20 março 2010

O jarro de sangria de frutos vermelhos, de um aroma comprometidamente encantador, invadia-me os sentidos escondidos desta naturalidade habitual. Não se notaria que seria meu, por vontade, de um trago sedento e insano. Desvio-me mecanicamente, sem esforço, apesar de me parecer que deveria glamorizar o orgulho de o querer. Querer, nada tem que ver com poder nestes dias, assim como poder é desviante da vontade.
A lareira emana sons aquecidos de uma musica quase mágica, enebrio-me conjuntamente e desigual. Tenho o poder de partir estando e de me embebedar de substancia incorpórea, alienada de uma mente vagabunda, minha numa rua de venturas e imagens.
Por um tempo, adiro ao soltar de palavras faceis e desta proximidade que os livros e noites em claro nos oferecem, ouço em sorrisos falar de mim, como se de uma estranha se falasse, parece-me boa pessoa, divertida, atenta e distante. Ouço-me na convicção do pouco que me mostro, nesta imagem repartida que me descreve.

O "Plano infinito" arrecadado, atrasado na vontade, dá lugar a histórias antigas, de campo e cidade, da escola primária, das reguadas e esfoladelas nas quedas de bicicleta, palavras que nos unem nas saudade das ruas de um tempo em que a vida nos era devida, do encanto de criança. Cada conto é bisado pelo seguinte, parecido, e enquanto o jarro se troca, deixando as faces rosadas e as palavras cada vez mais soltas, eu invado-me de memórias de uma manta de essência que me eleva daqui, que me leva longe, onde uma terra me lê, onde o tempo se move em espasmos de mim.

Num instante, vislumbro-me, vejo-me...

Como sempre, deixo-me na estranheza da acção, estando, viajo em mim como que integradamente distante, estou ali de mãos abertas, divertida e atenta, na desatenção cansada da minha divagação.
A madrugada passa e o plano infinito, é somente um motivo, que na verdade, guardado, nos deixa, noite dentro, noite aquecida em palavras esquecidas e que precisamos de ouvir, conversa de amigas, divertidas e atentas. 

2 comentários:

Angel in the dark disse...

Como é bom viajar nas memórias do tempo já passado sem retorno!... Onde o encanto da inocência ficou parado, com preguiça de seguir!...

Sonhadora disse...

Passei para deixar um beijinho.

Sonhadora