16 fevereiro 2010

Alheio-me do mundo findo, solto os pés da Terra, sabedora das esferas e dos ciclos, leio-me por dentro, acordo do conto rupestre, deste canto onde já não pertenço há tanto tempo, antecedo a voz, calo os fantoches e as mascaras que bailam na minha mente, relembro a descoberta de ser uma, cabe-me o mesmo silencio que me ofereço por respeito. São como as musicas de qualquer lado, como as palavras ridas e as vociferadas, por isso me evado, porque tal me devo.
Os pedaços que me rodeiam, terra onde não estou, já seca há tanto tempo, insistência numa existência sem sentido, atroz a minha ingenuidade de julgar ser capaz de coexistir.   Pela primeira vez, não lembro o que já tive, porque verdadeiramente, nada me pertence, a não ser a memoria do meu esquecimento. Cresci e morri nestes dias. 
Passei os últimos dias aquecida das palavras doces da minha mãe, ouvidas de mãos doidas de me despir e aceitar as palavras que tinha para lhe falar de mim, sem colorir o negro, sem esconder os detalhes, nem me preocupar em ensaiar, cruas, cruas. Tento ver a alegria de uma vez, em silencio, decidir o meu horizonte, a direcção do meu curso, se sonho, se vejo, e se acredito, é meu património, meu sentido e meu ensejo.
O meu chamado porto seguro, a restea da história já finda, é materia que não rogo nem exijo, o património que arrumo, é mais que isso, arrumo facas aguçadas, desmembro palavras e ilusões. Envergonho-me da minha necessidade de me sentir pertença de alguém, quando cada sopro de mim, está distante há tanto tempo. Envergonho-me mais ainda dos meses passados em bicos de pés, tentando entender os sentidos, calar o medo e acreditar no que sinto, ao mesmo tempo que colhia marés crueis e desabrigos enaltecidos.

É pequeno e não repito, mas estou ferida e prezo este sitio, e quem nos últimos três dias, me inspecciona, as palavras, apenas, à procura das ruinas romanas em tela verde, de pegadas na minha praia, não me conheces, não sabes quem sou e eu não quero saber quem és, mostra-te tu primeiro, não sou um comentário e muito menos só escrita! Sou a Sandra A., e as palavras mais bonitas que alguém já me disse, não estão escritas , não foram adjectivos, foram vistas, sentidas, foi "sei que choras por...., sei que gostas de ler Duras e Yourcenar e pertences ao Alentejo, sei de ti, de dentro!" , foi "Amo-te", ao ouvido, foram ditas em silencio. As palavras mais bonitas saem de madrugadas feridas e sofridas, os ocasos que me estremecem e obrigam a mudar e a gemer do que sinto.

Não sou livre por inteiro porque ainda não me pertenço, porque ainda caminho na capacidade de me ver, de acreditar em cada rasgo de mim. Sou mais do que a visibilidade das pesquisas ou de outra coisa qualquer. Não sou de ninguém, nem ninguém me ama, sou ilusão apenas! Sou a Sandra, anonima, pequena, que ainda ensaiava a vida enquanto ela passava. 
Sou o registo de 39 anos comigo e de costas viradas, sou o somatorio das vidas felizes e sonhadas, da dor e da doença, sou agora e mais a seguir, não sou leitura.
O resto, centelha passada, marés vazias, moedas contadas, sonho desfeito, silencio e magoa.
Conto o que realmente me pertence, cabe em poucas malas, o resto não quero, está marcado na minha memória, é angustiante esta sensação de desabrigo, de procura de uma morada que nem cidade ainda tem, rio-me para não chorar mais ainda dos silencios envergonhados que de repente se lembram dos momentos em que estive, em que me esqueci de mim por achar mais importante estar, "Amiga, Amiga, Amiga", tudo me parece mentira na verdade que agora vejo, destes dias de silencio e palavras definitivas.
Não sei se estou triste pela dimensão dos ciclos, pelo tamanho da mala, pelo nó na garganta, pelo meu amigo que me olha surpreso, pelas horas que tenho passado, se pela alegria de fazer por acreditar em mim, e isso não se achincalha, não se goza nem se maltrata, é manufactura de mãos pequenas como as minhas.
Na verdade, sou mais do que vejo.
Se calhar, a verdade ancestral do caos, é a mais sincera e real, ordeno em mim cada desgoverno, medo, insanidade, loucura, cada memoria e cada ideia.
Não me interessa o passo seguinte, porque o agora é real, cheio.
Choro pela invisibilidade e pela minha inexistencia.
Uma mão cheia de mim, outra cheia de nada!


1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Adorei o texto, muito real.

Choro pela invisibilidade e pela minha inexistencia.
Uma mão cheia de mim, outra cheia de nada!

Como a compreendo.

beijinhos
sonhadora