04 julho 2010

Conversa

A noite iluminou-se por sobre o castelo, enquanto a magia fazia juz a uma calma irrfletida que me foi domando o espirito... Fui pensando o quanto preciso conversar comigo, sinto falta como se as palavras que a minha boca esboça, estivessem cada vez mais distantes de falar de mim. Pergunto-me o que se terá passado cá dentro. Sei que foi forte como uma tempestade seca de Verão, foi sonora na minha alma de vozes e confrontos e que o ribombar do meu peito ainda me arrasta o respirar. Pergunto-me que foi isto que me roubou a arte de me iludir e passar sem que nos meus passos fique marcada a ausência que outrora mal se via.
Respondo-me pelo receio de me felicitar. A capa de linho crepe já não me tapa no reflexo e foi breve o instante em que me ceguei. Insanas as minhas passadas arcaicas na claridade de mim mesma, toscas, trocadas, sem reflexo nos meus sentidos ou caminhos. E hoje, busco-me neste ardor mais quente que me quebra em mil pedaços. E penso, nesta noite calma, que são eles mais pedaços de mim que toda a mascara orquestrada que outrora me ofereci
Esta noite queria mesmo falar de mim, queria escrever um livro que começasse agora do fim. Queria aquela lágrima que soltava sem palavras e que respirava por mim, queria ter nos meus dedos a leveza de me despir por inteiro e lavar-me numa agua gelada que me tocasse cá dentro onde me doi tanto, e eu sei, sei agora, e pergunto se aqui, agora, me sinto como nunca senti. 
Dei-me as mãos e percebi, que as marés são tormentas, que o meu sonho começa onde as palavras tocavam nas arestas dormentes do medo e da vergonha que caladas faltaram sempre nas conversas por aí. Sou pequena num pedacinho assim, quando ouço desbocadas vozes de assalto, e eu escondo-me nos contornos de sorrisos e frases sabias e desloco-me na minha margem, cada vez mais clara da nevoa que me envolve a mim. Doi-me estar nos adjectivos agradaveis, nos sitios animados, ser simpatica e convidada e nem estar ali. E eu pergunto-me aqui, sentada, nas primeiras vezes que ensaio escolher os sitios onde me quedo e onde me dirijo, se não são estes os momentos mais completos, em que choro e me alegro, e olho em volta e este desconhecimento é mais companheiro que as jornadas acompanhada de nada, e vazia de mim.
A noite passada, soltei um suspiro contido, a minha sobrinha linda, procurava na plateia a minha cara, e no palco, foi vida, foi a chave que abriu sempre a minha caixinha guardada de um outro teatro que enceno todos os dias. No fim, cá fora, enquanto acenava e via as mulheres da minha vida afastarem-se, senti-me sozinha num largo desconhecido, enquanto me devolvia ao calor do meu carro. Percebi que a minha solidão nada tinha que ver com o largo, mas sim com o caminho, percebi que estranhamente já não me consigo ludibriar de razão.  Já não preciso de divulgar que consegui mais um degrau, que tenho andado muito por ai, a resposta deixou de ser o motivo, cresci num turbilhão, os meus olhos despertaram cada sentido pendido de anseio e receio. Ofuscada, tacteei os contornos da demência e da sede de me ser. As palavras perdidas no tempo, começaram subitamente a sair da minha boca com vontade própria, cansadas de me calarem. Magoei-me sempre mais a mim, sempre.
O meu pai, do outro lado do oceano, que me toca sem abraços quentes e me ouve sem uma silaba, mandou-me uma mensagem, anunciava que estava onde o paraiso se faz, e eu aqui,  apetecia-me perguntar-lhe como se faz assim. Mas começo pelo fim, sei que é assim que me confronto, marcada pelas ruas enlameadas onde ainda me revejo, na coragem de ser louca, por cada momento em que o presente me grita, como um uivo rouco, já não é o motivo, é mais que isso, é a minha alma que já não tem névoa.
Sinto falta de um abraço, não daqueles que se dão por tudo e por nada, de um abraço à toa, impensado e sem motivo, sinto falta de carinho que me trema mais do que o simples cumprimento de viver numa multidão. Sinto falta de tempo no turbilhão de me desdizer a custo todas as amarras que a minha mente me ergueu, falta de memória nos instantes em que as marés vivas foram mais plenas que a insustentavel calmaria. 
Sinto falta de um largo desconhecido, com palhaços e malabaristas, gente mascarada mas tão mais perceptivel que esta romaria cega e calada onde me construi.
Amanhã. será sempre o começo depois do fim deste dia, e eu aqui, olho em volta o silencio, não cá dentro, que em mim ecoa tanto, o silencio da casa e da noite. E eu gosto, gosto desta calma que vivo, depois da algazarra animada em que me emprestei sorridente, num festejo que não sinto, em tantas caras desconhecidas que me chamam amiga. Sou colega, se tanto, não sou o que pareço, sou mais ou menos que isso, sou esta cara desconhecida que teima em não se ver.
Amanhã, rumo a Óbidos, vou sozinha, como descobri que gosto, posso virar nas esquinas que quiser e parar para olhar para o ar e não dizer nada, sentindo tudo, descobri que me acompanho mais viva que emprestada às normas de fachada que fizeram a minha mentira.
Hoje queria falar de mim, do que não falo, queria dizer-me ao ouvido que esta caminhada vale mais do que a marcha em torno de nada em que julguei ser confiavel e comportada, queria já sentir o carinho do meu proprio abraço e esta madrugada sem eco em que me aqueço, na crença de ser uma noite cheia para mim.



2 comentários:

Jorge disse...

Milhita,
Algumas vezes, não encontramos as palavras adequadas para expressar o que sentimos; o abraço é a melhor maneira... alivia a dor, a depressão, a ansiedade...
Para si, vai todo um abraço virtual.
J

Sonhadora disse...

Minha querida
Como as uas palavras fizeram eco no meu coração...sós na multidão.

Beijinhos com carinho
Sonhadora