30 setembro 2009

Sou estranha

Mais um dia na serra, tenho os meus ouvidos cheios de cera do barulho das máquinas misturado com o da minha mente que não descansa de me buzinar.
Hoje pensei que, na verdade, foram poucas as vezes em que na minha vida, tomei uma decisão. Olhando para trás, tudo me parece fruto de processos longos, de discussões e altercações, nunca fui muito dada a impetos.
Sou estranha.
Se acordar com vontade de estar num sitio, seja onde for, e habituada a saber que irei sozinha, no momento seguinte, estou a caminho. Se preciso de ver um olhar, não me anuncio, já lá estou.
Sou corajosa ao ponto de me embrenhar na noite mais escura, sempre fui. Se, a meio da noite, o luar me chamar, salto do carro e aspiro cada pedaço de fresco que encontre, danço comigo, canto as musicas que gosto e pouco importa onde e a que horas estou.
Ja me vi de arma apontada, ja passei noites sozinha na estrada, ja amanheci no lado oposto, já enfrentei a dureza da desconfiança dos homens com quem trabalho, já fui gozada e aprendi a responder.
Mas, tenho medo de estar sozinha, mesmo estando e gosto...Só que me esqueço.
Tenho medo de mudar tudo porque o que levo comigo parece-me pouco, e o que levo, sou eu.
Tenho medo de ser magoada e, afinal magoo-me se não me enfrentar.
Sou estranha.
De pequena, era a primeira a alinhar nas loucuras, fossem elas quais fossem , Acabei por embargar a minha vida à procura na miséria mais podre, a verdadeira razão para não ser, herdei tentaculos que crescem dos meus braços, e lutas que travo para me encontrar, abrir os meus braços e acreditar quando já acredito.
Tão longa a distancia entre o que penso e o que sinto.
Sou tão estranha.
Não suporto magoar ninguém, tenho um campo infinito onde albergo cada pessoa que entrou na minha vida, não esqueço, não despeço, não consigo, não sei porquê.
Na verdade, contam-se pelos dedos as pessoas de quem gostei genuinamente, a quem fui capaz de abrir comportas e defesas, e odeio lembrar-me de quem dormiu ao meu lado tanto tempo sem ser capaz de me ver.
Decidir, parece diferente. Parece que na hierarquia, esqueço-me que estou em primeiro, que me acompanho para o resto da minha vida. E não foi isso que sempre aconteceu?
Hoje percebi que sou descartavel. Percebi que é possivel pegar numa borracha e apagar a existência. Chorei e lembrei-me que eu guardo os papelinhos todos da minha infância. Que, quando estou sozinha, tenho mil sentimentos por cada história que vivi, plena, foram tão poucas, no meio de tantas que, aparentemente grandes, de mim tinham quase nada.
Tão distante a diferença entre sentir e pensar...

Sem amor, não se é nada, pensando ser-se

"Não se faz nada sem amor, sem amor, as pessoas andam perdidas".
Entre um soluço contido e um abraço, ontem vi um sol branco por-se, ainda na serra. Ontem deixei-me lá ficar, entre amigos de verdade, as pessoas que genuinamente me acolhem, sem truques, nem julgamentos.
Ia cheia de papeis para assinar e coisas para dizer. Trouxe poucos e pouco disse, mas quando desci a serra, já noite cerrada, vinha emocionada e embalada em mim e no som do saxofone que se anunciava ali perto.
Há muito tempo que sei tão mais que isto que ando vendo e auscultando, num espaço que não me pertence nem sinto. Sou uma pessoa diferente, eu sei que sim, trago comigo todos os dias um sorriso na  boca e nas minhas mãos um perigo que me sossega, enfrento distancias que não me cansam, estradas vazias e altivas, nas quais me cruzo, por acaso, com os casos de minha vida. Ninguém nunca esperou no meu albergue, apenas no meu destino. Ao longo dos anos, ganhei respeito por mim mesma, aprendi a perceber o que rege gente grande, que admiro, tão distante de outras de que julgo fazer parte, nem fazendo.
Vi nos olhos do sr. António, a compreensão humana, em vez de hipocrisias disfarçadas, sem vivências que fundamentem nada, vi a minha voz embargada e uma vontade de me mostrar, o que tem sido, a quem sente antes de pensar. Dei um abraço à Anabela, que sabe de mim.
Olhei para os meus pés, brancos, a minha saia empoeirada, aquele fim de dia de tons claros, o barulho  do desligar das  maquinas, a serra preparava-se para me ensinar que a minha verdadeira essência está em cada momento em que me digo bem alto que sou como sou.
Meu bom amigo, o sorriso bonito, o mesmo boné de banda, umas mãos feridas, grandes.
"Oh mulher, tu havias de me ter contado isso antes, tu não vês?"
Eu via, mas estava cega de ver, eu sabia mas perdi-me de acreditar no que sou, eu julguei-me em verdades distantes que são migalhas do que tenho cá dentro, eu verguei-me ao julgamento de quem se calou, sem nunca ter sido capaz de me ver. Nunca, nunca seria mais do mesmo, porque o mesmo não é nada, o mesmo é o primeiro ponto da reticencia que nunca teve direito a existir, o mesmo é obra embargada pelo medo de seguir uma estrada que não se conhece mas que é preciso, o mesmo é ausentar-se da vida.
"Sem amor, as pessoas andam perdidas".
Tapei a minha boca com o carinho das palavras sábias que ouvi, por detrás do contorno da serra já cinzenta, das luzes minúsculas dos vales efémeros, onde habita o conhecimento ressequido, embargado de sentimentos. Mais do mesmo é ler páginas e páginas passadas, iguais, iguais, iguais, por mim e por mais. "Onde é que estava a diferença?"
Multiplicam-se, proliferam seres verdes, quase espaciais, frios, gelados, ausentes e incapazes de se sentarem numa pedra poeirenta e limitarem-se a assumir o erro de simplesmente ser. Eu amei, amei de verdade, amei a vida, amo a minha pequenês, cada erro que cometi, estendi os meus braços traçados e pedi, por antes de mais nada sentir.
Não suporto ver o que vejo, não tenho estomago para ver a minha vida virada de "pantanas" e ainda me sentir culpada. E a mim? Alguém viu? Alguém lutou por mim?
Estive sempre sozinha, julgando-me acompanhada, percorri estradas nocturnas, consciente da minha distancia em troca da escolha de mim. Hoje, olho em volta e sinto quem realmente me ama, quem me acompanha.
Já não tenho vergonha, sou assim, sou meia maluca, desregulada, não sei onde pertenço, nem sei o que fazer, mas estou aqui, não me escondi, estou aqui, escrevo por mim, grito o que sinto, hoje sim, amanhã não, e se alguem me perguntar, é só porque ao contrário de quem se limita a saber, eu admito o meu medo e desconfiança, eu assumo ainda uma esperança que guardo cá dentro, não digo palavras bonitas e certeiras, vomito os rasgos soltos de uma alma vivente.
Estou tão cansada de me entender, estou exausta de querer enquadrar o que já é, mesmo assim, eu hoje tive um momento, com uma mão amiga no meu ombro, que nunca me sentiu, mas que me conhece tão bem, que sabe o esforço que me assiste em chegar ali e não me queixar nem do pó nem dos olhares descrentes, de não ter horas de voltar, porque pertenço mais ali do que a outro sitio qualquer.
Faço centenas de kms todos os dias. Entro na minha cidade e respiro-me, subo a serra ou piso as searas secas de Setembro e encontro-me e ainda agora, ando aqui, armada em parva à procura de um entendimento  que não existe, nunca existiu.
"Sem amor, não há nada!"
Seria incapaz de não acreditar, seria incapaz de ser fria e calculista, não sou assim, seria incapaz de ver sofrer e não fazer nada, tenho o meu coração dormente e cheio de vida, sou bonita por dentro, não estou adormecida, nem me refugio na banalidade.
Já noite fechada, parei no meu sitio, pingado de luzinhas nos vales mortiços, a neblina crescente em baixo, joguei fora o meu lixo, varri-me do que não preciso.
Obrigada meu bom amigo Arlindo, obrigada!

28 setembro 2009

Ajuda

Antes de retornar, já de noite, quente e molhada, parei aqui.
Sai do carro e, no mesmo instante, começou a chover.
Andei, saboreei os passos calmos e pensei em tantos sitios onde me quero levar.
Refresquei-me com agua fresca que a noite me ofereceu
E retornei a casa, longe.



Pedi a quem há, que me acalme, que nos momentos que passam sem me querer, tambem eu me retorne, de mente refeita e ordenada.

Gostei tanto de falar contigo e de sentir que não vim de Marte!

Abraço

Acordei a pensar em ti, sem querer, a minha mente não para de inundar de imagens de ti.
Sei que as palavras não valem nada, sei que se desentendem, mas mesmo em silencio, há um mar de sentidos que são mais fortes que eu. Queria dar-te um abraço, que ainda tenho, um abraço levado por um vento sereno, ainda quente e que te aconchegasse lá no mais fundo de ti, nesse sitio escondido que tu não mostras e eu não esqueço.

Queria ter uma expressão qualquer que não existe, uma nova, que valesse o significado de um gesto que preciso, que guardo cá dentro, mais sábia que palavras ou silêncios, mais forte que um abraço ou uma bofetada, mais sentida que um sim ou um não.
Queria ter um espelho enorme daqueles que aumentam e reduzem em cada face. Que fosse capaz de enaltecer o que só tu não consegues ver em ti e reduzir a intransponibilidade da razão. Que, sempre que te olhasses, visses tão mais para além da tua imagem.

Pensei na insuportavel grandiosidade do ser, reduzida a degraus que se alcançam somente na vã tentativa de reflectirmos o resplandecer de uma alma que não sossega, não aqui, não ali, em todos e em lado nenhum.
Queria que jogasses uma das pedras, a mais pequena, a um lago azul, visses os circulos crescentes formarem-se e assumirem serem capazes de movimentar as aguas paradas e reticentes. Queria cegar os teus olhos descrentes e dizer-te que és tão grande.
Queria dizer mais, mas não tenho como, não tenho mestria nem expressão, tenho a minha mão que percorre sozinha o meu pensamento, tenho uma alma que te abraça até à vida.


27 setembro 2009

XX






Que importa àquele a quem já nada importa?
Que um perca e o outro vença?





Ricardo Reis, Poesia
Imagem: Joao Abel Manta

X

Fiz uma cruz com os dedos, desloquei-me longe para o fazer.
É uma cruz que faço sentida, que a leve o vento.
Votar é intenção. Abster-se é uma vontade explicita, é a negação da acção, em forma de decisão. A participação activa tem a vantagem de contar, a expressão ausente, é vontade passiva mas também significa uma voz  de não participação, no elenco.
Eu votei. Participei. Não aplaudo porque só me apetece não aderir.
Noutros lugares, a abstenção tem reflexo legislativo, expressa e dissolve as opções, obriga à criação de alternativas; além mar, não é opção, é obrigatório votar.
Aqui nem uma nem outra.
Ou concorda com alguma coisa, ou com coisa nenhuma, ou simplesmente não existe.
Não sei, mas falta qualquer coisa, falta o efeito reactivo de uma intenção de simplesmente não participar.
E a seguir, há a passividade, a falta de opinião, ou então o "tenho mais que fazer"., que também existe.

Amar

Amar é uma palavra cheia, amar sentido, o percorrer de um raio nas veias, estremecer quando se sente, a cara ardente sem razão, febre de um sentir que não se negoceia.
Ontem falamos de amar, sorrimos ao pensar que ainda nos lembramos da ilusão de quem não sente, que passa na vida experiente, mas ausente.
Eu sinto-me tonta. Apaixono-me e dou o que tenho e não tenho. Faço milhas na estrada que me retribui sentindo tanto que não sei, e agora, desprovida desse marejar de sangue ardente, aspiro ser uma alma adormecida, porque digo que odeio e amo.
Amar é ausencia, é saudade que não nos despede do sentido, amar é mais que eu.
Amar é uma luz verde que nos impede de andar descalços e nos solta no embaraço do silencio.
Amar é este perder que se enche em fantasias descrentes, em curvas de ironias aparentes que dançam na minha mente, que me armam de lanças e punhais face às rajadas ardentes de sentido.
Ontem, aspiramos ser gente que mal sente, que se atravessa altiva, banal, recolhendo migalhas de outra gente e dizendo alto que assim não se sofre. Mas não ama.
Amar é ter uma bola vermelha no nariz e a cara pintada de branco e um vestido colorido que faz rir outros e chorar por dentro.
Amar é correr, correr muito só para encontrar um olhar que preciso para respirar em seguida.
Amar é não ter e não deixar de ter cá dentro.
Amar é precisar de um instante demorado para me entregar de frente, sem mostrar nem agradar, gemer de gestos que nos arrepiam, mergulhar num mar de sentidos, mesmo sem corpo nem tempo.
Amar é a minha voz de verdade, calada, que eu não vejo e me enebria.
Amar é desconcerto, é sofrer cá de dentro.
Amar é ainda mais que isso, é uma tela por pintar, é uma palavra que se sente, não se explica, é uma musica de fundo, é um despertar.
Amar é um turbilhão de calma, é uma avalanche amena, é uma lagrima que é preciso, que não arrefece a cara. Amar é do tamanho do tudo e do nada.
Amar é cheio de mim, sem mais nada.
De resto, entretenho-me a ler palavras que sigo. Estou cansada de discursos politicos, antevejo o que se segue e nem me apetece falar nisso. Daqui a uns meses, os discursos inflamados que hoje me soam a silêncios hipocritas. Havemos de pagar por isto.
E do nosso cantinho de mar salgado? Alguém fala?

"só sei que tudo sei", parece-me a expressão actualizada que, em nada se assemelha ao nome que estudei e admirei e que, hoje só me soa à de um menino mimado a brincar à apanhada e à carolada com os outros, para provar que é o engatatão e o sabichão lá da rua.
Quem me dera mudar de bairro.



Como não encontrei um martelo,
o de bater bifes também serviu.
Pendurei à minha frente. É tão bonito.
Obrigada minha amiga.

Vou... Ao encontro de mim.

Adormeci embalada por um comentário bonito,


Vou, ao encontro de mim, regressando-me. Tenho nas minhas mãos abertas a vontade de ser vida, sinto-a vir aos poucos, reticente, sei que desacreditei ao ponto de não a deixar mostrar-me o alcance do meu sonho.


Ri, lembrei-me de um mar de estrelas do norte longínquas, significativas, cada uma, luzente, uma imagem distante. Rimos juntas, percorrendo uma estrada que me desencantou e hoje me acompanha. Contamos uma à outra uma história tão parecida que nos permitia responder na primeira pessoa. 
A tua sobriedade é alegria para mim, os gestos a que nos agarramos para negarmos o descrédito que grita em laivos cruéis, em feridas esgravatadas e lambidas salgadas. 
Quem quer desacreditar da vida?
Houve um momento em que vos vi, o meu passado e o meu presente, uma caminhada que me consome e alerta e pensei que, mesmo ali, falta-me a parte que se ausentou sem que eu entenda. Do que fica, amasso e estendo, aqueço numa forma pequena. Sairá o pão meu de cada dia. 
Vou, ao meu encontro.

26 setembro 2009

MU



A musica inundou-me de vida, devolveu-me de corpo e alma, sorrisos, a noite quente, subi a rua de madrugada, refletida no alumiar de cada face.
Antes das palavras, há sorrisos, pernas cruzadas e contos vividos, ao contrário. Ouvi na primeira pessoa o que o silencio não me deixou perceber antes, senti os meus olhos molhados de me poder devolver. 




Cheguei antes de mim, em palavras que me conhecem, visão transparente.
Um entoar cá dentro, os meus gestos soltos, movimentos que me envolvem sem acção, sons  que estremecem os meus sentidos, senti-me um momento, abraçada, num abraço só meu.



Esta noite sussurrou-me ao ouvido que os meus passos soltos, já chegaram, é aqui que me sinto, entre o despertar e o luar, há um momento que nem eu entendo, luz de madrugada, musica que me inunda, a minha hora é cada segundo que me transporta. O medo ficou na estrada, antes de acenar, de sandálias na mão ainda me sentei cá em cima, só mais um instante, respirei, sozinha, para me sentir.


A distancia até aqui, caminhada em paz, sem medo de ter medo, com coragem por não a ter, entendida do que desentendi e sozinha e tão acompanhada, tão transbordante deste ser que se acorda.

25 setembro 2009

Raios me partam se eu não ultrapasso isto...

Memória





Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. 
Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza (...). Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. 
Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas....

- O que é a saudade? - perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão
embora.

Menina do Mar
Sophia de Mello Breyner

Comporta


In Olhares, um dos meus sitios de visita




Hoje, escolhi para mim, uma foz anunciada, pés molhados, histórias antigas contadas pela minha avó. Arrozais.
Ao lado, os cumes que conquistava de pés descalços, para lá dos frutos submersos. 
À distancia de um olhar, o mar imenso, em tempos quase descoberto.
Fronteira desaguada, imagem enternecida.

Prendinha

Uma prenda pequena, tão cheia de valor!!!
Um sorriso e um gesto sentidos!
Obrigada Florinha!

Acredito não acreditando

Sinto a distancia, sinto ao longe, atinjo, em átomos mágicos o alcance dos meus sentidos.

Alternância inquietante entre ilusão e  o que, por muito que tente, não consigo. Esquecer .
Elaboro-me em raciocínios lógicos e coerentes, justifico reforçando os motivos. 
Se me esforçar o bastante, consigo odiar e afastar do meu pensamento. 
Dois segundos.
Não consigo.
Queria tanto interiorizar.
Enterrar-me na lama de uma fraqueza em que acredito
Não acredito nada.


Entre uma seara de Verão e o inicio de Outono
Caminhei, cambaleei, chorei e morri.
Matei-me por dentro.
Cada vez mais, vivo de mim, renasço das cinzas.
Dormente.
Cega-me este sol ardente que me espicaça com verdades.
Sei tão mais que isso...
Sei de uma tristeza contida.
Sei de um embaraço coerente, que por dentro se desmorona, sozinho.
Sei de uma espiral viciada.
Sei de uma despedida que se sente.
Sei de um medo atroz que se fantasia de conhecimento 
sem fundamento.


E eu.
Sou uma louca varrida.
Esbofeteio-me e zango-me
Dou razão à vida.
Odeio. Odeio.
E, especial? 
Sou só a Sandra?
Entre o silencio sentido e as palavras caladas,
vivi, vivi tanta coisa
Enfrentei medos que pareciam castelos inconquistaveis
Reinventei-me 
Descobri em mim o que nunca tinha visto
Sou a Sandra!


Hoje vou cegar-me, calar-me e deixar-me levar, vou sair com pessoas novas, na cidade onde me sinto bem, vou ouvir musica que gosto e lembrar-me que, em algum lado, me aconteço.
Vou jantar com uma amiga desperta, que já não se ilude mais, que se prende soltando a vida. Vou ao mais alto que puder, olhar a noite de Lisboa, que seja quente, tão quente que me arrefeça. 




24 setembro 2009

Ελλάδα



Um dia, tal e qual me apetecia tanto agora... 
Hoje é o primeiro dia, amiga. É só este.
O teu sorriso e pronuncia fazem-me tão bem. Hoje voltei para casa a falar contigo, lembranças, incoerências tão verdadeiras. 
Estou contigo, antes de chegares ao terminus da contenção, estarei à tua beira, com um sorriso trocista e uma prenda que te ofereces, mais um dia, só este.
Merda de insatisfação.


O teu caixote vidrado, esvazia-se, espelho do meu, vida, vida, quem merece lutar?
Tu e eu e quem mais souber.
Eu ainda não sei bem mas não faz mal.
Tropeçamos e levantamos e lambemos as feridas.


E como aquelas bestas diziam... E quê?




Esfera vazia

Quantas vezes morri e ressuscitei? Quantas me adormeci e quantas me matei?
Quantas vidas gastei e quantas me restam?


Sou esfera vazia no meu meio, e simultaneamente tão cheia do que calo. Silencio gritante. Vejo-me ao vento, embalada em cascatas de sentimentos que me inundam e, não digo, sorrio, apenas. 
Ao meu redor, este espaço onde me isolo e transpiro, cada gota um sentido, embalo-me e abraço-me, sei quase de cor o que guardo cá dentro. 
Saio e acompanho o sol crescente, todos os dias, visto-me de cores e dissabores e ensaio a opacidade com que me apresento, sorridente e vigente. Pronta para hastear a minha bandeira de vida.
A manhã quente de Outono, devolveu-me sangue nas veias.  Não tomo calmantes nem nada que me entonteça, o meu cérebro, encarrega-se disso, o que sinto, desnorte, alucinio, é tão forte que estremeço.
O meu rosto, fantasia, transparece, o que pretendo enquanto grito em silencio, a distancia de um entendimento que desentendo e odeio. 


Sinto-me produtiva, a minha mente organiza-se em tons de anseio.
Renasço? Mato-me por dentro?


Ouço palavras doces, abraço sentido, das poucas pessoas de quem gosto, da forma mais pura que conheço, a única que me ultrapassa e tem mote próprio, os sentidos. E ainda agora, teimo em não me acreditar.


Faço quase 200 kms todos os dias, transporto-me, aturo e chateio, chatearei a autoridade enquanto não aceitar, não entender porque tenho que me vergar ao que não acredito. Agora, não! 
Tenho palavras oprimidas, castradas, não saem, treinadas à força da minha própria negação. Hoje quis tanto dar um abraço do tamanho do que sinto à minha irmã e não consegui. 


E antes do sol partir, partimos nós os dois, soltos e abraçados, eu e o meu amigo, estrada fora, cada vez mais distante. 
Amanhã, outro dia, cheio de gente e de vida e de mim, meia, cheia e vazia.

O sangue dos Outros



"Algo permanece que ainda não está ausente de si mesmo mas sim ausente da Terra, ausente de mim. Ela respira ainda uma vez, os olhos embaçam-se, o mundo desprende-se, desmorona-se; contudo, não desliza para fora do mundo; é no seio do mundo que ela se torna esta morta que tenho nos meus braços.
Rosto amado, corpo amado. Era sua testa, eram meus lábios. 

Ela deixou-me mas eu ainda posso amar a sua AUSÊNCIA."

- O sangue dos outros - Simone de Beauvoir

Ser feliz

Tínhamos este livrinho em pequenas. Aquelas memórias que nos ficam, que guardamos, gostava da mensagem e havia outros...
Recebi-o novamente.
Li-o , uma duas vezes.
A mesma coisa. Simples e tão verdadeiro, tão bonito...





Ser feliz
é maravilhoso
É como ter
um balão dentro de ti
e o balão está cheio de ar quente
e tu ficas leve e quase a voar.
Às vezes sentes-te feliz 
juntamente com os outros
Quando estiveste longe
e houve alguém que esteve à tua espera
ou quando uma pessoa diz um segredo
que só nós sabemos.
Quando sentado quieto
junto de outra pessoa
compreendes como ambos são amigos.
És feliz quando
consegues finalmente fazer alguma coisa
que devias fazer 
mas não ousavas.
Às vezes podes ser feliz quando estás só
Quando a Primavera chega de repente
e tu navegas no primeiro barco a vela do ano
ou quando caem os primeiros flocos de neve 
do Inverno
e tocam docemente a tua cara molhada.
Quando começas a pensar em alguém
que gosta de ti
ou quando um amigo defende
o que disseste ou fizeste.
Mas ficarás ainda mais feliz
quando tornares feliz outra pessoa
Quando visitares alguém que está sozinho
e tiveres tempo para ficares lá muito tempo
ou fizeres alguma coisa por alguém
que foi duramente magoado.
Então, o balão sobe
redondo de alegria
e voa até tocar as mãos de Deus


Texto: Leif Kristiansson
Trad:  Sophia de Mello B. Andresen

Já me acostumei à apregoada insatisfação politica, nos cafés, nas praças, nas bocas convictas dos comentadores explícitos e dos outros.
A minha, ingénua, recai sobre o lado pratico da minha vida. Sobre as filas de espera que não se mexem, sobre as famílias que trabalham e perdem dias entre papelinhos e carimbos a entregar em vinte sítios, três ou quatro vias a serem analisadas por mentes incompetentes que não sabem, não sabem mesmo.


Tenho dois processos, com o carimbinho de entrega, como o chefe ensinou, há dois anos, na Unica entidade que licencia, vistoria e regula (três numa), a area de explosivos. Muda-se o director anualmente e, com ele, mudam-se as vontades. Os processos, vão ficando.
Há quem queira trabalhar. 
Há quem se esteja nas tintas para as manobras politicas do que fica bem ou mal à boca das urnas, sei antecipadamente que a maioria queixosa, há-de ir em filinha pôr a cruz em quem soa menos mal, ou nem se levanta do sofá para depois não se sentir melhor ou pior, consoante...


O que sei, bem sabido, é que mastiguei leis contraditórias, continuo a preencher papelada sem sentido, a debater-me com engenheiros que nem sabem como se rebenta uma bancada agora, com o mestre dos explosivos, de bigodinho que, no dia dos meus anos, ao telefone, só faltou convidar-me para irmos jantar fora. Os processos? Ninguém sabia deles.
Grande pai que continua sem cair no conto do vigário.  


O que sei, é que falo todos os dias com homens de mãos grandes, cansados desta palhaçada, que seja de esquerda ou direita, só pedem que os deixem trabalhar, que os deixem expandir a obra de vidas inteiras, heranças suadas, milhares gastos em adaptações de leis obtusas de quem se senta naquela rodela amarela e fala de um pais que não é o nosso.


E rimo-nos todos muito com os esmiuçares do Ricardo a fazer perguntinhas engraçadas a uma cambada de gente aparente, de calças de ganga e ar de acessível. E as outras?
Somos ridiculos a vetar os erros explicitos mas desculpamos as manobras que nos cegam, e as teorias da treta que ouço todos os dias.
Feiras? Venham às pedreiras, venham comer o pó e falar com esta gente. Venham aprender como se faz e já agora, perceber que um liso se rebenta de levante ou de frente. Que as casas faustosas que todos têm, foram feitas de suor e calor de muita gente.


Não preciso de grandes conhecedores universais, por ora, agradecia somente alguém competente, sentado à secretária que lhe pertence, porque sabe. Só isso.
Quanto ao chefe Santos, até o entendo!


It`s oh, so quiet!!




Esta noite silenciosa, de uma calma solidária, de conversas profundas e palavras ditadas ao acaso, sentidas. Saudade de sentir o meu corpo solto..
Mudei a musica, apetecia-me outra.

23 setembro 2009

O mel que o Senhor Arlindo me ofereceu, é forte e faz-me bem, misturado com um chá que fiz de ervas do jardim. Os lenços de papel continuam por aqui e o meu nariz está atomatado, mas sinto-me melhor. Está a passar.
Reconheço o quanto fico piegas nesta altura e noutra qualquer. 
Gostava de ter um colo quentinho para me enroscar, sempre. Não passou com o tempo, não há-de passar, deve fazer parte de mim.


Por isso não me entendo, porque amanhã, enceto outra caminhada por sítios que nem conheço, manuseio perigos conhecidos, perco-me em estradas desabitadas e, gosto tanto.
Sou uma menina a julgar-me destemida, ou uma guerreira mimada? 
Sinto-me sozinha e acompanhada. 


As pessoas, na banalidade, cansam-me. Os defeitos expostos, como os meus, chateiam-me, como se precisasse da arte do imaginário para me enquadrar. 
Sinto-me melhor.

22 setembro 2009

Doi-me o corpo todo, tenho o nariz vermelho e um molho de lenços de papel à minha volta.
Detesto como me sinto.
Ao menos, doí-me a cabeça e não consigo pensar muito. Alterei-me para um estado semi vegetativo que me ajuda a não me cansar nas minhas habituais equações emocionais. Tirando esta gripe, não penso em mais nada.


Estou a ler um bom livro, O Arquipélago da Insónia, que me ajuda, aqui nesta região cada vez mais estranha a, embrenhar-me pelos enredos e cheiros das terras amenas a sul.
Vou beber um chá, o mais quente que conseguir.
Mimar-me, ainda não consigo, mas o meu amigo, aquece-me os pés. 

Gripe


Tou doente!
Não tenho a versão actualizada da gripe. É daquelas normais de que já não se houve falar. 
Cada vez que espirro, parece que o meu cérebro vai saltar, o que não seria nada de grave, e sinto que me passou um cilindro gigante em cima.




De resto, uma pieguice e falta de mimo agravadas.
Aquela minha teoria acerca da alternância de dias bons e maus, só pode significar que a seguir, espera-me um período de alegria extrema, no minimo!


O carinho que recebi ontem, da minha família e dos amigos que tenho, confortou-me.
A sensação que algo muito importante está para acontecer, insiste em fazer-me crer que vai passar. Isto vai passar.


21 setembro 2009

Sempre li que tu existias, sonhava acordada em adolescente com a tua presença, segura, indecifrável.  Lia páginas de viagens e odisseias que tu protagonizavas e outras mais amenas, noites claras em que me imaginava ao teu lado, e te contava histórias minhas e me embalavas com as tuas. Ouvi falar de ti na boca de quem sorri na vida, por mais nada.
Mais tarde, neguei-te com todas as minhas forças, tornei-te ilusão minha, desenquadrada das vivências que guardava, ofendida por sonhar tanto. 


Amei-te antes de te conhecer, amei-te sempre. Se os autores falam do que a alma lhes grita, és o homem da minha vida, sempre foste. 
Como fomos capazes de nos desencontrarmos e perdermos tanto?


O sol põe-se na minha porta, ainda reflecte a minha cara quente, a noite anuncia um dia em que os elementos se ordenam como nunca deveriam, o silêncio transborda de palavras que antes de molhadas, eram livres, tresloucadas como as sentia. Amarro todas as minhas expressões de tanto que se queriam soltas. Grito-lhes em voz alta que me deixem entender. 
Foste sempre tu, sabes?


Não foram momentos dispares, nem caminhos que se cruzaram ao acaso, foi qualquer coisa que nunca saberia descrever, simplesmente porque não existe forma de o fazer. Foi o despertar de uma ausência que me conjugava, que me discernia em cada sentido.
Falávamos em silencio o que agora gritamos em sentidos violentos, demasiados.
Os meus pés trocaram-se, como sempre, cai numa encruzilhada em que tentava discernir o impossível, moldada por fantasmas, por coerências sem contexto. 


Posso encenar qualquer papel, num palco que me foi sempre estranho, em que me contrasto por forma a enquadrar-me e parecer bem, posso criar a minha própria história. Por detrás do pano, fica sempre o que guardo, uma, mil imagens que me reconstroem e me tornam, una, quem sou. No bailado de adjectivos e interjeições, nas suposições que me enganam, fico por detrás da imagem, discrente, descoberta que de ilusão se despertam realidades.


Percorro a minha memória em caminhos nos quais a sede se tornou realidade. 
Saboreio-os como se fossem agora. As gotas de orvalho escorrem lá fora, sinto o esfriar da minha face, tento ainda reter nas minhas mãos, só por um instante, o que o meu olhar abandona. 


As leis humanas nunca foram redigidas. Sei que há tentativas vãs de normalizar e enquadrar directivas, porém, falta a mão divina que nos anuncia a magia do que nunca seriamos capazes de alcançar. Talvez um dia nos tornemos maquinas pensantes e previsíveis, alvos de análises e antevisões. Por ora, resta-nos apenas  sermos almas mágicas ou somente fantoches de teatros inventados. Os primeiros viventes, os outros já estão mortos.


Estou a escrever no momento em que nasci, segundo a minha mãe. Não fui fácil, porque não queria nascer, contorci-me para ficar. Fui uma criança feliz, mas não havia um único dia que não olhasse em volta à minha procura. Sempre tive medo de me perder. E no entanto, vasculhei a vida, remexi-a e virei-a do avesso, escondi-me e procurei-me em cada lugar que hoje relembro.


Tive momentos, poucos, em que me senti, por inteira, não comigo, com a vida, momentos em que me deixei simplesmente ser, sem pensar. Penso demais, sempre pensei.
Gostava de não ter pensado tanto.
Ou se calhar devia ter pensado melhor.
Gostava de nunca me esquecer de ser quem sou.
Gostava de não me importar, nem de gostar tanto dos outros
E no entanto, gosto de tão poucos.


Aqui vejo, o quanto já fui simplesmente feliz e profundamente infeliz.
Gostava de ter sido menos de cada, ou mais ainda.
Gostava de ter ficado mais tempo aqui ou ali.
Gostava de não ter desacreditado de mim nos momentos em que as labaredas daquela razão enquadrada me negavam. Perder, ganhar.
Na soma, sobro eu, plena e vazia de mim.


A estrada que me aguarda, não sei, não a conheço. 
Enalteço o que fiz e o que sou capaz de fazer. 
Gostava de dar um abraço a uma velhinha agora. Encostar a minha cabeça no seu colo e deixar-me estar e, de seguida, sorrir por saber que farei sempre o contrário do que me ensinaria. Gostava de ouvir o velejador louco a esboçar-me palavras sábias e calmas. Gostava de ver um sorriso verdadeiro nas faces terrenas da minha mãe.
Gostava de dar um abraço à minha irmã, convicta que tudo valeu a pena.
Gostava de poder sentir espaço, para ser como sou.
Gostava de amar, mais ainda, de enlouquecer por amar. 
Gostava.


E no entanto, viva, despedida e sofrida, estou contente, não sei porquê.
Nem faz sentido o que digo.
Afinal, tanta vivência e sabendo tanto, não sei nada.
Parabéns Sandra.

Parabéns a mim...

Só vim aqui hoje desejar-me parabéns.
Não sei bem porquê.
Não pela idade que não se ajusta ao que sinto.
Não pela imagem, nem por umas rugas na cara que hoje teimaram em se fazer notar.
Por nada em especial.
Por mim.
Parabéns a mim.
Por chegar aqui, talvez.
Por ser quem sou?
Ficaria aqui a deixar os meus dedos remexerem na minha vida e não me apetece agora.
Parabéns às pessoas lindas que me geraram, sei que o fizeram com muito amor.
Vou-me dar uma prenda enorme, vou ver o mar, hoje.
E ainda outra, vou descansar e tratar de mim.
E uma ultima, vou rir.
E se alguém quiser ajudar, só preciso de ser feliz.
Só hoje.
Amanhã, devolvo...

Vou dormir agora.

19 setembro 2009

Marta

Estou e estarei sempre ao teu lado, porquê? Porque te adoro.
Tens sido a minha companheira nas noites que teimam em parecer não acabar, tens sido o espelho da minha vontade, tens sido minha amiga, mas amiga do peito, daquelas com quem precisamos de ser o mais tolas e verdadeiras.
Vês o mundo como eu vejo, sabes?

Eu lembro-me da primeira vez que te vi. Cheguei numa noite escura, assustada, o Flecha tinha conduzido alucinadamente, como sempre, desde Castro Verde enquanto perguntava se eu queria mesmo viver, e eu dizia que sim. Abri a porta e vi os teus olhos grandes e a tua cara bonita, naquele quarto gelado e vazio.
Ao contrário dos outros, não me enganaste, mostraste o que sofrias com uma lagrima e um sorriso que guardo até agora.

Ensinaste-me que era preciso dobrar as camisolas por cores e do mesmo tamanho, ensinaste-me a enfrentar aquelas noites frias comigo mesma, aquelas gajas asquerosas que nos invadiam com palavras desbocadas e nos envergonhavam.
Lembro-me tão bem de cantarmos juntas e chorarmos ao mesmo tempo, lembro-me dos nossos abraços mal acordavamos, das musicas que só nós ouviamos, de partilharmos dias pesados e os gestos de quem nos vergava aos sonhos que nunca desistimos de ter.

Lembro-me de sangrarmos sob a força dos troncos e dos baldes carregados da imposição de nos querermos diferentes. Lembro-me daquele mirante medonho e dos medronhos no caminho. Lembro-me do gelo e do frio.

Lembro-me de te ver partir e sentir que haverias de ficar comigo para sempre. Sabes de mim mais do que qualquer um com que me cruzo agora, minha amiga linda.
Sei que sofremos as duas, antes e agora.
Sei de ti e tu de mim. Sei que continuamos a rejeitar ficar, sei que os sonhos se tornam pouco crediveis e que as vivencias bonitas nos surpreendem, sei que estamos juntas, que falamos enquanto eu penso parvoices e tu fazes o mesmo.

''hoje não me apetece a vida nem outra coisa qualquer'' F.Pessoa

Nem a mim, amiga.
Mas sabes, tenho uma teoria, quer queiramos ou não, estamos vivas. Somos mais que respiradouros que ocupam espaço. Somos qualquer coisa que ainda nem começou e já viveu tanto.
Aguenta-te aí amiga, amanhã vamos estar juntas.
Eu vou fazer o mesmo. Até já minha amiga.


A Straight Story



Hoje o acaso presenteou-me com um dvd que desviei da colecção do meu pai. Ao acaso, remexia nas prateleiras e encontrei-o. Procurava outra coisa que não cheguei a encontrar.
Sentei-me abraçada ao meu amigo e deleitei-me pela segunda vez com uma "história" que, pela segunda vez me fez chorar.

"Straight Story" é um filme que me desconcerta, não pelo carinho implicito nos gestos, nem pelo cortador de relva, nem sequer pela cara linda do velho Alvin. É a essencia da persistencia que me comove, a despreocupação que ultrapassa a vivencia e nos impele contra a corrente do varejar do tempo e da razão.
Abracei a minha almofada ao longo de uma caminhada que aspiro na minha própria direcção.

Revejo sempre a abominavel diferença entre as conquistas premiadas à chegada e as cruzadas de quem se move por simplesmente precisar, por não existir alternativa senão seguir o que se sente.
Os descobrimentos enaltecidos na história, aqueles que estudamos repetidamente até à exaustão, escondem outros, mais humildes, sem recompensas, protagonizados por uns tantos que se limitaram a partir em busca de qualquer coisa. Porquê? Porque sim. Porque é assim.

Os propósitos marcam diferença. Os factos semelhantes distorcem-se entre contos fantasticos e fascinantes enredos. E ainda há quem só precise de ir a qualquer lado.
Depois acompanha-nos o entardecer sombrio de quem já não espera e o despertar tardio de quem ainda não viveu.

Acho que não me importo de ver o filme de novo, tantas vezes o meu olhar continue a marejar de uma lagrima solta que vem, porque sim.

P.S

Um Post Scrptum.
Agora que me assumi como prostituta de mim mesma, apraz-me ainda outra consideração.
No meio desta parafernália de suposições que não valem nada.
Porque o que vale, fica sempre por dizer...

Há no horizonte, outra imagem.
A fraqueza e a nobreza.
A fraqueza de me denominar citando, "memórias de uma menina bem comportada", a ver se acredito no que não sinto.
A nobreza de me despir e perceber, que a imagem que vejo ao longe, pode sempre ser ou não ser.
Vou-me prostituir à seria, agora.
Só dou se receber. E naõ tenho jeito nenhum para dançarina de varão, com uns pares de olhos a ver se me saio bem. Ou participam ou não.

Ainda bem que está a chover.
A minha cara precisa de água da chuva e de arrefecer.

Divagação

Fui passear com o meu amigo. Corremos juntos. Fiquei cansada enquanto ele me chamava e desafiava. Ando cansada.
Enquanto caminhava e avistava o que consigo ver, em cada olhar de uma paisagem já conhecida, descubro sempre uma nova perspectiva.
Ontem, falava com um amigo sobre o engano das primeiras impressões. As minhas, são sempre erradas, e as segundas, pior ainda. Corro o risco de rejeitar, antes mesmo de me deixar conhecer. O aparentemente diferente, torna-se sempre banal e o contrário também acontece.
Estou cansada de glamorizar algo em que nem eu acredito. O que de facto me atrai é o surpreendentemente real. Encanta-me a podridão tanto quanto a vivência ligeira de quem parece levitar. Como este olhar distante onde se enquadram tantas imagens diferentes e irreais, porém verdadeiras.

Pensei em traição. Uma palavra à qual atribui a capacidade de se multiplicar em inumeros adjectivos com que me presenteei. Quem trai, esconde, é omisso e falseia, quem trai alguém, engana. Uma mulher que trai, prostitui-se de alguma maneira. Conceito primeiro do meu olhar.

Por conceito, nas várias vertentes, traição é sempre uma "forma de decepção ou repudio de prévia suposição, é um rompimento de presunção de compromisso", ou ainda "é uma ruptura completa da decisão anteriormente tomada ou das normas presumidas pelas outros"
Depois há as explanações de sapientes psicoterapeutas acerca das causas fundamentadas para a traição. Neste caso, por experiencia própria, abstenho-me de divagar. Tenho sempre a sensação que o conhecimento empirico é mais verdadeiro. Mudei sempre de opiniões certeiras a partir do momento em que as vivi.

Já trai e fui traida. Significa que tive compromissos que rompi e que outros romperam.
O julgamento e a culpa estão inerentes, se se trai, engana-se e invade-se a integridade de três pessoas.
No Irão, uma mulher que trai, é morta à pedrada pelo marido, que antes disso, se senta com o amante numa combinação calculada acerca do preço da passagem de posse. O amante nunca paga e a mulher morre.
No japão, a traição é fomentada. A esposa, alicia o marido a trai-la na esperança de encontrar harmonia no casal. A ajuda de terceiros é bem vinda quando se trata de colmatar "necessidades".
Os Latinos são ainda menos nobres, encaram a traição como ferida de honra e orgulho masculo. A verdadeira mulher que se tem em casa, é imaculada, intocavel, uma cabra, se olhar em volta, mas os homens não, a masculinidade impele-os a propagarem o seu semen precioso em todas as direcções. Fica-lhes bem. Há dois tipos de mulher, a que se tem e a outra e valha-nos Deus se a desgraçada se compara.
Até Moisés admitia a poligamia masculina.

Ouvi alguém contar-me uma vez uma história acerca de um palerma qualquer que deixara alguma marca ao dizer que cada vez que traia a mulher, certificava-se que era com ela que gostava de fazer amor.

Mas trair, não implica decepção?
Trair não é o culminar de um grito de silencio continuado que não se faz ouvir?
E quando simplesmente se desperta para a suposição viciada em que não se acredita? E quando as mesmas imagens, de repente se visitam com outro olhar? E quando os sentidos nos dançam em bailados em que finalmente nos reconhecemos e julgavamos serem apenas sonhos?

Traição é negarmo-nos a nós próprios? Ou descobrirmo-nos?
Traição é a restea do grito ou o despertar dos sentidos?
Traição é o que fiz a mim mesma toda a minha vida, negar o compromisso comigo mesma, espartilhar-me em suposições castrando o meu direito a sonhar.
Traição é a minha própria desilusão.
A verdade invade-me em turbilhão.



O que vejo?
Fraqueza escondida em evasão.
Ilusão disfarçada
Por detrás desta vaga,
Distorção!

18 setembro 2009

Recebi um abraço

Estou contente, fez-me tão bem... Vou guardá-lo comigo... Quem o ofereceu, faz parte de mim, da minha vida, sempre.




Um abraço meu é sentido, tem toque, tem som e sentimento, não dou a muita gente. Sou meia arisca, meia piegas, mas há momentos em que um abraço significa a luz do momento que se segue.
As perguntas...

Quem gostas mais de abraçar no presente? A minha irmã, a minha familia, o meu amigo de sempre, as minhas luzinhas e as amigas que me acompanham.

Quem nunca abraçarias? Gente pequena e oferecida que nos mexe a julgar que abraça.

A quem davas tudo para poder abraçar? Ninguém.

A quem davas o teu melhor abraço? A toda a gente que queira e tenha um verdadeiro para me dar.

E agora, a quem ofereço...

Simples

Hoje, vou tratar-me bem.

Vou comer o que me apetecer.
Vou entregar os papeis, vou sorrir se me quiserem pintar a cara pela segunda vez, vou aguardar o inicio de uma etapa que pressinto ser importante.
Vou também lançar uma piscadela ao destino.
Vou vestir uma saia comprida e não me esquecer de por creme nas mãos.
Vou dormir, nem que me obrigue.

E vou dar-me um abraço por cada gesto.
De resto, nada interessa.
E vou parar de estar triste!
Hoje é só o primeiro dia de outra coisa qualquer.



Hoje vou ver um filme. Sou eu a escolher.
Já o devia ter feito há tanto tempo...
Decidir!





Daqui


Daqui a uns dias, terei seis meias duzias e meia de anos.


Muitas vezes, ao longo da minha vida, garanti-me que por esta altura, ou estaria perdida na escuridão, suicida consciente ou, estaria de pés assentes numa praia deserta de rosto sorridente salpicada de sal e areia, saborendo as memórias da minha vida, de conquistas e dormencias, acarinhada pelas minhas mãos molhadas de orgulho e vontade de ser mais ainda.
Pensei que nesta altura teria os filhos que nunca tive mas que concebi e amei incondicionalmente.
Pensei que acordaria ao lado de alguém, despida, sorridente e com vontade de ser, tal como sou.
Teria uma casa antiga, com um sofá branco e estantes cheias de livros que me encheriam de vivencias absorvidas. Teria uma razão.
Teria amigos presentes.
O meu amigo de sempre.
Que antes de despertar , cada conto protagonizaria o meu dia, numa vontade constante de me embrenhar cada vez mais na vida.
Que, naquele momento em que o dia já não é dia e a noite se anuncia, havia de encostar a minha cabeça nuns ombros largos e, em silencio, deixar-me estar
Que havia de acordar, sem tempo, e falar baixinho vontades que nem eu entendo.
Que perder a razão seria talvez, o fruto de tantos despertares de que formaria a minha caminhada.

Ser tudo seria somente o reconhecimento de nada ser, ainda.
Daqui a uns dias, lembrar-me-ei e se calhar, sento-me a pensar.

Que a meio da minha vida, quem sabe, deste despertar doído, desta consciencia louca de raciocinios, desta invasão, se ergue uma voz estridente que me grita em rasgos de emoção.
Não sei.
Mas esta luz que à minha frente, insiste em me mostrar, mesmo tarde, uma nevoa tão nitida, as mãos estendidas dos meus filhos, os ombros tão largos da razão, os livros que li e que me ensinam e os meus sonhos construidos só e apenas de mim.
Daqui a meia duzia de dias, nem suicida, nem feliz.
E continuo a não saber nada.

Não vou estar nessa praia, hei-de encontrar uma mais bonita, mais pequena.
Vou-me encostar a uma rocha molhada e celebrar, a caminhada da minha vida que me está a doer tanto.