o quanto me custa encarar de frente esta loucura que não tem retrocesso, e entendo a luta perdida por não ser verdadeira, e a minha verdade pura que não sei viver.
Como rejeito falsos messias, pregadores da mesma razão que a minha e tu precisavas tanto de só ouvir "Também estou perdido, como tu". Estarei aqui amiga, para te lembrar que não és menor, és estrela de mim, tão perdida e achada quanto eu.

As palavras hoje podem não parecer bonitas, mas são sentidas, estou cansada, destruida, sem norte, e palavras, palavras, hoje o meu timbre foi falar, chorar, foi render-me à responsabilidade de não ter mão em mim e, mesmo tendo, não o querer.
Foram toques pautados de sarcasmo, de entusiasmo que me invadem e nunca terão lugar, passam, não ficam.

Dei comigo a lembrar-me do dia em que, certa de tudo o que sinto ser pura loucura sem reflexo, cada gesto sem eco, ter visto o que não via. Que o que não existia, havia. As mesmas vontades, os percursos sem pensar, a forma de olhar, coisas pequenas.
Sentir-me madura, nem que seja uma vez, aceitar, que me entenda e acarinhe por favor.
Fui eximia em, eu mesma, virar a minha vida ao contrário!
E agora, perdida, sem retrocesso, por conhecê-lo, por saber que já não consigo, parada, sabendo que ridiculamente, ao minimo gesto, não hesito, olho em volta e só vejo...

Que loucura tão grande!!!!

O Tempo

O tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

Eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava.
Era tua a tua voz que dizia as palavras da vida.
Era o teu rosto.
Era a tua pele.

Antes de te conhecer,
existias nas árvores e nos montes e nas nuvens
que olhava ao fim da tarde.

Muito longe de mim,dentro de mim,
eras tu a claridade

José Luis Peixoto

Nada

Mais...
Hoje um senhor que admiro, pela luta exemplar, olhou-me e disse que tinha dificuldade em ver onde estava a crise. "Está a ser o melhor ano para o turismo, segundo as agências de viagens", que as pessoas continuam a passear, a ir de férias. Onde está a crise?
Respondi-lhe que provavelmente a visibilidade não estava aí.
"O que eu sei é que não deixam de ir de férias".
Lembrei-me que vi a semana passada, uma noticia acerca de o governo espanhol defender o direito a férias dos desempregados.
"Pois, se calhar tem razão..."
Lembrei-me mais ainda. É que não me lembro de quase nada da minha vida em 4 anos.
Se calhar preciso ainda mais de férias...
Ou então, não fiz mesmo nada
A não ser, correr, trabalhar, calar, ganhar, gastar, barafustar e construir muros à minha volta para me convencer que assim é que andamos para a frente.
Então, porque é que me sentia tão vazia e frustrada?

13 agosto 2009

A soma das partes

O todo. A soma das partes.
As partes em si são um todo.
O meio determina-me e eu não não sou o centro do mundo.
Sou o principio do fim do meu mundo que termina antes de começar.
Porquê?
...
Em matemática, um mais um já não são dois, na minha vida nunca o foram, represento a tese por experimentar.
Para quê?
...
Na alegoria cansada da metade do meu todo, faltam premissas em equações.
Estou cansada, não gosto de mim assim, acordei a meio, amar por si não é um todo.
Falta o quê?
....
Sou metade, inteira, de pé traçado na partida, lebre ou tartaruga, viva ou perdida, presa ao sonho de uma vida que não é minha, amada, esquecida, merecida ou não...
De quê?
....
A meio da vida, sou toda, sou nada...
Sou eu.
Merda...
Porquê?
...
Problemas, questões, equações...
Faltam-me soluções, caminhos
Na acção como resposta, tenho na mão apenas palavras
Sentidos
Falta sempre ao todo
Vai faltar sempre
Porque é assim.

Free Hugs

"I'd been living in London when my world turned upside down and I'd had to come home.
By the time my plane landed back in Sydney, all I had left was a carry on bag full of clothes and a world of troubles.
No one to welcome me back, no place to call home. I was a tourist in my hometown.
Standing there in the arrivals terminal, watching other passengers meeting their waiting friends and family, with open arms and smiling faces, hugging and laughing together,
I wanted someone out there to be waiting for me.
To be happy to see me. To smile at me. To hug me."
Juan Mann
........................
Somos doidos?
Tenho um carro grande, grande demais, uma casa onde me perco, não me lembro do que fiz em quatro anos a não ser trabalhar, cruzo-me com pessoas que não me veem, falo "você", ganho, ganho, ganho, perco, perco, neste tempo todo, quis também tanto e apenas, um abraço.

Voar


"As asas da borboleta, uma vez tocadas, não mais conseguem levantar do chão"

Loucos e Sonhadores

Esteve uma noite meia, meia lua, cidade meia, subi a Rua do Alecrim depois de saborear o cheiro do rio, parada e meia de vontade, inteira numa saudade que não me deixa.
Entrei. Tão bonitos os meus amigos, André, Bruno e a minha amiga que apertei nos braços mal a vi.
O sitio onde estivemos, sorrimos, loucos e sonhadores como o nome, como nós. Talvez pelas bebidas que não tomei, talvez por me sentir aquecida, rodeada de livros e amigos e da ironia daquela musica conhecida, lembrei-me de expressões do Diabo.
Falava acerca de Deus e garantia as gargalhadas que aquele daria, perante a ironia da sua criação. Seres feitos de impetos, instintos, virtudes e defeitos e a seguir, regras, normas, "Vejam mas não toquem, sintam mas não façam, desejem mas não queiram". Num momento, um por um fomos falando de nós, da loucura do que sonhamos, do sonho de enlouquecermos, de desejarmos, sentirmos, da vergonha de ser homosexual, de não querer amar, de perder quem se ama, de se amar sem poder.
A musica insistia em doer-me, reconheci de onde vinha.
Dei 2 cigarros a quem pedia, prometi que voltaria, que também eu não esqueço, pedi desculpa porque também sinto e deixei-me envolver mais uma vez naquele abraço que costumava ter todos os dias.
Até há pouco, à porta da porta onde entrava , fui ouvindo palavras, sorrindo, percebendo que não sou só eu. Somos desfocados, deslocados, com medo de arriscar tudo por sonhos que nos enlouquecem, os crimes que não cometemos mas que nos tornam criminosos, as viagens que precisamos fazer , a mesma lua que vimos, e na minha mente ainda mais estonteada , "o que estás à espera?"
" Não quero dizer a mim mesmo que não conheci porque a certa altura tive medo e não arrisquei"

12 agosto 2009

Vim aqui

Estava ali, ocupada, distraida, com os meus botões.
Levantei-me e vim a correr
Há esta coisa que preciso de dizer...

Certo ou errado

Quando era pequena e o mundo ainda tinha magia, lembro-me do meu pai me ensinar o significado de certo e errado, equivalente a ser bom e mau, criminoso e inocente. Reparei que era dificil explicar.
Para mim, era errado levantar-me da mesa antes do tempo e certo era pedir para o fazer. Os bons faziam coisas boas, tinham vozes e caras doces, e não falhavam, os meus pais, professores, os escritores e sabedores; os maus tinham cara disso, tinham bigode e voz fria, mãos grandes e passadas pesadas. Os maus eram-no porque queriam.
Eram certos os valores, errados os enganos. Não entendia.
Lembro-me também da primeira vez que dei um beijo na boca, do João. Não gostei, parecia errado, por isso, não disse a ninguém. Hoje acho que merecia ter saboreado, era o primeiro.
Era boazinha, aluna exemplar, disciplinada e bem comportada, mas eu calava tanto que sentia ser errado. Era como se o mundo me examinasse e avaliasse a cada passo e eu precisava de passar.
Minimizei o erro de não me mostrar. Chamei-lhe decisão.
Mais tarde, sem me entender, quis explicar a minha autodestruição, resolvi olhar de novo em volta e percebi os valores invertidos de quem me ensinara. A bondade era submssão e a aventura, evasão. Também não. Mas servia.
Houve sempre uma voz cá dentro que me foi falando baixinho para não olhar assim. O certo também é errado e os bons são maus. Chama-se humanidade.
Reconstrui-me de mala feita, pronta para apontar o horizonte, vazia de convicções mas castrada em ordenamentos, de vez em quando, via os meus trapos guardados e vibrava de memórias cheias de vida só sentida, a minha, a calada.
Fui prostituta de corpo e opinião, fui dama de companhia e menina de bem, fui criminosa e maltrapilha e endoideci longe de mim, estive tão certa e errada.
Hoje, calo-me, estou cada vez mais calada, com umas tantas rugas na cara, as minhas mãos desceram das ancas para se juntarem de embaraço. Certo ou errado?
Não sei, não quero saber.
Perceber fez-me perder.

Naufrago


Permaneço imovel na escuridão
Amanheceu
E guardo em cada mão,
um laço sem tempo, nem regaço
Sinto água que se move
debaixo dos meus pés descalços
Água fria, transparente
Sem reservas
Sem me ver.
Passos soltos
Sopros,
Laços
Do outro lado da lua
Vejo-me cheia, tua
Naufrago nas aguas que correm
Devolvo-me à corrente
De saudade.




Palavras, nem mais nem menos...


Posso andar por mil lugares...
Mas foi aqui que aprendi,
É aqui onde me sinto
O que verdadeiramente sou.



Quero correr e não consigo
Permaneço imovel na escuridão
Amanheceu
E guardo em cada mão,
um laço sem tempo, nem regaço


Sinto água que se move
debaixo dos meus pés descalços
Água fria, transparente
Sem reservas
Sem me ver.


Do outro lado da lua
Vejo-me inteira, tua
Naufrago nas aguas que correm
Devolvo-me à corrente
De saudade.

Clic

Fui comprar. Imagens que só dele conheço, lembro-me da primeira vez que o li, o primeiro.
De uma mulher recatada, reprimida, divergente de si, que reagia ao mais pequeno impeto sexual, não conhecia, não queria ou sabia.
Ao simples clicar de um botão, do seu marido, de outros que se seguiram, tornou-se ainda mais escrava, à beira de orgasmos contidos e espoletados em explosões de prazer e humilhação.
Gosto do Manara, sempre gostei, gosto da ironia do conhecimento dos sentidos contidos em cada mulher.

Instinto

Está calor. Está tanto calor aqui...
O meu amigo de sempre já voltou, contente...
Ontem já tarde, vi-a. É bonita como ele.
Estou de férias. À tardinha vou para a minha cidade, ver pessoas que gosto, abraçar a Ana, pedir desculpa, estar, lembrar-me de quem sou de verdade.
No meu mundo pequeno, preciso hoje de me entender, durante as horas que a noite aqui esteve, não soube recusar também eu julgar-me e desentender-me.

Vocês são sorrisos

Sou boa pessoa, sei que sou.
Sei, em pequenos devaneios meus. Sei porque aquele rapaz ficou comigo, porque sinto falta de um olhar lindo que a minha sobrinha faz quando está comigo.
Sou boa pessoa mesmo assim..
Lutei muito por ser integra, por olhar em frente, pelo meu direito em sonhar, errar e acreditar.
Usei-me tanto, usei tanto, esfreguei-me na lama mais profunda que não admiro, apenas me chama, às vezes, até aqui, sempre acompanhada, nunca deixei de me sentir sózinha e distante.
Sou boa pessoa, pouco mais do que isso.
De agora em diante, tal como em todos os meus dias, com sentidos esgotados de tanta falta de entendimento meu, com palavras apagadas sem engano, sigo..
Nunca usei ninguém a não ser a mim mesma, e enquanto o meu amigo de sempre ainda não voltou a casa, passou a noite na rua, empenhado nos sentidos, aceito, sabe tão mais que eu.
Não sei, foi o que aprendi.
Mas sou boa pessoa.
E preciso de saber isso.




" Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.

De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.

Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.

O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :
"Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."

Fernando Pessoa

Não

Não gosto de favas, nem de peixe cozido.
Não como coelho, não consigo.
Gosto de andar descalça mas é só por sentir os meus pés no chão.
Não gosto da palavra sexo, não a sei entender.
Gostava de saber.
Faltam palavras às vezes.
Não gosto que se riam e olhem a seguir para mim.
Não gosto de ficar corada, envergonhada.
Faz-me falta aquela madeixa de cabelo que me escondia a cara.
Não gosto de mim às vezes
Pareço ser má e feia.
Gosto do que sinto por algumas pessoas
Odeio o que desejo a outras.
Não gosto de ter quase 40 anos
Não chega, parece ser tarde.
Não gosto do escuro
De resto,
Hoje
Não sei...

11 agosto 2009

Terra da cor dos olhos de quem olha








A lua que te ilumina,
Terra da cor dos olhos de quem olha!
A paz que se adivinha

Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha condição
Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar!...

Outro Caminho

Partimos cedinho para o nascer do sol que nos aguardava mais a frente.


Chegamos a uma terra mágica, "El Rocio".
Povoação milenar, cheia de paixão, onde a história reclamou o seu lugar, onde as gentes se movem em pisadas de areia misturadas com cascos e cheiros, onde se fala mais alto e se canta.




Apaixonei-me de imediato pelo que me rodeava, como se as nossas origens se refletissem ali.
Ainda desacostumadas por um cheiro acido a estrume, mastigamos umas tostadas e apressamo-nos para o veiculo verde.
O José esboçou um sorriso, eramos portuguesas interessadas no seu modo de vida.
O Manolo conduzia e, de enviuzado, vi a paixão que o move, escrutinando nas dunas imagens, movimentos, sorridente, fazendo-nos levitar, como o Jose diria mais tarde.
Ao principio, entreolhamo-nos, parecia igual, os coelhos e as perdizes, tinhamo-nos rodeado delas a caminho do Pulo do Lobo, e o Lince escondido não havia só ali. Mas à medida que andavamos e entramos na Marisma de Donaña, os meus olhos começaram a absorver uma paisagem unica.
Jose seguia explicando-nos o significado daquele lugar, a vida partilhada em comunhão, onde o pronome possessivo tem pouco espaço, os potros seguiam as mães que nos toleravam com o olhar, caballos roceros, fortes, donos daqui, sabedores dos dissabores dos verões e invernos que os mudaram ao longo do tempo.
Ainda não vi as fotografias mas guardo as imagens na minha memória recente.
Guardo a história do Senõr Valverde que se apaixonou ao ponto de lutar, das invasões e conquistas, da ignorancia pelas enfermidades e erros consumados.
E a Señora Donaña, casada por obrigação, filha de desterros e incurias que livrou a mae das mãos implacaveis que vejo em todo o lado.
As crenças, as lendas e as viagens...
As milhas percorridas em busca de vida, paradas aqui só por um momento, de respirar...
Paramos...
A vida inundava-nos...
Aproximei-me do Manolo e, numa linguagem estranha, entendi o que vira, perguntou-me acerca da minha terra, mostrou-me imagens do lince, falou-me das tardes que passa sozinho ali, explicou-me que preciso ouvir antes de ver o rosado dos flamingos, mostrou-me os ninhos escondidos, e eu, sorri, percebi que há lugares que falam mais alto que nós.
"We are the people who rule the world"


Somos ? Não somos...