08 julho 2010

spiritchaser

Esfrego os olhos quase secos encantada com o nascer do Sol, laranja vivo, percorrido em pinceladas de um cinzento que sempre me pareceu mais que terreno. Ao longe a serra, parece reconhecer a calma que a minha alma roga, num cantarolar inexpressivo, apenas para me manter acordada. A estrada passa por mim, percorro distancias que por vezes nem deixam marca na minha memória. Vou pensando, estou cansada. Um cansaço estranho que o meu corpo desmembra na procura de vontade. Procura de rumo, de norte, como este sol reconhece à minha frente. 
Cansada de ouvir tanto, de me ter cortado a voz na consciência, de me ter domado em somas e gargalhadas ausentes de mim, cansada desta estrada isolada e fechada que já conheço de cor. Ausente, sinto-me tão clara e porém tão desconhecida. Falam-me os olhos, as mãos, fala-me a alma indomada que me trapaça e abraça, fala-me a distancia e o silencio, e a minha boca fechada.
Cansada de uma moral que não me abarca, se num tempo aprendi que é tudo irreal, tudo é falso e orquestrado num magma imoral de conceitos. A minha mentira é a minha maior verdade, um fado desgarrado e respirado onde por sombra não via vida, um sonho desperto que calcorreei testada e sem eco, mentira, verdade, certo errado, reviro-me em conceitos que destruiram tanto da minha alma. 
Cansada das horas zangada comigo, protagonizando um palco sem perdão, sem palavra, cansada de gritar alto e conhecer o vazio da expressão, cansada de acordar desconhecida do que me move, de cada pedacinho que geme em mim de vontade. 
Sou clara na minha falsidade, sou palhaça parecendo tão bem, fui vulgar nos instantes que rodeada de nada, me despertava a verdade de me sentir. Abraço-me com força, com lágrimas que me despertam no fim, a estrada quente cala-me o cansaço, cala-me esta voz desenquadrada que me molda e me julga. 
Quem está aqui?
Estou cansada de verdade, cansada de amigas que não são, mistificadas em almas e mundos e palhaçadas que só escondem o mesmo, no fim, cansada da cegueira de me ver na opacidade. Cansada e aliviada de chegar aqui, das bofetadas pesadas que aceitei calada, como se eu própria me negasse na vergonha de ser. Cansada de normas e morais que, em silencio todos quebram e calam.
Cansada de conotada, expirada, misturada e perdida, cansada de não dizer nada, cansada de falar tanto, cansada de ser revista em moldes de barro tosco, fornada, reflexo de um quadro só de mais uma cor. Espiral de sentidos perdidos e desaguados, sem rosto. Não me vejo, não me assisto e porém, sou vista nas minhas passadas tropegas, pedras doridas e sem jeito, num caminho sofrego e sem rumo.
Desbravei-me a custo, esbofeteei-me mais ainda, perdida entre margens e conceitos que sempre me sujaram os sentidos, de medos fundamentados. Sempre soube falar tão bem do que não me cabe. Calou-me a doença que nunca me disse nada, calou-me a vontade que julgava ofensiva, calou-me sentir da minha alma, cada corrente de abrigo e o preço da venda, numa banca entranhada que sempre me levou de mim, calou-me cada anuncio a falar do mesmo, de mim sem mim, da morte de vida e da vida que me nasce, sem foz, estou cansada, cansada, cansada.

Sou assim, mas só agora, este bocadinho, daqui a nada, sou um sorriso, uma lágrima, uma anedota ou nada. Esta estrada, esta madrugada, acompanhada de uma alma que me grita cada vez mais alto. As escadas anunciadas em que nego sentir-me menos, são passadas simples, choradas sem eco, sem nada. 
Não me desculpo, não me aceito, abraço-me na verdade da falta, da ausencia, da claridade que julguei, uma vez, unica, ver para alem de mim.


2 comentários:

Isabel disse...

A tua alma é especial...

Menina do cantinho disse...

lindo mesmo.

Beijinhos