15 julho 2010

Madrugada ainda, cumprimentei a névoa que aguardava no cimo, plena de uma claridade que aspiro, abri os vidros e a alma, respirei fundo e molhei a cara com umas gotas frescas que caiam. Madrugada serena naquele instante, em que a calma vem de longe e o silencio parece ouvir-me na distancia. 
Caminheira pelo que me chamo, desperta, distante, presente, ausente, viajo por cada sentido provando o sabor, engano-me por ter querido ser um instante, um adjectivo....  Pedaços em falta que palavras não são o bastante, digo-me, semente na minha alma que me acompanha, serei um pedaço de cada, plena de uma inconstância que pronuncio letra a letra, que só assim me descrevo, mesmo sabendo que cá dentro, há um caminho sentido, uma chama tão verdadeira, cuja luz me enebria e me cala. 
À tardinha, perco-me nos caminhos de poeira e nos aterros, piso um pó fininho até ficar com o meu cabelo branco, e gosto, gosto mesmo, e brinco quando entro no restaurante fino, que mereço, e os meus pés ficam marcados no soalho e o cheiro a gasóleo me acompanha. E gosto, gosto mesmo, que sou assim na medida em que tomo banho e me visto de cores alegres e me disfarço nas ruas e passo despercebida, de vez em quando.
Gostava de chuva no Verão, de dormir numa cama de bruma e beber agua sem saber de vem, gostava de sentir na minha cara, o som de cada cegonha e que o ocaso me embalasse numa seara vermelha. Gostava de não ser, sendo pedaços que me abarcam na claridade. Gostava que os meus sentidos me abraçassem mais que as palavras.
À tardinha, sento-me cá fora com a D. Elvira, tão bonita, tão doce, tem uns olhos que parecem ondas, e brilham como as marés vivas, tem uma voz calma e, tudo à sua volta é opulência, mas a nossa conversa é sobre o tempo em que nada tinha e tudo era mais alegre. Alternadeiras, somos mulheres oferecidas aos sentidos, somos falsas nas mascaras, olhamos em volta e avistamos a planicie escura e cremos, mais que na sorte, na alma.
Desço a serra. Desço-me na crença....
Hoje apetecia-me arroz de lingueirão naquela barraca de Cacela, junto à praia, apetecia-me adormecer de madrugada e deixar-me ser como me viesse à cabeça.


2 comentários:

Manuel disse...

Arroz de lingueirão em Cacela?
Para rematar esse belo escrito o arroz vem mesmo a matar.

alice disse...

só há muito pouco tempo provei o arroz de lingueirão e adorei :)