06 maio 2010

Preciso-me agora...

Lembras-te quando os sentidos eram contornos do nosso corpo? Fragmentos detalhados que nos embaciavam o olhar? Lembras-te do mar sereno e do cheiro que os barcos ofereciam ao partir? E do acenar doce das mãos que trazia no meu peito? Lembras-te dos mundos que inventávamos só para nós? E da voz? daquele silencio tremendo que nos levava tão longe onde não sabíamos chegar?
Lembras-te de cantares sem motivo, de naufragares mil vezes num instante e de seguida, despertar? Lembras-te dos adornos com que fizeste o teu sitio, teu abrigo de oriente, teu motivo de te ver? 
Estás comigo ainda na nascente e na foz, ou onde me levar? Estás em mim no sorriso que me devora de sede, que não me deixa dormir? Estás nesta mente capaz de tanto e carente de ocaso? Estás nas esferas redundantes que te envolvem e cegas, rodopiantes, fogem e não habitam lugar em nós?
Estás nos braços fortes que calcorreiam escadas de feridas sem as ouvirem sequer? Nas palavras ditadas antes das respostas, nas questões universais sem forma cujas arestas nos demovem, ainda hoje, sem paz? Estás?
Sentes-me ausente? Paralisada de um foco ilusório, feixe transversal de sentido? Sentes as pegadas que fui deixando, circulos em volta do pranto e do nada, no farol rompante de uma qualquer madrugada?
Vês a nossa estrada? Dás-me a tua mão fria, refrescada da seriedade de tudo o que me perfaz? E o que me fica, o que resta, este brilho, esta caminhada precisa, que me sai da alma, que dura mais que devia, rica de nós, herdada de uma maré desconhecida, de uma voz silenciosa. 
Voltas aqui ainda, ou nunca partiste sem manifesto presente, que eu sempre te senti dentro de mim, naquele pedaço que me faz virgem do noivado com a vida.? 
Pega nas redeas agora? estou sem força, sem nortada que me abarque, e o mais estranho é este mapa nas mãos, decifrado por fim, depois de mil contas. Devolves-me a fantasia, a coerência e o sol no olhar?  Divulgas-me em mim, como um cartaz renovado em homenagem? Só preciso de dormir por um tempo, negar os gestos terrenos que já me enfadam, dormir renovada, acordar contigo, somente.
Sei os elementos que nos sabem, sei de ti como tu de mim. acordas?
Preciso do outro lado de mim, por um tempo, agora.

2 comentários:

Ana disse...

Força para acordar só com um lado de ti. O tempo faz o resto.
E quanto à norma 25... salta essa e passa para a 26:))

bj

Luz disse...

Amiga,
Que texto poderoso e como me deixou sem fôlego! Senti cada palavra, cada pausa..., senti-o porque neste momento é o que também eu tanto necessito agora, já...

Abraço forte de Luz