14 maio 2010

Skeleton Coast


Ficaram marcas, salgadas de um aroma que, por ser meu credo, emana da soma de todos os tempos passados, de um aspirar demorado, de um conto habitado por mim. Ficaram pegadas que a maré não beijou, pousadas na leveza de um voo partido, denegrido e desfolhado. Ficaram demoradas palavras que fui ouvindo sem me saber, partida ou chegada, uma madrugada anunciada pela força de não ter fé.
Ficaram nas minhas mãos pousadas, cristalizadas num olhar, imagens que nenhum gesto terreno seria capaz de profanar. Desloco-me, enquanto as peças se ajustam num triunfar crescente de um jogo que não me seduz.  O ensaio desviou-me da estrada alcatroada onde acelerava, inquieta e insatisfeita. Brilha-me na mente o desnível do horizonte, os contornos das serras ao longe, e um mar demente que me encanta, pela forma como aprendi a olhá-lo. 
Ficaram em mim palavras que nunca se ouviram, nunca se disseram, ficou a essência que escutei surpresa, coesa           na magnificência que não se traduz e na pobreza que o poema engana. Ficou na minha pele o suor não sido, o gemido de um farol que alberga sustento e nevoa sedutora na brisa fresca do tempo.
Ficaram em mim.
Estrada batida de sentir, de calor, sinuosa de tão clara. Este silencio diferente é sentido numa costa sobranceira onde ao luar,  voa um pássaro branco, branco de asas soltas, como me ensinou.

2 comentários:

Sonhadora disse...

Minha querida
Como eu gosto de ler o que tão bem escreve e descreve...me sinto nos seus textos.

Ficou na minha pele o suor não sido, o gemido de um farol que alberga sustento e nevoa sedutora na brisa fresca do tempo.

Lindo.

Beijinhos
Sonhadora

Jorge disse...

Vim ao seu maravilhoso espaço, saudá-la. Voltarei com redobrado interêsse.
O Mar é uma uma imensa metáfora da nossa vida, dando-nos lições preciosas. O mar tudo dá e tudo tira.
J