25 maio 2009

O verdadeiro filho da puta

Um dito senhor, dito artista, dito por mim, filho da puta, daqueles que nem respiro antes de o dizer, daqueles que me enojam e dão sentido aos meus mais sinistros impulsos, voltou a soar aos meus ouvidos hoje.
Ao longo dos ultimos dois anos, congratulei-me e convenci-me da sua "morte". Afinal, o filho da puta está vivo, ainda se ouve falar dele por aí.
De nome Guillermo Habacuc Vargas, Habacuc para não me cansar, é uma alma maldita julgada artista que, provavelmente por mera falta de sexo ou inspiração ou umas boas bofetadas na infância se lembrou um dia, em Outubro de 2007, de organizar uma exposição na Galeria Codice, Nicaragua. Na entrada, maior que qualquer lamento, podia ler-se
"Eres lo que lees" (És o que lês),
neste caso o que se lia seria uma frase pouco inteligente com a peculiariedade de ser escrita com biscoitos para cão, o que à primeira vista nem teria nada de original, nos meus tempos de infantário já sabia fazer umas colagens com massinhas da Nacional, a diferença é que escrevia sempre "Feliz dia da Mãe". Mas, vindo de um artista, tinha que ter decerto uma mão de génio ? Eu havia apenas de me dedicar ao espargette e redeuzir-me à mera condição de humana.
Este filho da puta, tinha afinal, uma ideia muito para além do bestial, tinha a ideia de assassinar um cão doente à fome, exposto na galeria,. como obra de arte. Havia capturado o animal no dia anterior, com a ajuda de 5 putos ranhosos, pobremente recompensados para o que julgavam tratar-se de uma brincadeira, nas ruas de Managua.

Durante dois dias, a exposição foi visitada, falada, vista e, durante dois dias, este animal esteve a um canto, doente faminto, feito obra do diabo e de outras mãos doentes, durante dois dias os biscoitos serviram de letras, durante dois dias foi falado que havia um artista que tinha uma obra de arte mais morta que viva e ninguém fez nada !!!!
Ninguém gritou, ninguém o soltou, ninguém lhe fez uma festa, nada ! Enquanto orgulhosamente, este trapo expunha os dentes e assinava convites, ninguém fez nada.
Eu não fiz nada. Chorei, por ele, por mim, por esta merda toda!
Mais tarde, este filho da puta, diria em resposta a algumas interrogações das poucas organizações de Direitos dos Animais, que achava alguma graça à controversia, de facto, ele tinha dado vida a um cão já morto uma vez que agora toda a gente falava nele. Naquela mente asquerosa a vida existe na memória humana, "És o que lês".
Aderi ao conceito e matei este assassino na minha mente.
Hoje não.
Alguém me falou nele, tal como o ano passado pus o meu nome numa petição. Soubera que fora convidado para a famosa Bienal Centroamericana Honduras 2008, com o intuito de repetir a façanha.
Hoje não.
Nem admito a hipocrisia da violência visual que fere susceptibilidades, nem admito estar calada, nem admito falar de amor sem falar do que sinto. Odeio esta comiseração, odeio esta imagem de povos aculturados, odeio discutir as nuances da liberdade de não querermos ser artificialmente reanimados quando já somos mortos de vida. Odeio passar ao lado com medo de deixar marcas, odeio "uma no cravo e outra na ferradura", odeio este filho da puta que ainda vive.

1 comentário:

Teresa Queiroz disse...

é odioso tens toda a razão

o probelema é que ninguem limita o sentido do que pode ser arte

seria uma escultura viva .... enfim aberrante .... sem sentido
e ounível por lei

não entendo
a hipocrisia e o cinismo que levaram as pessoas a visitar ... e a nada fazer , convencidas que se estavam a comportar ...bem

gente mal educada