06 março 2009

Verão que nao vou esquecer

Tinha umas jardineiras que adorava. Eram bonitas, ficavam-me bem no meu corpo recem descoberto de adolescente aspirante a mulher. Com elas, combinava sempre uma t-shirt branca e umas sapatilhas. O quadro ficava completo com o meu cabelo comprido e encaracolado, apanhado atras. Nunca demorava mais de 5 minutos a vestir-me.
O ano passara a correr. Orgulhava-me agora de um esforço quase desumano, pelo menos assim parecia nessa altura. Chegara ali, segurando nas minhas mãos pequenas o bastião da glória alcançada, horas, dias sem dormir com a cafeteira de café ao lado e mil livros espalhados à minha volta. Mas conseguira.
Sentia o orgulho com que o meu pai relatava aos amigos a obvia e expectavel entrada da filha na Universidade, como se nada mais fosse de esperar de mim. Eu assentia, convicta que ele continuava demasiadamente confiante.
Mal chegara, largara as malas e correra para a praia. Só parei mergulhada naquele mar quente e verde que conhecia desde pequena. A vida sorria-me. Lembro-me da leveza daqueles momentos cheios de sonhos feitos de certezas e vontades feitas de fantasias.
Amigos crescidos naquele ano, o calor merecido daquele lugar que me tinha visto crescer Verão após Verão. Sempre adorei esse lugar.
Foi nesse Verão que, segundo a história, me tornei mulher. Numa noite quente, escondidos no areal sem fim, perdidos em beijos que duravam até à falta de ar, secos de sal e molhados de mar, foi nesse momento que percebi que aquela sede não me deixaria mais, como uma necessidade vital que acabara de encontrar. Nessa noite percebi tambem que precisava de me despedir das jardineiras.
Era tão menina. Senti-me tão mulher.
Lembro-me de ser capaz de sentir, pensar, embebedar-me para sempre, o ser em que me envolvia fazia estremecer cada poro da minha pele, o corpo dançava ao som das suas mãos e uma dormencia de consciencia foi baixando em mim. Descobria a fonte da minha vida.
Alguem me dissera que a primeira vez não valia. Para mim foi uma vida de prazer.
Ainda menina sonhara com querer e decidir. Ali, naquele momento, a voz calou-se no mais fundo de mim, sentir era a descoberta de um mar de extase muito maior do que aquele outro que soava tão perto.
Era instintivo, sabia tudo, queria saber mais.
Nesse Verão de que me lembrei hoje não voltaria a mesma menina e nem me sentiria mais mulher. perdi-me nessa noite na descoberta de sentir prazer.
Quando as férias terminaram e encarei a escadaria da universidade pela primeira vez, demorara quase uma hora a vestir-me. Umas calças de ganga e a mesma t shirt combinada com um lenço na cabeça que o "meu namorado" me oferecera.

1 comentário:

Ana disse...

O prazer embebeda-nos a vida. A descoberta dele é partida sem fim, sem alcance.
Que bom conhecer-te antes das tuas palavras, saber perceber onde elas chegam, saber a pessoa bonita que sempre foste. Mesmo quando não sabias.
Vou querer ler-te sempre. Mas preciso ouvir-te primeiro!
Um beijo da tua irmã de vida.