18 agosto 2010

Não saberia crer na sorte, seria como ter nas minhas mãos pequenas, malabares coloridos que, lançando ao sopro fresco da vontade, caíssem toscamente na terra, mesmo que em seguida, os voltasse a lançar, com mais força, mais mestria. Seria um jogo doentio com a minha sede de ler o que a vivencia me ofertou, seria dizer-me que o breu de alma tem luz e a névoa se apaga, e eu, não leio as entrelinhas, não sei beber de fonte aleatória que não saciasse esta maré de entendimento, qual criança que juntasse peças que parecem não se conhecer.
Não poderia acreditar no destino, seria uma conversa cruel comigo mesma, um silencio imposto a cada sentido que ribomba no meu peito, seria como um fado sem rumo, uma voz muda a prender-me o sonho, mesmo que vestido de tantas ilusões e cores que nunca encontrei no caminho.
Não saberia falar acerca de justiça divina, há muito que os meus olhos passaram por terra batida de asco e podridão, que senti nas mãos a culpa de manjares fartos e caprichos obesos do vazio de não ver mais alem. Não saberia senão num sussurro, só por mim ouvido, cantar uma canção que falasse de tudo o que sinto, mesmo que colorido com os meus pinceis imaginados e as palavras que tantas vezes gritadas, me calaram, mais que disseram. 
Num instante, um momento pequenino, mais forte que o destino, mais verdade que a sorte, sinto, sinto o que não via e esperei ser mais que visto, sinto o silencio em sinos altaneiros que falam primeiro que qualquer medo, sinto tão forte, que as lagrimas correm na saudade e na esperança, na dadiva de uma vida que a sorte não me guardara e, o destino, esse senhor estranho que brincou comigo na inercia do gesto, na madrugada demasiado clara que hoje é viva em mim, mais que uma chama, mais que uma lagrima, é um sentido afinal que tardava.
Aprendi a presença que existe na distancia e a ausencia nas palavras, li a cartilha numa manhã cinzenta em que nada mais restava senão o meu reflexo enorme postado do outro lado, aprendi a força da verdade que o medo não esconde nem disfarça, percebi o que de genuino o caos me mostra e a mentira disfarçada de ordem.  Senti o alivio de uma bofetada por defender alto o que acredito, a leveza de não me querer mais sem mim, sem mandar à merda quem parecia enorme, não temo a morte por beber agora de uma fonte fresca a que chamo apenas agora. Agora...
Sempre me senti sozinha, desfasada, disfarçada, agradadora de uma história que nunca escrevi, num palco de vida que não me habita e porém, agora, agora, ergo as minhas mãos, não à sorte em que não creio, nem tão pouco ao destino, à vida que cresce em mim e me ensina e me chama, e me faz genuina, aprendiz de palavras que não conhecia, agora!

Sento-me na porta, cumprimento a saudade, em jeito de mensagem que a noite me solta, enrolo-me em mim, em vida, no fresco que a noite me oferta. Não saberia rezar ou crer na sorte, ergo as mãos à minha volta e canto baixinho uma canção nova que só agora pareço recordar.

2 comentários:

marta marques disse...

todas as noites te venho visitar...aqui e dentro de mim...onde estás e permanecerás para sempre....
sim senhor! até já a palavra SEMPRe digo sem medo...
tenho tantas saudades tuas...
leio-te para te sentir mais perto
Sabes Sandrinha...gosto TANTO de TI...não mais não menos...como SEMPRE

Sonhadora disse...

Minha querida
No teu silêncio falaram palavras de vida.
Fiquei contente...pelo que percebi do teu texto.

Deixo beijinhos com carinho
Sonhadora