15 junho 2010

Acordei estremunhada, vinda de um sonho que me presenteou de uma historia mais feita de mim, que o momento em que me reuno ao amanhecer. Sinto que deixo parte de mim ali, uma parte só ouvida quando a minha mente navega sem que lhe tome forma, sem que lhe dite rumo ou motivo. Sinto as presenças de um conto de personagens irreconheciveis que, no entanto, sei quem são, porque me visitam nas noites mais profundas, sei das palavras envoltas de imagens e de gestos sentidos. Sei de mim no espaço que o sonho me liberta, lembro cada episodio fora do enredo, sem credo ou forma coerente, mas repleto da reminiscencia que me ergue leve, como se chegasse de um paralelo magico um instante breve encerrando as formas que não sei desenhar.
Como me doi deixar-me ficar... Assim, ergo as mãos, bocejo a medo da minha boca em silencio, faço-me vestida de cores e façanhas, escrevo um conto imaginando ainda ser lido, escrevo nas pedras que a estrada respeita, nas velas dos barcos que rumam distantes ainda, nas asas do albatroz magnifico, partido e branco de verdade. Escrevo como se nas palavras transpirasse o meu corpo, como se os dedos bailassem mais depressa que o medo, escrevo porque no meu sangue cuja cor não decifro, guerreiam-se lua e adamastor, voo e caminho, abraço e solidão, doença e crença, e eu, ofereço-me em seguida, assim que desperto.
Ouço vozes, ensinamentos, nada fica, porque em mim já não cabe querer decifrar mais ainda. Da solidão, fiz claridade, temida, magoada, senti-me livre e sofrida,  ferida de uma magoa que nunca pedi e as minhas mãos conheciam. Não sei porque me despeço assim se, em cada dia, me preciso, se em cada conto me lembro, não sei porque sorrio perante um banco tosco à beira mar, de um mar revolto, irado, cinzento de querer tanto, um barco que teima em partir.
Continuo riscando os itens da minha lista, buscando nas grutas, mais arestas que formas, mais sentidos que palavras, coesa na verdade que nenhum homem me contou.  E encontro-me assim, em silencio...

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Maravilhoso texto, um belo momento de evasão de nós.

Beijinhos com carinho
Sonhadora