17 abril 2010

Tenho na minha cabeça, tantas palavras, tantas, tantas marcas que fui deixando, do que leio, gente grande, momentos. Tenho mais em mim, tenho as feridas que os meus ouvidos me deram, mais palavras, cortantes nas marés vazias, em que no fundo nos rasgam os seixos, no amargo das bocas frias. Tenho as terras quentes que só se admiram bebendo, vivendo, só se cheiram, se me enrolar num campo de trigo e sacudir as "ventoinhas" que ficam presas no vestido. Tenho o calor dessa terra, aquecidos os meus pés sem jeito, descalços. Não tenho livros comigo que descrevam o que sinto, quando comigo.
Andei de bibe, com um cajado nas mãos, afagava os touros e conheci nos olhos distantes e secretos, a herança de seculos, de tradições que desavergonhadamente se falam, sem cheiro, sem cor. Conheci de perto um enterro, de mãos dadas com o meu pai, lembro-me de estar calor e haver foices e faces hipnotizadas com um vento gritante que ninguém perguntava, a que vinha. Nunca veio por bem.
Dos latifundios, lembro-me das mãos secas do meu avô, do escorbuto dos arrozais, da tina em que tomava banho e do candeeiro a petroleo, lembro-me da eira morena ao lado do meu balouço, das arcas de carne salgada, dos cantares, do sr Simões, o guarda livros e do tio Custodinho, sempre sentado na porta do monte, perguntando-se. Lembro-me da minha velhinha, ocupada em dar sorrisos, sempre aos outros, da Luisinha egoista que não me emprestava os brinquedos. Eu tinha outros, tinha a vinha, a horta, o tanque e a terra com que fazia bolos de lama e ninguem comia.
O Abril, não me lembro, tenho guardada a manhã, as espingardas, uma amalgama de gente demente, tios meus, nem sabia, gritando a liberdade. Tenho a cara da Tia Maria, sentada, das lagrimas, do meu avó curvado de repente e a minha avó calada, como sempre, tenho os gritos de raiva e a saida, sem nada, sem roupa, sem nada.
Tenho a morte da obra, a cortiça roubada, gargalhadas e poemas de quem não sabe mais nada a não ser a vista de uma só margem.
Tenho em mim a saudade de não ser ferida a cada palavra, tenho a morte do encanto que nos guardava. Tenho lagrimas desaguadas, cansada.
Não sei porquê, folheio o meu livro, ao contrario, o Abril dos cravos, foram espinhos da minha infancia. É cara a herança de um Estado forçado, cara e cega, que a seguir ao medo e ao silencio, não se sabe ser gente, não se sabe, sabe-se ser touro enraivecido ante a palhaçada da capa.

Por isso, já não espero, tenho em mim o sabor da maré cheia, desperto de uma dormencia, que foi em mim mais que medo, que na voz dos poetas que choram, tem que haver vida, capaz de pôr uma seara verdadeira, no fim de qualquer conto. Errei tanto, não fazendo, que não sei porquê, aprendo com o mesmo dedo espetado, que me devo, e se chorando, é a fé que escondo, ainda.

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Que maravilhoso texto...escrito com sentimento, e cheio de palavras nas linhas e nas entrelinhas, gostei muito...sofrido.

beijinhos
Sonhadora