30 janeiro 2010

Só me falta um exame, não é que me prepare para ser analisada, é só a ultima etapa de mais uma escada, de mais uma época, de mais qualquer coisa.
Direito, é o que vou estudar, direito das organizações, normas que regem pessoas, que regulam seres desviantes. Não me apetece estudar direito, sabes ? O que eu queria agora era rumar ao ocidente, atravessar o mar e aninhar-me no teu colo, ouvir as tuas palavras, pedir-te  que me explicasses a ordem das coisas, mais que o direito que cada uma tem.
Estou triste, sabes? Não é por nada em especial, é como se o mais importante na minha vida se tivesse convertido na noite mais sombria, como um filme macabro, porque é assim feita também a ordem das coisas. Eu sei que ao longo da tua vida, aprendeste a rir-te, também me vou rindo, do egoismo, da hipocrisia, dos fantoches arcaicos, ri-me agora mesmo, ri-me pelo nosso "mau feitio".
Queria saber agora devolver-me as margens de cada sonho, queria querer bem, queria calar esta vontade tão negra de me rir, mas as gargalhadas sempre me fizeram bem. Tal como me ensinaste, oferecer um sorriso a mim mesma. 
Estou cansada de teorias, de mesquinhices, de pequeninisses, de hipocondriases e de gravidezes histericas de ideias parvas. Estou fria, sabes? Zangada. Normalizada, diria, porque a vida é mesmo assim, feita de nada e de tretas conjugadas e mentiras.
Eu sei que devia ser bem comportada, e continuar a sorrir, mas o meu riso é raiva, é visão clara da mentira, do auto convencimento tosco que, para mim, valha-me, continuar sem valer nada. O sorriso, não o encontro, já procurei, como me ensinaste, não o encontro.
Tenho saudades de tanta coisa, tenho os olhos vermelhos, tenho vontades que não quero, tenho vergonha de um dia me ter despido, minha nudez inimiga, estou meia perdida, e só queria agora o teu colo. Queimam-me as chaves no bolso, a carteira recheada, há uma voz tão familiar que calo a cada minuto, e não penso, não sinto, não quero.
Não estou aqui, sabes? Sei que atravesso qualquer coisa, mas acho que perdi tanto de mim e é por isso que sofro. Não te sei explicar o que sinto... acho que sofro por isso, é que não sinto nada e não sei de mim assim.
Vou estudar o Direito das pessoas.


Quando cheguei, erguia-se um fumo estranho da pilha de troncos, pensei de repente na facilidade como a substancia se converte em mera fumaça, baste semear fogo e aguardar o elementar desenrolar das expressões. Basta semear e não tratar, basta não pertencer, despoletar como ponto máximo de esforço, como um filho unico egoista e prepotente que se arroga os brinquedos, pega fogo, e ri do seu direito de estragar tudo.
Ao lado, o sr Alexandre queixava-se de mais uma noite passada no hospital, o Julio assentia escondendo a preocupação calada de não ter palavras e um molhinho de caras estranhas envoltas por fumo, fingia que ouvia. O que chateava mesmo era aquela pilha reduzida de lenha cortada que não devia chegar para todos.
Na frutaria do Simões, perguntara a uma cabeleira falante se não queria antes desatar à chapada para chegar mais cedo ao cesto do pão quente, enquanto o cotovelo me entrava pelo peito adentro, menos que aquelas vozinhas estridentes de fim de semana. 
O senhor não sei quantos, que falava desbocadamente das galinholas anilhadas que tinha abatido a semana passada, como se fosse por isso, motivo de ser maior, mantinha as mãos nos bolsos e o cãozinho aparado, dentro do carro, evitando contagios com o do Julio que dorme dentro de um bidão e só é acarinhado em época de caça produtiva.
Não ando nada bem, não ando mesmo, apetece-me dar eu, uns pares de bofetadas, pensamentos insanos que conheço demasiadamente bem na minha expressão. Sentei-me no balde da máquina, depois do ar orgulhoso do Julio anunciar "Tenham cuidado, esta é a menina dos explosivos, ela é perigosa!..."
Não sou nada, Julio, não sou nada... Sabes lá o que eu dava agora por um colo, por não ser eu a vir aqui, por esta fumaça não me lembrar a verdade, por este amargo de boca que quis tanto não sentir e sei que não vou ser capaz de esquecer... Sou tão diferente de qualquer coisa, e mesmo assim, ficava aqui agora a falar contigo, para não me manter segura e caminhante segundo após segundo.
Dois minutos e as mãos nos bolsos, deram-me volta ao estômago, peguei nos troncos, como eu detesto gente que assiste, que não se julga obrigada, como eu detesto esta moda de "não nasci para isto"
Mais gente, caras mais simples, a maquina de corte  é assustadora e estala, estala na minha mente com  pouco espaço para entender seja o que for. E o Julio continuava a distribuir cartões, "cuidado que a S. é ..." e este senhor é médico e tambem mora na sua aldeia.
O tal medico e eu, com uma dor mutua por qualquer motivo, vindos não sei de onde, parados ali porque sim, porque mais que lenha, a vida é mesmo assim, carregamos, enchemos os carros, e as historias febris de caça e trombones fundiam-se no fumo cada vez mais espesso da pilha que o Julio enfrentava de mãos frias.
Está tanto frio dentro de mim, chegada aqui não sei se o quero, não sei se o fruto me ensina se me liberta, sei apenas que preferia quando chorava e sentia.
Tenho uma força tremenda em mim, que desconheço, estranha, tenho sentimentos que não gosto, páro na estrada para escrever, não saboreio novos amigos, conquistas que valem o que me perfaz, que eu sei disso, desconfio das ofertas de sorrisos que me tocam e não entram, foi-se o medo, foi-se a vulnerabilidade, encostei a cara a uma pedra fria e trouxe-a comigo.
Na minha mente fez-se a magia da vontade, mas a sede não é bem vinda, faz de mim, distanciada do que sou. Pinto-me, como há muito tempo, sou protagonista de montras e imagens, atraem-me as distancias, os abismos, as ruelas e os becos sujos e límpidos de alma, atrai-me a droga de aliada desta farsa toda.
E estes homenzinhos do meio da pátria, que já fizeram a sua parte, que agora compram e esperam que lhes levem a casa, eram alvos para a minha cara feia e cada palavra que lhes ofereci, ao menos, tiro proveito da fama, ao menos consegui que tirassem as mãos dos bolsos e me carregassem o carro, em fila. 

Monte do Pilar

Enquanto ouço vozes , talhadas de moldes frios e sem sentido, o meu corpo insistia em aceitar jornadas seguidas de peso e conversas interminaveis comigo. Olhava ao lado e via nada, um banco vazio, uma distancia inquebravel entre mim e o que aclama conhecimento.


Fica mais uma viagem, pedaços depositados aqui e ali, caras novas, um abraço onde menos esperava e tanto que precisava, pela profunda desilusão em que me encontro.
Pinto o meu quadro de cores, escolho a dedo as musicas, os traços desenhados de passos, neste dia, não acreditei em sonhos, acreditei em magia, não acreditei em laços, acreditei em rasgos dormentes e por um dia, só um dia, desviei-me do caminho, embrulhei-me no meu casaco quente e calcorreei as escadarias, envoltas em silencio, no cimo de um monólito maior que tudo, do cimo, do meio do caminho.


É tremenda a sensação de pertença, não agrupada, não arrebanhada, não pedida, nem concedida, oferecida apenas, depois de centenas de kms tirados da pele, de transformar o sim no não, a verdade na mentira e o jogo na orquestra da crueldade pretendida.
Fica isto, uma hora, num lugar qualquer que descobri porque ainda agora me desvio.

Lá em baixo, aguardavam imposições, no alto sentada, desliguei-me de tudo, que preciso, ouvi só o silencio, pensei nos magotes a caminho de um qualquer centro comercial e ali, onde o mundo respira, ninguém, sons do mundo, de pássaros, de neve ao longe e musgo que brincou comigo nos joelhos raspados na pedra, nas quedas, nos tropeções para me sentar no cimo e erguer os braços.
Pensei nos violadores, ladroes, mentirosos, saqueadores, respirei, não estão aqui, se estivessem não via isto, via a igualdade entre o cume e o sopé, apenas.
Mais tarde seguiria, com tempo para dar um abraço a Margarida de sorriso lindo, que as mãos herdaram o preço da vida fora de secretarias e escadotes, beberia café quente com os homens que conhecem o preço da distancia, de me sentar nas escadas da fabrica a dizer mal dos homens fardados, que detesto, de ver as horas e não ter pressa.

29 janeiro 2010

 
Jure Kravanja

A cidade iluminou-se com uma Lua mais cheia que a noite que chegava, as cores crescentes de cinzento e negro esboçavam a claridade dos contornos sorridentes. Caminhei a medo, envolta na convicção de me testar, enquanto me dizia que apenas procuro preenchimento inflacionado agora de mim. Um assim, de retalhos iluminados, de notas soltas, novas, de passos de dança que me lembraram pássaros soltos e folhas de Outono.
Esqueci que se a elevasse, a minha mão não encontrava extensão, que se pousasse a cabeça seria nos joelhos encostados ao meu peito, que lá fora, a vida enrola-se em espirais de evasão. Serpenteei os olhos encantados, revi ali os jogos mais sedutores, deixei-me levar aos poucos pela experiência. Fechei os olhos e pretendi ver com a minha alma, movi-me, toquei, senti contornos, ri-me e dancei à musica que me entrava de forma diferente.
Senti-me unida ao espaço, desde há tanto tempo precisada de albergue e carinho, descobri uma sensação diferente,    imaginei os corpos, vidas, dancei com partes do meu fundo, senti formas, conquistaram-me sentidos, senti-me dona de mim.
Esqueci-me da imagem, deixei-me levar, contei-me uma historia em movimentos que só eu não vi, acordes de musica quente, faces soltas como a minha, expressões salientes, bonitas.
A voz forte oferecia palavras que se conjugavam como lições, os passos soltos, marcados no palco que ensaia a vida feita de espontaneidade. 
A viagem de volta foi um instante, de conversa comigo, sentada à minha beira, companheira. E a Lua? Tão cheia, tão iluminada, e as palavras que guardei desconhecidas de imagem, que trouxe comigo, e a descoberta dos passos que descobri sem ver.
Certa, errada, pequena ou grande, lembrei-me da feira onde jantava sardinhas assadas nas noites quentes, nas madrugadas no Bairro Alto sentada no chão das Primas de copo de vinho branco, do nascer do Sol no Abano, das coisas, do som do tempo, lembrei-me de tudo agora, como há tanto tempo, 
Se é a vida um palco de ilusão, que pinte a minha com as cores mais belas deste mundo, com memórias e esta cegueira induzida de dança e faces desconhecidas.

Assusta-me a doença. 
Assusta-me a prisão do que me transcende, 
oferta das mãos improvisadas e desconexas do destino
Assustam-me as mãos atadas.
O preço da liberdade
As conversas necessárias
Para aceitar, entender

Chego, parto!

Noites feitas de conversas com a minha mente, feitas de partidas dobradas de raciocínio, mais que isso, de respirar espaços em que me reconheço. Noites de silencio, em que lá fora, os ciclos se fechavam como devolvidos ao leito apaziguado e grato. Eu, devolvi-me ao ventre de horizontes, deitei-me nas linhas infinitas e nas variáveis e constantes do meu tempo.
Descobri gestos novos, ensaiei um bailado de madrugada, feito de passos e prosa, ergui muros de pedra, e lancei-me fora  das horas e dos espaços. Fui agora. Fui crescendo, de cada face salgada, de cada palavra, fui crescendo para me tornar una. Sentei-me agora no cimo de um degrau que acabei de moldar, feito mais do que notas, simbiótico com a minha sede de me encontrar não pertencendo.
Caminho promissor de regresso a mim, encantada com os momentos que julguei não ser capaz e que me tornam agora acarinhada por mim. Sentei-me aqui, contente comigo, cansada, encontrada ou a caminho. Penso em cada segundo que duvidei, que me subtrai, nos outros que me ofereci crente de, em troca de algo meu que não me habitava. Lembro sentida tantas caminhadas, lembro a vida que me aguarda, trago comigo uma nota, num papelinho, duas faces, duas luas, um sol, e sete mares. 
Hoje, a sala branca era enorme, pintalgada de mim e de poucos que ainda guardavam o esforço de alcançar mais que um fim, um grito alto de dentro, contra cada ferida que ainda sangra, contra a pequenês de me julgar pequena, contra o medo, contra o cinzento e a imagem, contra tudo o que quero ter deixado no meu canto fechado. A minha mão corria receosa de perder a mente, essa corria de dentro de um sonho que acaba de despertar de noites sombrias, que partiram em romaria para o outro lado do mundo.

27 janeiro 2010


Rio Sorraia

Descobri as duas faces da lua, a terra fértil no vazio que o mar deixa, descobri um tempo que escondia por medo e onde só eu existo, de mãos dadas com a condição e as palavras, abraçada às margens do meu rosto quente, sempre. Descobri numa gaveta repleta de mim, de tudo o que tenho, um respirar que hoje não aspirou espelho, nem sonho, faço-o deste dia, aquele que por ser hoje, não será nunca mais.
Andei demasiado à deriva à procura de um tempo sem conteúdo e a deixar escapar por entre os dedos, o tempo das coisas do mundo, o meu.
Afinal o vazio está cheio de vida!

26 janeiro 2010

Hoje todo o dia, o meu corpo, a minha mente, o que tenho cá dentro, esteve longe, não sei onde, não querendo, sendo por não saber, deixar de me ser. Todo os gestos foram inquisição, mãos presas, frias, razão dos sentidos em prol de nada, construção.
Os meus olhos são espelhos da antitese.
As minhas mãos tecem mantas de retalhos de todas as coisas bonitas que em mim guardo, mais plenas que gestos que me entraram de enxurrada.
Não sei onde me ando, não sei o que se passa comigo.
Estou triste e capaz de nem me reconhecer.


"em todas as ilusões, escutava sons antigos, barcos vindos de longe, silêncios cheios de significado, como se escutasse amores impossíveis nas asas de uma cegonha"

24 janeiro 2010




O que ficou de verdade, de três dias fortes demais.

São as cores que hão-de haver sempre, muito mais que escuridão sombria

São minhas, são momentos meus.

Papelinho

Cheguei agora de um percurso silencioso, demorei a chegar, parei muitas vezes envolta numa escuridão fria, resvalei em escarpas, acordei vazia, transpus correntes de agua furiosa, teci retalhos em madrugadas geladas, vi contornos apenas, revirei-me na cegueira que não conhecia, apelei aos meus sentidos por mais um passo, roguei caminho, perdi-me de mim enquanto ao longe fui ouvindo tempestade.
Toquei textura que desconhecia, vi campos desolados de histórias e estradas chorosas de mal passagem, vi margens que aguardavam silenciosas, perdi-me em caminhos de relento e mentira.
Cheguei agora.
A minha história chegou comigo, envolta numa manta de retalhos que fui tecendo.
Cheguei cansada e dormente.
Olhei à minha volta e vi fome, sede, toquei cada ferida que trago, cada contorno de silencio.
Não sei onde estou, não conheço este sitio, conheço somente o que sinto. E é tão forte...
A minha vida foi feita de caminhos, claros e sinuosos, de opostos fortes herdei os meus contornos e agora, sei apenas que nenhum será nunca capaz de tirar as cores ao meu mundo, de apagar o meu olhar de longe, de me ferir de morte, de me tornar em amargura e escuridão. Isso não.
A escuridão é só uma mascara. A ilusão é uma margem que não me vai abraçar.
Cheguei agora, vou dormir, comer, beber, vou escrever um livro colorido, e a seguir vou rir-me do caminho negro, vou pintá-lo até desaparecer.

22 janeiro 2010

Meggy


Estou sem palavras....
Estou tão triste!!!
 É um sentimento que não se descreve, é mais forte, é maior que nós.
Falei contigo, sem saber o que dizer, li-te agora e não tenho palavras, estou contigo, vou estar sempre.
Penso nesta merda toda de vida, de alaridos, de arrogancias e tretas, de palavras demais e amor demenos, desta raça ignorante que tem tanta porcaria sempre para dizer,. E sabes, não vale nada, vale este sentimento que não se cobra, que nem sabemos entender, não se concebe na nossa razão, fica o privilegio de sermos escolhidas por um amor deste tamanho.
Há-de ficar, sempre, assim..
Gosto deste sitio, preenche-me e eu deixo-me nele, às vezes zango-me, escondo-me, outras sinto e desperto, escrever é um sopro de dentro. Sempre tive um diário, um caderno, um patrimonio de pensamentos dispersos num amontoado de papeis. Tenho guardados papelinhos que escrevi aqui e ali, rasguei outros por, sendo escritos por mim, não me pertenciam.
Gosto das luzes, abraçam-me palavras que por vezes recebo, e se recebo, é tão somente porque me mostro, de outra forma, continuaria no meu conhecido emaranhado de papelinhos que ainda cresce. Por vezes, leio-me e tenho uma sensação estranha, parece que me conheço desde sempre, ou então, não me encontro.
Convenço-me que sou de tudo, e nada me adjectiva, sou grande, pequena, sou diferente e estranha mas uma qualquer cara num mar de gente, sou humana e sou mulher, não sendo mãe, gerei o que a minha terra fez crescer, e assim farei. Sinto uma fronteira, entre cada elemento, cada sentido, como se pisasse a medo os opostos semeados em mim, colho ventos e calmarias cá dentro, semeio o espaço que percorro em momentos que não descrevo por não encontrar palavras. E há um meio, há um momento em que tudo se mistura e separa e de nada, o meu olhar ganha cores que não conhecia e despede-se de outras que já não brilham, sou eu que mudo, apenas.
Sou hoje o antes e o depois, não sei quem sou, não saberei enquanto me entontecer esta vontade de espreitar, de cheirar, de tocar, de ver, de errar, de ser comportada, de falar com as caras bonitas, de ser gente.
Sou ainda episódio, não sei a minha história, mas os meus pedaços são formas vivas do que sinto agora.
Não sou poeta, nem escritora, não sou esquerdista e muito menos messias com a mania que descobri a pólvora que ainda ninguém viu, não me descalço e subo para cima de cavaletes monologando ao vento utopia.
Na verdade, estas luzinhas aqui do lado direito, de caras desconhecidas que me acompanham, acarinham-me e oferecem-me sorrisos, em dias como este de kms demais, conversas interminaveis comigo, lagrimas e sorrisos e um mundo cada vez mais e menos estranho.

Imagem do meu dia

Ontem, na serra de Monchique, havia um silencio quente, como se tudo se combinasse numa história milenar.
Quem me dera saber decifrar o que sinto, de vez em quando.

Vou-me entretendo a parar, a ter momentos assim...

21 janeiro 2010

A outra margem de mim

É muito tempo a desejar o tempo
De mudar ventos, levantar marés
É muita vida a desejar o alento
Que faz saber ao certo quem és


É funda a toca onde te escondes tanto
Tem a distância entre o silêncio e a voz
A vida rasga bocadinhos gastos do mundo
Vai descascando até chegar a nós


A tu que sabes tanto de mim
Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salva
Do que o medo fechou


São muitos dias a perder em vão
Sem nunca entrar dentro do labirinto
É muita vida a não ser o que tu sentes
A planar sobre o que eu sinto


É quase noite, não te escondas mais
Vai desatando até entrar o ar
Dá-me um gesto que me diga o teu fundo
Uma palavra para te tocar

Tu que sabes tanto de mim

Tu que sentes quem eu sou
Dá-me o teu corpo como ponte que me salve
Do que o medo fechou


Tu que sabes tanto do sol
És uma espécie de outra margem de mim
Olha-me dentro como chão que me agarre

Pode ser esta noite quente
A estrada aberta mesmo à nossa frente
E tu e eu a descobrir o ar


Não é preciso correr
Não é urgente chegar
O que é preciso é viver





Ouvi hoje, gostei tanto!
O meu dia pareceu-me um de muitos talvez, atestados de estupidez endereçados a mim mesma.
Os meus defeitos são como uma linha de montagem em larga escala em plena era industrial, serve a inovação com que os renovo e empreendo, serve a vontade de não os calar, por serem meus.
Fiz um teste, olhei em volta e pela primeira vez senti-me como se tivesse acabado de chegar de outro planeta, o meu pensamento divagava longe e as horas passaram, as caras distorceram-se, apeteceu-me rir de qualquer imagem, sair dali, pensar, não querer saber.
Antes, cruzei-me com uma cara chapada de integridade e julgamento, eu olhei, ela virou-a ao contrário. bem hajam almas penadas de tanto valor e saber, perfeitas como nunca hei-de querer ser.
Antes ainda, reagi a marés vazias, tão cheias de carácter, bem hajam mais ainda...
Estou cansada, pela primeira vez desde há muito tempo, tenho marcados em mim passos, saboreio cada um, sem retrocesso, sem abraços, sem palavras, tenho no horizonte o retorno de noites sem dormir, das viagens que me despem e das conversas que tenho comigo, da normalidade que me surpreende e da especialidade que me basta por dentro.
Bem hajam os meus defeitos, que me saem dos poros, que falam, que reagem, que alternam com o contrario dos meus sentidos. Bem haja a humanidade, mais que a perfeição.
Se eu nascer nesta praia, que me banhe a maré viva!
Que me leve a razão e me permita viver, cheia.

20 janeiro 2010

A sala e as luzes continuam demasiadamente brancas, expandidas no reflexo entre si.
No principio, entrava ali desconfiada do meu espaço desregulado, desenquadrado, por convicção de uma diferença herdada, pela diferença de sentimentos dificeis de gerir, um medo qualquer, vontade de encontrar ali uma mão que me refletisse no vazio tremendo, na busca e diferença.
No principio, encarava as faces como paredes pintadas de madeixas e sorrisos estranhos, de conversas soltas e ausentes de incremento e conteúdo. Aquela sala era um palco de conhecimento, mescla de teatro.
Passado um tempo, optava por assistir, distante, ao passar do cortejo, sentada de olhos postos no ocaso que o rio e a leziria me ofereciam, conheci um carreiro de formigas, aprendi a sorrir à senhora do bar, conheci os cantos à casa, refugiada na imagem de outra sala onde esperava poder realmente ser.
Fui selvagem, fui ficando, fui querendo cada vez mais, foi crescendo ali, o tom da normalidade.
Hoje, a meio de uma escada interior, encaro a claridade da sala, gosto das caras que abri por entrarem em mim, gosto da sensação de pertença, e da diferença. Hoje penso em cada dia que passa, que da sala onde me ergui, vejo agora apenas mascaras, tempos de receber e outros de nada e, desta sala demasiadamente branca, pinto a minha vida de palavras, semelhança, os mesmos medos, a mesma coragem, o mesmo sentido que me trouxe aqui.
Da sala necessária, respiro o vazio, o deve e haver por saldar, o egoismo de caminhadas acompanhadas só quando é preciso, as chamadas só quando se precisa, o sentimento oferecido, só quando se aspira poder, vejo a respiração da solidão das capas, tal e qual as minhas. Sinto-me estranha em ambas, mas hoje, acolho-me nas raizes que alastram numa construção conjunta. No despertar acompanhada de presença, das mesmas palavras, dos mesmos sorrisos.
Não sei se sei, sei apenas que entre duas salas, branca e fria e escura e fria por igual, sou anormalmente normal, sou assustadoramente vazia e cheia de vida, sou pequena na multidão enublada, sou a farsa da verdade e o ego da mentira, como em qualquer sala, como a própria vida.


Divagação

Acordava com o acordar do Sol. Ele podia chegar como quisesse, escondido por detrás do nevoeiro, com cheiro de erva molhada, fresco, quente, iluminar-me-ia sempre, menos pelo contexto, mais pela forma que os meus olhos o admirassem.
Com ele, conseguiria ver o levantar dos pássaros que aguardavam no beiral das casas e dos alpendres, veria as primeiras vozes das esposas nas portas, o acordar do dia, e ainda teria tempo para acenar à restea de lua imaginada ,que me teria acompanhado nessa noite serena.
A partida, teria o mesmo gosto que qualquer chegada, o anteceder de um caminho que começa, onde outro termina, beberia a viagem, os contornos que passam, as faces que acenam, as imagens que imagino e junto à passagem, numa tela desenhada de traços sentidos.
A chegada seria um momento pequeno, de face marcada, livre de conceitos, apenas o suficiente para reter no meu peito qualquer vontade guardada, qualquer segredo ou palavra por dizer. Nesse instante, seria um nada diferente, um átomo de vida na magnifica junção dos elementos. Seria uma página em branco e um lápis de carvão.
Aquela varanda de cor azul salgada de maresia, pouco varrida, uma toalha bordada, e um vaso pequeno com uma flor no meio, que eu diria ter sido escolhida por alguém que sussurra com o vento e conhece segredos que um dia hei-de também conhecer. Daquela varanda não se vê senão o mar, imenso, tremendo e inconstante, como o vento que brinca com as talhas do alpendre antigo.
Sento-me e espero o que me falta, só isso de tanto que trago comigo, o meu passado, a minha cara quente, e uma vontade de mundo, que me estremece, que me faz gente nas palavras ditas sem pensar e noutras que calei em tempo, nem sei porquê.
E aguardo, aguardo o tempo de cada chegada, carregada de sentido
Chegada eu, espero deslumbrada...


Se divago, é esta vontade de ser tudo do nada que já não sinto.
É esta força de escrever o meu abrigo de ser, o que trago cá dentro

19 janeiro 2010

Mais uma noite em claro a estudar, os meus olhos já não me vêem.
Apetece-me ir sair, apanhar ar, molhar a cara de agua salgada.
Apetecia-me estar numa varanda de madeira, sobre uma arriba costeira, ter gaivotas vizinhas, neblina e deixar-me adormecer com o nascer do dia.
Apetece-me acordar de seguida, e entrar mar adentro.
Apetece-me ser menina, há letras a mais e pouco vento, aqui onde estou.

"a vida é uma coisa tremenda de acontecer"





É no limiar de dois tempos
Quando a morte se despede e a luz se anuncia
Neste compasso de espera
Nesta hora
Entre a noite e o dia
É quando antes os meus dedos me ilustravam
memórias, arco iris, de neblina colorida
De silencio, mais palavras
A coisa tremenda da vida


É a hora que me acolhe
Soma das horas, dos dias
Das tempestades, calmarias
Das vidas entoadas de notas soltas
sentidas


É neste momento que ouço
Limpido, cristalino
Um som de fundo, baixinho
vislumbre, passo do caminho
A voz da minha hora
Despertar do meu mundo


Soubesse agora, prender este instante
Um segundo da minha hora
Que não me o negue, que não me acorde
Que me queira desperta e demente
Sentida de ser
Que é a vida esta coisa tremenda de acontecer

Ver e não ver

Tenho medo do escuro, ou seja, tenho medo do que não vejo, por muito que olhe.
Desde que me lembro que a diferença entre ter os olhos abertos ou fechados, tem que significar ver nada com umas luzinhas de vez em quando, e ver qualquer coisa. Abrir os olhos e não ver nada, é medonho. Lembro-me que sempre detestei a brincadeira em voga na minha infância que consistia em não ver nada e andar aos encontrões à procura. A "cabra cega"!. Nunca gostei, principalmente porque associado ao medo de não ver, era a certeza de estar a ser olhada e tocada repentinamente de todos os lados.
Nunca percebi a brincadeira.
Fui percebendo, que a minha reacção a não ver, é investir depressa, correr, antes que o que houver me encontre, me veja.
Também percebi, numa esquina qualquer que não escolhi, que o escuro pode ser também não ver, estando de olhos abertos. E a investida pela minha cegueira, foi algumas vezes, cruel demais para o tamanho que tinha. Hoje, limito-me a abrir as janelas e a acordar com a luz do dia, a olhar para a lua nas noites frias e tornei-me amiga do nevoeiro.
Não sei se gostava de ver tudo, sei que não ver nada é demasiado.
Não sei se gosto de julgar que vejo quando a cegueira me abarca
Não sei se sei o que vejo e se olho na direcção certa
Não sei se entendo o que a minha vista me mostra e se apreendo o que o meu olhar me oferece
Por isso, sinto
E doi-me a vista.
(mas isso é porque tenho os olhos vermelhos de olhar demais e não ver nada)
(e porque um senhor de bata branca me disse que estou cansada)

18 janeiro 2010

Palavras

Escrevo para entrever o que seria o mundo
liberto de si mesmo E sem imaginar
pouso no limite entre a luz e a sombra
para me oferecer à nudez de um começo

Há palavras que esperam na sombra contra o muro
para serem a felicidade de uma folha aberta
sem mais sentido que o perpassar da brisa
mas que abrem o mundo e de doçura tremem

Não é preciso polir a madeira das palavras
ou talhá-las como se fossem seixos
Há um lugar para elas no branco 

e não numa alfombra de ouro
e quanto mais frágeis mais frescura exalam
porque elas são a fábula do mundo quando a água o embala



António Ramos Rosa, "As palavras"

Um sitio que gosto de visitar


Porque me faltam palavras agora, que me respirem sem preço 
Porque ha um lugar em cada coisa e por cada coisa o seu tempo
Porque me vestem imagens na opacidade dos dias e das faces
Necessárias.
E na verdade ficam  momentos em que por sentidos, 
Me dispo e sou inteira
Raros.
É nessa altura que tremo, que tenho medo, que suo das mãos, que fervo na cara.
É nessa altura que não sei o que dizer, não sei o que fazer, e tenho este sentir tanto que me atordoa de nua que estou, que atraio cegueira.
Nessa altura, cumprimento-me, reconheço-me e desentendo-me.


E neste momento, encontro nas palavras deste autor
uma espécie de espelho da minha alma.


17 janeiro 2010

Parece que só sei escrever quando estou feliz!!
Voltei a ver o mar, com o meu olhar raiado, 
levei-me comigo e a minha vida, 
levei os amigos que hei de abraçar 
e agradecer a noite mal dormida, 
levei os meus livros, os meus sonhos,
levei uma mala com a ordem da cada coisa, 
e levei fruta, que voltei a ter carinho por mim, 
trouxe areia nos pés, e um arco iris que desenhei só para mim, 
trouxe escala, trouxe o tempo na minha mão, 
guardei as palavras que valem, 
deitei fora o peso do mundo, 
dei saltos na areia e vi as minhas pegadas
são ainda pequenas
obriguei-me a sorrir, que fico mais bonita assim, 
comprei pingos para os meus olhos, 
vesti dois casacos que tenho tido frio, 
descalcei as botas que me apeteceu, 
demorei-me onde quis,
escrevi uma carta com as mãos frias
deixei-a numa pedra listada
fez-me tão bem...
Chorei e ri ao mesmo tempo
Chorei do mundo que não gosto
Ri por tudo e por nada
Conheço-me bem estando assim
comi um bife, salada, 
ofereceram-me rebuçados, já os comi
Mandei passear a vizinha
Farta de ser educada
Estudei Contabilidade
Não me apetecem equivalencias
e muito menos contas saldadas
Tomei um banho e pus sal lá dentro
Falei muito e não disse nada
Tratei-me bem
como já nem me lembrava.


16 janeiro 2010

Lição de voo

Mordi os lábios de vontade de mandar calar a verdade, que não pudesse ser, que não fosse, que eu mais via, e enquanto me debatia, dei pela minha voz cada vez mais embargada, fixei o olhar no nada enquanto ouvia.
Sai de mim, só para me assistir, pela ultima vez, ao meu esbracejar, parei para me ver chorar com a dor que me assiste, chorava a farsa, chorava as palavras vãs, chorei até já não ficar nada. Chorei sem lágrimas que as guardei só para mim, e as que cairam na minha cara, foram mais fortes e eu não consegui esconder.
Havia frio lá fora que entrava em mim em rajadas de palavras, e eu fixava um fogo mal aceso, um quadro qualquer.De mil, lembro-me das que entraram sem perdão, respondia que não, mas a minha alma já me dizia que sim.
Ficou um obrigado,mais nada.

E nesta hora, do fundo do meu peito apelo ao sabor do medo que me atordoe, que me acorde, que me faça estremecer como neve solta, que me dissolva, me eleve, me derreta, mas desperte, depressa.

15 janeiro 2010

Marguerite





A partir de dia 18, até dia 28, hei-de arranjar forma de ir ver.
Gosto tanto dela....

O meu primeiro olhar do ano.



Eu, eu olho o meu presente, com todas as letras de ver, olho o medo, olho o preço do meu credo, olho em frente o arco iris, que muda de cor todos os dias, olho as crianças puras e as faces mentirosas, olho as montanhas ao longe e descrevo as curvas que me levam, olho de olhos vermelhos, de cansaço e tristeza, olho com um olhar consciente, despida de conceitos, a solidão dos meus dias, que me arrogo a negação de faces bonitas que devoram, perder-me nos sonhos que deixo onde me sinto, e a dor que não passa e que nenhum rio leva, que eu sei, sei mais que isso.
Olho o que fiz, o que faço, o que sinto cá dentro, olho o caos da minha ordem, a minha revolta, olho os anos passados de amena ilusão, os dias seguintes que me trespassam de medo e solidão.
Olho a obra capaz, olho a ilusão, a moeda com que troquei medos e uma mão cansada de estar estendida, por ego e razão. Olho o meu perdão a mim mesma, do devaneio que trago, da minha essencia.
Olho os velhos, os tristes, leio poemas felizes, que outros não estou capaz, olho construção numa canção a mais que uma voz, olho uma casa vazia, uma estrada que não finda, olho a pequenês de fazer doer, por nem se saber dizer o que cá dentro nos traz.
Olho em volta, no meu rio de prata, vejo as minhas asas soltas e, nem aprendi a voar. Cá dentro, num segundo, percorro o mundo, só com o olhar.
Doi-me o peito, está a doer como não julguei ser capaz, doi tudo, e eu grito, ao que for, sou mais que uma folha de obra.

Os Deuses devem estar loucos

Mesmo repleta de ingenuidade e irrealidade, não consigo descrever as voltas que me dá o estomago.
No sec XIX, já havia um maluco qualquer que apelava às desordens naturais, para irradicar os mais pobres, fracos e incapacitados da face da terra, eram caros e improdutivos, para além de que usurpavam aos outros, fortes, capazes e filhos de Deuses, os meios que mereciam. Dizia ete traste, que não se devia prestar ajuda aos pobres e desfavorecidos, a natureza encarregar-se-ia de os fazer desaparecer.
Teria esta mente, que ainda por cima sendo padre, todos ouviam, razão?
É que eu, não consigo deixar de pensar, que estou aqui sentada, a perguntar-me se vou comer peixe ou carne, se me fica este vestido melhor que as jardineiras que nunca mais usei, de cigarros no bolso e o IUC para pagar, e não faço nada, zango-me apenas das voltas do meu estomago, com isto tudo.
Não gosto deste mundo, feito de deuses e filhos mais que outros, de medos e risos hipocritas, de conceitos e preceitos de boa educação, e a "Lana" esta a morrer de fome, neste momento.
Amor devia ser mais que dez poemas, amor devia ser largar esta merda toda e fazer qualquer coisa.
Amar devia ser partir de alma certa e ajudar.
Que Deuses loucos estes, que pecam? Que miséria esta de medo de perdermos os enfeites?
Calamo-nos no café, quando passa no ecran, não é história, é a realidade que não ouso conceber, é fome, desnorteio, medo, raiva, é doença de verdade, é a injustiça dos pobres, e só deles que do outro lado do mundo, mal se vêem.
Havia ali alguma coisa para os Deuses equilibrarem?


Voo de um passaro petiz

Que bom seria, se um dia, um dia qualquer, de repente, o mundo todo se calasse, do que se deve e do que se tem, se se fizesse de repente silencio. Que respirassemos de dentro e nos deixassemos só sentir?
Que bom seria, se ouvissemos apenas, o que de tão claro o silencio nos traz?
E se nos despissemos?
Que bom seria se fizessemos história mais que memória e ciencia?
E não seria bom se fossemos o que dentro de nós se cala?
E se amassemos de tal forma que de outra forma não pudesse ser?
E, em seguida, o que seria?
O que tivesse que ser, por não poder ser de outra forma.
Não seria melhor que voar?
Isto diria um passaro petiz, aprendiz!


A barbearia do Luis, tem um radio daqueles que se estica a antena e ainda se ouvem "los 40 principales", tem umas farripas coloridas na porta e cheiro a Avon. Tem os conversadores que faltam no largo, sentados numa fila de cadeiras a falarem do que interessa, a azeitona e a mãe do "António" que estava no mercado a contar o que se passou, pareceu-me que o tal não anda por bons caminhos, seja lá isso o que for.
O Luis conhece-me do tempo em que lhe entravamos de calções pela barbearia, que ainda não era dele para comprar pólvora. Sim, em Borba, o estanqueiro sempre foi o barbeiro.
Reparei no calendário de uma menina com mamas, que o resto não deve interessar da "Comercial do Alentejo - Esperamos por si", e ao lado, mesmo ao lado, como não poderia deixar de ser, uma moldura do Luis, encostado ao bmw com ar feliz. Não é que a barbearia dê dinheiro e a pólvora, já teve melhores dias, mas é uma questão de posição. Um homem trabalha a vida inteira para quê?
Entrei com o meu ar imaginário, sentei-me ao lado de um senhor de capote e boné à banda, e deixei o que trazia à porta, lagriminhas e mais umas imagens que a viagem me oferecera. Num instante, falava alentejano e explicava pela milesima vez, que não tenho medo e que este negócio não é só de homens.
Ouvi uma voz no canto, um senhor meio careca que estaria ali por engano,
" Olhe, se fosse minha mulher, não havia de a querer a fazer viagens dessas"
"Então, senhor, estamos bem, que não sou e não tenho marido, sequer"
"Isso é que é uma pena!"
"Deve ser, senhor, se o diz..."
"Oh Luis, não foi a mulher do Casimiro que ia indo pelos ares com um saco de polvora que ele tinha?"
"Qual Casimiro, foi a filha do Manel da ...."
"Vossemecê, não é de cá..."
Não sou de cá, mas é aqui que eu me volto. Enquanto esperava pelo pincelinho no pescoço do cliente, vieram-me à cabeça memórias que me fizeram sorrir.
Lembrei-me das vezes  na pedreira em que  o meu pai, nos avisava para nos escondermos bem longe, que "iam fazer fogo". A minha irmã e eu, corriamos sempre, com o coração aos saltos, escondiamo-nos atrás de um aterro de pedra, esperavamos, esperavamos, não podia nunca ser, tinhamos que ver, e ainda mais escondidas, iamos andando de mão dada, espreitando, aquela explosão de pedras que vinha debaixo do chão, era um acontecimento importante... Mais importante ainda eram as noites de verão, em claro, com os cortes de maçarico, as conversas, o cheiro do gasoleo e do chouriço e, as conversas.
Lembrei-me do Vitor Troncho e do sr. Zé que assim que passou a encarregado, foi a Badajoz comprar uns Ray Ban, só porque sim, tal como o Luis.
Se as memórias me varriam hoje lágrimas de presente, se ausente, prefiro-me aqui, no meio da gente que me viu crescer.
Cá fora, na esplanada do Beco, falamos da vida, da policia, da burrice, como se pólvora  rebentasse comboios, da histeria social em que faltam perguntas e sobejam respostas prontas de quem nunca ainda pôs ali os pés. E o Luis remata "Olhe, haviam era de perguntar aos militares de onde vêm cargas primárias para a ETA", pois é, Luis, mas isso não se pergunta, que não dá jeito, não é?
Segui, não me apetecia voltar, peguei na minha máquina nova, e entretive-me no que restava da luz do dia, a guardar imagens bonitas que já tenho dentro de mim. Parei aqui e ali, não fotografei mosteiros nem torres de igrejas, guardei pedras soltas, guardei esta imagem, entre Borba e Vila Viçosa, tal e qual, as formas com que cresci.

14 janeiro 2010

Vinha para casa, acarinhada por "gente normal", menos imagem, menos racional, vinha devagar demais, só para contrariar a minha mente que todo o dia não parou de correr à minha volta. Num cruzamento qualquer , virei ao contrario e desci aquela estrada serpenteada que antes cheirava a jasmim, cantava B. Fassi e chorava ao tempo que não passa e que peço que não fique, desci mais depressa, cheia de uma vontade que é mais minha que o nada que se vê. Passei a ponte de ferro, com o Alentejo no Norte e a esquerda onde deve estar sempre, desci ainda mais e parei, abri a porta, sai, voltei atrás para rodar o botão no máximo e andei na escuridão até ver o rio começar nos meus pés, aguado e apressado como eu.  Levantei a cara e deixei-me inundar de agua que cai com toda a razão, deixei as rajadas de vento entrarem em mim, e esperei que me levantassem do chão, estou demasiado presa à terra, pensei, por isso esta agua na cara e nos pés acalma-me. Não quis pensar em mais nada a não ser estar ali e lembrei-me de uma lição que aprendi. Quando estivesse assim, que fizesse a segunda coisa que me viesse à cabeça.
Sentei-me num resto de areia molhada, iluminada pela vontade, naquela tela de uma ponte sem cores, sombreada de escuridão e água, tirei do bolso a ligação à terra e, do outro lado, a voz ainda mais normal . " Estou aqui".  Desliguei, grata por saber que, no fim da corrente, o meu mundo tem ordem, na normalidade dita estranha e desenquadrada.
Deixei as mãos pousar, fechei os olhos e ouvi a minha história ser levada na corrente que acredito ser assim forte, fiquei ali, hipnotizada de mim, sem norte mas certa, esperei que fosse, levantei-me dei dois passos que outrora daria de mãos dadas e lancei o que restava guardado e meio. não vi onde caiu, não sei, não tive medo, só me lembrei de sapos e da história de um principe qualquer... Molhada e mais calma, voltei pela mesma estrada mas só até poder escolher e ainda ver do alto, luzes ao longe e quase que desenhei no horizonte apagado, uma estrela só para mim, chamada Camila, como a menina da história mais bonita que conheci, que ninguém conhecia e só andava quando já ninguém a via e dizia " Vou partir, daqui, para mim!"

13 janeiro 2010

Quisera

Quisera oferecer-me um verbo, uma palavra só, 
que me ensinasse a terrível e magna história 
com que os elementos se encerram, 
e a morte, que me queima a boca 
que semeio e rego de lágrimas 
que não param.


Quisera agora o sabor do medo, 
que corre serpenteado nas serras,
que se apraz do fim do mundo.
Quisera gritar alto um momento
de  saber, e assim,nada ser,
nada sentir de tão forte
que me estremece e torna apenas
voz insana de sentimento.


Quisera escrever tanto até gastar a dor, 
matar-me cá dentro, renascer.
Quisera não dizer 
que amar foi a unica coisa que fiz sem saber
a lágrima mais profunda que de mim saiu
o principio e o fim do meu credo
margem que me via
nas visitas de nevoeiro
que  foi assim, tão mais que isso
Sorriso que não escondi de ninguém
só porque ele me havia sem aviso


Calar esta alma onde moro e não estou
Que nada nem ninguém vislumbrou
Quisera agora ter um colo onde me embalar
Deixar-me sossegada
Quisera entao ser mulher
cigana, desbocada, usurpadora de alma
Quisera não ser
nada, nada.

12 janeiro 2010

Farsa, farsa, farsa!
Foi como pancada, como nunca pensei que fosse
Foi um rasgo de som que me atacou, primeiro de dentro, de assalto
Senti a minha cara gelar, naquela sala escura e mentirosa
Naquelas faces ruidosas
Que vergonha de me ter deixado ali
De me ter esquecido que ali se vestem capas,
se trajam imagens
Que nada sou afinal, nada valho e nada ocupo
Nada!
Estou rasgada, espezinhada, amassada por dentro
Estou esvaziada de tudo o que não é nada.
Como num rugir rouco
me reduzi a nada?
Como é que fui capaz de chegar aqui?

Meu Deus que farsa!
Que egoismo, que frieza
Estou tão magoada, tão perdida, tão farta
Vi o céu ruir, o meu
Vi a terra fugir-me dos pés, a minha
Como é que eu não vi?
Como?


Sabes que mais?
Sou uma menina, demasiadamente bem comportada, educada e preocupada em não fazer mais mal que bem. Meu bem, meu mal!
Quem gosta, não passa de lado sem querer saber, quem bem quer, não consegue assim ser, quem desdenha, não quer comprar, quer afastar ou voltar de onde veio, quem não acompanha, não tem lugar, quem não luta, não quer, quem assiste, nem vê.
E sabes que mais, insistência é, no meu caso pura desilusão, é fantasmagórica a imagem de menina que corre atrás de quem ama, e esta, tem amor próprio, tem valor e não é uma qualquer.
Tenho menos aas que o meu nome, esta madrugada, no meio de chuva na estrada, sem ver nada, vejo-me cada vez mais a mim, vejo o caminho que não preciso de percorrer de mãos dadas, por muito que sofra, chega, chega mesmo.
Amizade, carinho, querer, amar, seja o que fôr, é dar, é estar, é dar a mão sem empurrar, não é analise nem equação, é tão somente não saber fazer ou ser de outra forma.
Não dei volta ao meu mundo para voltar ao mesmo lugar, não estou neste barco à procura de rumo com olhar num mapa que já conheço de cor.
Para mim hoje, solidão é estar acompanhada e carente de fachada camuflada da mesma estrada, quando o que mais quis foi uma que não conheço e sempre avistei ao longe. Que seja, então, sofrer, acordar e andar!
Já me chamaram egoista, vou aproveitar!
Adam Smith, Malthus, Ricardo, Say, Marx, Keynes... Só me apetece pensar por que raio não foi esta gente comer morangos debaixo de um sobreiro, em vez de andarem com teorias? Não... que eu até gosto deles, dão trabalho, parecem-me todos malucos, pensadores, mas... São quase 4:00 da manhã e daqui a uma hora estou na estrada ao encontro de um senhor que não conheço; há-de ser outro com qualquer ideia para me contar.
E depois, lá mais para a noite, só espero que a sala branca não esteja fria ao ponto de não me deixar a mim, pensar!
E agora penso, há tanto tempo que não me sentia tão acompanhada, de gente que  não vejo, mas que me entram, numa noite em que desde que me sentei ainda não disse nada e tou farta de conversar.

Veio-me suspeita, deixei passar, veio silencio, teve vozes mais altas, veio madrugada cada vez mais clara, cansaço que me desperta e se não, basta esta vontade que me alenta, o meu amigo ao meu lado, os meus sentidos e sabes, saber-me aqui.

11 janeiro 2010

14.8

Um dia, de olhos brilhantes, abeirei-me de uma pauta sobrepovoada de outros olhos, lancei-me de  bruços para o meu horizonte, vi o meu nome, não vi mais nenhum, vi a palavra, sorri por dentro, por fora, cresci, saltei, pulei... O meu sonho estava ali, ao alcance das minhas mãos, sem férias, sem sono, conseguira, estava a meio passo de alcançar.
Ontem sorri, descrente e nunca desistente, isso não, mas cá dentro, um ponto de interrogação, de exclamação, de incerteza, reticencias face à promessa que me fiz.
Hoje, estou tão contente, como naquele dia, sinto-me una, sinto-me gente, sinto-me eu, estou cá, ainda me vejo, os meus olhos estão brilhantes e não preciso de espelhos, não preciso de muletas, de assentimento, sou diferente afinal da imagem que me ofereci, sou capaz, não decresci.
Há tanto mais de mim cá dentro!
Sabes o que me apetece?
Mais, apetece-me mais!
Apetece o que me devo, amigos de verdade, lugares de morada, apetece-me escadas e conhecimento,
apetece-me entrar mar adentro e este sorriso de menina para sempre!

10 janeiro 2010

Parabéns meu pai!



Tinhas sempre este sorriso matreiro quando chegavas a casa
Eu acho que sempre soubeste que eu ficava acordada só à espera que chegasses
Sabia que tinhas histórias para me contar
Que me ias deixar ouvir-te, como se o que dissesse em seguida, fosse mesmo importante.

Tinhas sempre este sorriso, quando nos levavas para o teu mundo
feito de querer e vontade, de lugares, de viagens, de sonhos e palavras perfeitas
Houve tempos que era ofensa dizerem que eramos iguais
"És igualzinha ao teu pai"
Tens mau feitio, és torcido, tens sempre qualquer coisa a dizer
És dificil, nunca ninguém entrou em ti
porque és mar hoje e amanhã um pássaro no céu
Mas sabes, meu pai?

Quem me dera ser mais ainda
Quem me dera agora poder já estar longe
sem lugar por fora
e um mundo por dentro
como tu
Vejo-te em mim
Vejo-me em ti
Sei-te comigo
Sempre

É tão grande a tua herança, tão grande
Nem casas, nem os pedaços que foste deixando
São mais as migalhas do teu pão que sigo
É este sonho de querer mais forte que um qualquer abrigo
É o teu tamanho
As palavras sabias
É o abraço sem gestos, eterno, sentido
É o momento certo em que estás presente
E os outros em que simplesmente assistes
Ao meu próximo despertar, ferido, crescido ou pequeno
É este sorriso que não vi hoje
Mas que sei que do outro lado do mar
te ilumina agora

Que estejas pai, hoje
Feliz, cheio de ti
Louco, insano
Sabedor e maior ainda
Que estejas assim pai
Que eu sigo agora
Tal pai, tal filha
Parabéns meu pai querido!
Sabes, quando de repente, por qualquer motivo, porque alguém te disse duas palavras que soaram como badaladas de meia noite, tudo em ti estremece num alucinado e quase insuportavel momento de lucidez?
Sabes quando uma voz cá de dentro, que mais ninguém ouve senão tu, te diz, "É agora, S.., é agora", quando as tuas mãos se movem sozinhas e a tua vida passa por ti numa rajada alucinante?
E uma força tremenda se apodera da tua voz e das palavras engasgadas na garganta?
Sabes quando dias e noites já não interessam e a nossa verdade é somente o que nos ergue, o que está cá dentro? Se chove lá fora e eu fervo por dentro de cabeça erguida, onde quer que este caminho me leve?
Sabes quando a farsa se apresenta de olhos brilhantes, enganosos e o teu estômago dá voltas? Quando por tudo ou por nada, te lembras do teu ontem que fez o dia seguinte e outro, e mais outro, numa espiral descrente... De quê? De mim, sabes? De mim!
Sabes quando os mares se cruzam em marés que te já levaram sem teres visto ainda, quando o pecado é este embargo apertado de não ser?
E depois, depois, depois há o mais que me volta em vagas crescentes de paz, que o meu patrimonio é este marejar de olhos na verdade de ser capaz.
Estou maravilhada e assustada com o que esta tarde fugaz me oferece, noites de construção,  devolução de credo e medo que agora me inspira e alerta.
Sabes que neste momento, o caos se ordena, cá dentro, por qualquer motivo ou porque simplesmente, me vi!
Bendita loucura minha, bendita maré. Inundada de uma claridade tão mais verdade que a própria razão!

08 janeiro 2010

???

Linha SOS Estudante

Linha telefónica de apoio emocional e prevenção ao suicídio, disponível todos os dias (excepto férias escolares) das 20h00 às 01h00, através dos números 808 200 204 / 969554545.


Sem comentários...

Frio

Não sei se faz mais frio do lado de fora do meu corpo ou cá dentro.




Ontem, naquele momento que o dia se despede e a noite ainda não veio, os contornos envolviam-se de cores nitidas.

O tema actual

Na inexistência duvidosa de temas mais interessantes, debruçam-se as mentes sobre debates dos representantes da voz democrática, acerca de casamentos homosexuais.
Particularmente, apraz-me duvidar dos preceitos, premissas e intenções, mas enfim.... 
Diz-me a História, acerca das normas e valores  sociais vinculativos e sancionatórios, sendo a sua necessidade característica de povos insensatos, revela-se fomentadora de desvios. As regras foram criadas pelos homens, que de seguida as quebram, potenciando reacção, novas discussões e mais regras.
Na verdade, sobre a essencia do Homem, lembro a frase célebre de Pascal ""O último esforço da razão é reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam." .
Debatemos  a convenção e aceitação social em norma do que já existe e é corrente, como se pedissemos autorização à nossa mente para racionalizar a essência.
Que nos entretenhamos então...
Claro, que fica para mais tarde, um acréscimo de razão no que toca ao nosso apaziguamento mental e cómodo, acerca dos milhares de crianças despejadas aqui e ali, que enquanto crescem sem afecto e sentido, são acolhidas pela nossa razão.
Fica-nos bem. Eu é que não entendo


Dia de Reis - bem hajam os Dromedários



Dia de Reis, entenda-se Reis Magos, que a História eleva a três reais viajantes de camelo que cruzaram o deserto, de coroas e riqueza nas mãos, em direcção ao Menino "nas palhinhas deitado", rodeado de uma vaca, um burro, o pai adoptivo e Maria.
Na história há uma estrela, designada por uns, Polar, e outros, um cometa com rumo. Desta parte, sempre gostei por imaginar uma noite no deserto iluminada por um clarão multicolor, pela sensação de calor e viagem.
Quanto ao incenso, ouro e mirra, não me parece propositado, Jesus tinha frio e fome e os seus pais fugiam das mãos crueis dos "tiranos", assim, daria mais jeito, uma manta, uma sopa e um camelo adicional.
Por isso e mais qualquer coisa, que é esta vontade de querer entender, esta história nunca me entrou, mas gostava de a ouvir na boca da minha avó Maria, noutras noites quentes em Mertola, que acrescentava falas ao burro e à vaca e ainda tornava os Reis numas aves raras. Eu ria.
Mas hoje queria falar de outro Baltazar que me encheu o dia. Não foram poucas as vezes que desejei vê-lo longe, num deserto ou noutro sitio qualquer, na junção de camelo e dromedário. Tenho um professor que se chama Baltazar, pequenino, tão pequenino que já mal o vejo.
Ontem tive uma frequência com ele, numa sala com temperaturas polares, branca como sempre. E aquele homenzinho...
Eu que julgava saber daquilo, a meio do teste, a minha mente vagueava por um deserto de areia, com mar do lado nascente, olhava em volta e era geral. No ecrã à minha frente, via cores e o meu raciocinio congelado, levava-me dali, na constancia dos ultimos tempos. Não estou verdadeiramente onde estou.
Se verá...
Gostava eu tanto do Professor Baltazar!
Mas, Baltazar fica desde já associado a fuinha informático e pequenino.
Erro meu, decerto, defeito de fabrico, mas o meu estômago anda às voltas com o elenco de luxo do corpo docente da minha escola, que prima pelo melhor e pelo oriundo, nem sei de onde. Não consigo respeitar, na condição de prestador de conhecimento, um senhor que alegremente, e igualmente pequeno, mestre por convicção, solta da mesma boca em que masca uma pastilha um firme "quaisqueres" e ainda "Há-dem".
Não sei, não sei mesmo.