03 abril 2010


A propósito, e porque acordei assim, em tempo Pascal, proliferam textos com ovos e coelhos e alusões a algo que não discuto, é pessoal. Pessoalmente, crescida no seio católico, cansei-me de perguntar, na minha voz de menina, cansei-me de precisar de respostas e não as ter. Acreditar...
Quem me dera ter essa fé... Quem me dera ser crente e cheia de mais... E se calhar até sou, não sei.

Sei que li a Biblia como uma história fascinante, sei que o padre Pinho era tudo menos pastor de almas e seguidor dos bons costumes, sei que o outro que se hospedou em casa da minha avó em Mertola, dava aulas de viola às sextas no centro paroquial, mas ouvia melhor os acordes com as mãos postas nas pupilas. Sei que há uns anos, num dia fronteiro, entrei numa igreja em Lisboa e pedi para falar com o padre. Não sei o que queria, ansiava por um alento, uma palavra, mas nunca vi o sr. padre, estava ocupado com as marcações dos batizados e casamentos e, a beata que me atendeu, guinchou que o sr padre só atendia às terças e quintas...
Sei que as colunas da Piazza de  S. Pietro, vistas do centro desaparecem numa só fiada, que os guardas suiços de vermelho à porta do reino, não riem, não esboçam nada.
Sei que quando não pude visitar o Vaticano, mas sentei-me com ar respeitoso na nave da Capela Sistina, admirei os frescos e a opulência, nada silenciosa do sitio, despido "da obra e ensinamento que Jesus pretendeu".
Sei que como cidadã, regida por normas sociais, não sou ninguém para julgar, porém, é categorico: Abuso de menores é um crime punível por lei, é condenável, asqueroso, nojento; não me venham com acompanhamentos e perdões depois do caldo entornado, é um bocado arrancado de uma luz que se extingue de repente, ponto final:  é crime, tem que ser julgado, condenado... O que me interessam as discussões inauditas acerca das posições do clero acerca do asssunto? É crime, porra... 
Alguém fala dos senhores padres que foram habilmente chamados ao Vaticano no meio da escandaleira? Onde é que eles estão? Onde? Foram julgados? Estarão arrecadados com as obras de valor incalculavel que decerto apagariam tanta fome, tanta miséria...E enquanto isso, debatemos no café o Engenheiro de Telheiras que nunca mais ninguém esquece, "quem havia de dizer que um homem assim era capaz de fazer aquilo..."! Não me lixem, estou cansada de ovos de Pascoa, pontuais e finitos, estou cansada de redenções e procissões, a fé é demasiado bonita para isto, a Igreja tem história e eu não misturo.
Mas querem fazer o favor de prender os pedófilos? Tirá-los das ruas, sejam padres ou pastores, é crime!

5 comentários:

Manuel disse...

Os meus aplausos cara companheira deste mundo de duvidas.
Também queria saber tanto do que nos escondem e da fé que nos roubam,

Kimbanda disse...

Olá Milhita,
Opulência, indisponibilidade, bonitas palavras para ajudar-mos após catástrofes e nunca se houve falar naquilo que interessa que é a ajuda directa às desgraças alheias.
Muita conversa e pouca acção. Pedofilia, que a muito custo tentam lavar imagem, transferindo padres para outras regiões onde farão exactamente os mesmos crimes hediondos, em vez de serem levados a tribunal.
É puro obscurantismo acreditar numa igreja assim.
Revoltante e de uma grande cara-de-pau!
Completamente solidário com o teu texto.
Kandandos e uma boa semana

Menina do cantinho disse...

Não posso estar mais de acordo.
Tantos valores que andam a desaparecer para dar lugar a actos imperdoáveis.

Miguel disse...

Prometendo regressar dentro de momentos para um comentário mais aprofundado, só para informar que há um selo para a amiga no Lado B.

Miguel disse...

Não é a primeira vez que me insurjo, que me indigno, não contra a história da igreja - verdadeira ou falsa -, muito menos contra a fé que as pessoas procuram obter a qualquer preço. Faz-me espécie toda a opulência, toda a hipócrisia do Vaticano, aquele julgar de tudo e de todos como se as suas verdades alicerçadas em frágeis alicerces fossem lei. Que saudades devem ter dos tempos da Inquisição e das Cruzadas. Raramente vi tanto ouro, tanta riqueza como nas cerimónias fúnebres do último Papa, mas na altura de ajudar os necessitados, os desalojados dos haitis do mundo, somos nós que temos de nos chegar à frente, com o pouco que temos, com os dízimos e todos os outros sacrifícios.