13 março 2010

Estásimo de eternidade só minha


Efemeras estações, ciclos, que passam no turbilhão que sempre me rodeou, companheiro de uma visão muito minha. Sou filha da teimosia, sou presa do medo das passagens de mão em mão, das simples transfigurações de vontade.

Sou pequena e temente, eu sei, não gosto, zango-me com estas duas faces que se guerreiam cá dentro, um burburinho eterno, um barulho persistente que eu ouço, que alimento. São estas duas, eu e mais eu, de ar convencido. Eu que navego, que viajo, que sonho e quero tanto, eu que me joguei sempre nos caminhos diferentes, no encanto dos elementos, na solidão viajante de nunca nada ser suficiente; e eu, temente, lavadeira de feridas, conhecedora das palavras de nada, da futilidade do sentir glamorizado, errante da minha imagem desfocada e da ordem de um mundo onde não me vejo. São duas. São mais.
É como se a dificuldade estivesse nos lugares onde anseio falar de mim, se me deixo algures, sempre, para parecer coerente. E não sou.
Mais que eu, há-me um ser, um oriente, há um sentir persistente, sem semelhante que creia, há a desvontade dos amantes, estes ou aqueles, desde que o sejam, a substituibilidade gratuita, por ordem de um querer sem conteudo. 
Amei as searas desde que as vi, viajei e encantei-me com os horizontes mais belos, aprendi outras linguas, outras gentes, mas o laranja castanho, o entardecer quente daquela terra, é amor eterno que guardo comigo. Não as habito, sinto-as em mim quando choro, quando rio, nestes dias cinzentos impostos de febre.
Há uns dias, enquanto em volta, caras zangadas ansiavam pelo quadro cheio, eu bebia as palavras de um poeta, professor de direito, dançava com as palavras, com os olhos, falava da vida e dos seus amores, vivia-os naquela sala como os vivera desde o primeiro dia. E eu ouvia e sentia, nos meus tons alternadeiros, nos meus devaneios e pequenês, que este sentir maior, sem principio nem fim, é o ultimo como o primeiro, é maior que o poder da minha voz, é o traço de vida que anseio.
Se me guerreio, é talvez pela força tremenda deste sentir, deste ser, deste desentender, que não se afoga, nem se permuta, não se morre de uma vez e não se nasce por inteiro. É esta seara de sentido que me dá voz ao perigo e à paz de me dizer como sou, nunca igual, mas capaz de albergar a infinidade do meu olhar.

“As pessoas de quem gostámos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro.”
A. Lobo Antunes

Porque em mim habita a eternidade das parcas manhãs que me moldaram e das tardes que me deram esta voz de mim , e das madrugadas despertas e iluminadas de ofertas de um querer mais que o saber. Por tão parcas, tão minhas, serão eternas, guardo-as junto a cada pedaço que dei por não me pertencer. Unas e insubstituiveis.

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Lindo texto.
Deixo um beijinho.

Sonhadora