07 março 2009

Ser normal

Não é, nem o sol espreitando na janela do quarto, nem o vibrar de vida que a cidade sempre tem pela manhã que sustentam o seu despertar; é antes uma consistencia pesada e dita preenchida que já velara o seu sono agitado. Como uma nuvem escura parecendo iluminada de preocupações só suas, mas revistas no falar de tantas iguais. É a cara, a cor, a estria recem descoberta e encoberta no seu peito necessariamente erguido e à espera de nada. É a loucura de querer ser amada à custa do reflexo que venera ao espelho todos os dias e que calada, nunca deixou de odiar.
É a casa arrumada, aprumada, é a sua cara mascarada antes de ele acordar. É este vazio de nada com laivos de fantasia, que sempre precisou demostrar, como cegueira profunda de qualquer simples forma de ser. É a mentira antes de querer ver. É a sensação doentia de se perder se um dia se limitar a deixar-se viver.
Antes de sair, passou já uma vida, entre camadas de mascaras faciais e cremes e aromas, misturadas com a quarta tentativa para parecer original numa roupa tirada a ferros de um armario feito lugar de culto. Pelo meio, não restou tempo para admirar o rosto queimado de solario e antes deitado a seu lado e muito menos a ultima oportunidade para se dizer bom dia.
A seguir, basta encenar. Rir quando deve rir e chorar quando impera sentir.
À primeira vista perecerá contente. Vive para o mostrar. Procura noutras iguais a confirmação deste sentido de vida, quantificado por adições crescentes na agenda telefónica, de homens que apenas precisam de a querer.
Desdenha da própria vida, do que não quer conhecer. Basta-lhe esta procissão para que se preparou, este cortejo de fantoches de que diz fazer parte enquanto cala uma qualquer e enervante vontade de gritar.
Meu Deus, são todas iguais. São todas normais.
Caminham a pares, riem em bando, assentem e combinam o prazer com a antecedencia assassina de nunca arriscarem o ser unico que pretendem um dia ser. Falam em conjunto, manifestam-se em gritinhos e risadas que nem elas sabem entender. Não sabem nada mas seriam capazes de matar de tédio qualquer mente com uma unica linha de raciocinio.
- Não te apetece mergulhar?
- (silencio, riso)
As luas sorriem e vão, os dias passam sem ela os entender, o mar pressupõe calor e bronzeadores, a lua existe apenas nos livros necessários que lê sem se rever, até o prazer foi ensaiado para parecer banal e especial, fica sempre tudo para dizer.
Horas e horas e horas: cabeleireiros, lojas, cafés, carros imaculados e sem avarias, cinemas e bares sem fumo, conversa do que se deve dizer, comparaçoes gemeas de frustraçoes caladas e ainda os beijos dormentes do homem que nunca poderia ser um qualquer.
Flores e perfumes para ela, dois telemoveis que vibrem quando precisa reforçar o quanto é necessária nesta fatidica procissão de viver, sempre rodeada, sempre, sozinha na mesma vontade de gritar, um dia, sem ninguem a ouvir.
As palavras, essas gritam os contrarios da sua forma de se ver: " É linda", enfeita os quadros daqueles que arrancam dela a sua satisfação e tentam calar qualquer gemido profundo que não querem ouvir. No silencio dos deuses, apenas sabe fugir para dentro de outra qualquer madrugada sem lua, sem nada, enfeitiçada e perdida nas luzes e ruidos e sons capazes de ocultar as vozes caladas do mais fundo do seu ser.
Um dia, sózinha, velhinha, terá que se ouvir.

1 comentário:

Ana disse...

Somos duas anormais à procura do sentido da vida.
Brindemos à anormalidade!