19 outubro 2010

Inventei um cantinho ao sol do mundo, feito de prados imaginados, tem a voz que o tempo brota e as cores do nevoeiro que se esconde e brinca comigo, tem um ribeiro de agua fresca que corre solta, rasgando montes longinquos salpicados de papoilas e flores silvestres, cheira a madrugada quando me deito na erva de Outono. Cheira a luar quando desperto dos sonhos que crio, feitos de cores que só agora conheço e de gestos recolhidos na minha mão. 
Por detrás do monte mais alto, albergue do meu desejo, sei de um mar escondido que se anuncia, lembrando caminho que não encontro. E um molhinho nómada calcorreia, errante, sem pedido, o carreiro que o leva ao monte. E eu vejo, vejo mais que digo, nesta ordem que me ofereço, na distancia das horas e das palavras, vejo o que não lia, sinto na minha pele o anseio do tempo e, calmaria. 
É tão bonito este cantinho que habita cá dentro.

Esqueço as formas, sinto a textura, fecho os olhos e tento rever-me, por onde andei e o que vi. Deixei de mim sem que de mim me partisse, colhi semente que guardo num bolso, quis saber dos acasos e dos sentidos, quis ser mais que lua cheia, quis ser menos que imagem, quis agarrar com força cada lágrima que me descobria e cada sorriso de vergonha. Quis ser livre estando presa e prisioneira de mim mesma. Um dia olhei-me no reflexo da agua e castiguei-me por tão cega de essência e, neste prado verde sou agora, o silencio que de mim fala. 

Sou pequena, sabes? Sinto-me assim, meia. Mas mesmo no meu rosto molhado, sou mais sorriso que imagem, sou mais madrugada que uma noite colorida de luzes e palavras que não dizem nada. Envolta em mim sou livre, e esta vida renovada que se anuncia em cada hora, é um passo no meu caminho, é este prado verde que invento e me fala, é o mar revolto de calma, é espuma de cada onda que me inunda.  Tão longe, guardo o rebanho nómada, e caminho.

Cheira a pão cozido neste instante, olho em volta e lembro o forno de lenha caiado, uma amendoeira, e na minha mente misturo o som do vento, visto-me de nevoeiro e conto cada ponto colorido no horizonte, tenho fome, tenho sede, a minha forma crescente é nascente, e sonho.  Aceno a um velho resmungão que ainda se ouve antes da curva do monte, leva com ele os males de um mundo que mal conheço e pedi-lhe que levasse os meus, disse-me que não, que preciso deles e da herança de tempos idos, preciso da vergonha e do medo, da culpa, sou mais vera assim se um sorriso, de vez em quando, for sentido. E eu já senti tanto... E eu agradeço, só assim me ouço e me vejo. 

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Como sempre o teu texto tocou-me a alma, por ser tão o meu sentir.

Quis ser livre estando presa e prisioneira de mim mesma. Um dia olhei-me no reflexo da agua e castiguei-me por tão cega de essência e, neste prado verde sou agora, o silencio que de mim fala.

Como sei do que falas.

Beijinhos com carinho
Sonhadora