23 fevereiro 2010

" Não consigo deixar de me guerrear, porque antes, apesar de tudo, sentia-me boa pessoa, e agora, ando aos pontapés com as palavras amargas que me digo"

Pensei nisto toda a tarde, o tempo que me traduz a escolha, metas infinitas de raciocínio que não domino, são aluviões que me invadem, sem aviso, são as distancias entre a Eng. não sei quê e o  Senhor não sei quantos (recuso-me a aderir aos acordos, tenho até Março para escrever como entendo ser Português), são as  as arestas que me ferem, outras que esculpo, são as conversas das partes com o todo, são os episódios que me caracterizam sem que lhes pertença, são as pisadas escorregadas e as entremeadas heranças que me enjoam, que me alertam e atordoam. São o lixo que a água não leva, são os rios da minha mente desconexa.
Até que num instante, ouço e grito, cansada, estremeço, e sinto, e doi, e sinto mais ainda e a dor traz-me evidencia e claridade, e eu choro e as lágrimas oferecem alivio. E, chego, e o sr Antonio diz-me que estou triste, e eu sorrio e dou-lhe a mão, e passa um quarto de hora que sou a S. que sei o que digo.

Por ora, chego, a sala branca está ainda mais fria. Tenho um dedo automatico que levanto e sorrio, outro que fala e assente sem presença, revi colegas, conheci caras novas de quem espero ensinamento e mais um avo da caminhada, até da minha memória desconfio, troco as certezas e esqueço tudo menos a cabeça que não pára.
Passo-me pelas noticias, teço homenagem à ignorancia induzida e à esperança que guardo, enfrento com as palavras o que outrora calava, já feri o que tinha a ferir, já baralhei o baralho de cartas que julgava miseravelmente ordenado. Nada... Ordena-se a desordem e eu vejo, vejo o afunilar da estrada e o vento que me escorre nas veias, vejo o som de mim, gritante, cada vez mais alto. 
Faço contas, no Gigas, as faces passavam e eu cumprimentava sem as ver, se me pedem relatórios, preciso de escrever, papelinhos, notas, contas de cabeça, chega, não chega, pirâmides de primeiras e segundas coisas, quanto custa, com quanto fico.

Tenho saudades do tempo que simplesmente amuava. Virava costas ao mundo e decidia que ele era o culpado disto tudo. Saborosa ilusão, já não chega. Sinto-me estranha, não preciso mas dava tanto por um abraço que não serve de nada, é só um apertar de braços, um quente finito, uma troca de cheiro, só isso, é só isso...
Hoje a minha mente andou para trás muito, quando a fui buscar, deu dois saltos em frente e levou-me ao passo seguinte, e eu não amuo, já não é o mundo o culpado, sou eu atrasada e guerreira cá dentro. Porra, quedei-me no meu sitio, e ofereci-te o que me transborda,  e sequei-me e olhei em frente, lá ao fundo, onde não distingo os contornos do vento, onde me encanto, ainda. Pensei na triste arte de navegar nas palavras na procura de descrever o que não tem partida nem chegada, o que não tem principio nem fim, o que não tem dominio escrito. É essa a novidade, será que descobri que sinto mais que empreendo?

No minuto seguinte, sigo, deixo-me de tretas e rezo-me "Faz-te à estrada, olha para a frente"


2 comentários:

Sonhadora disse...

Minha querida
Naveguei no lindo texto, serviu-me como se fosse meu.
Lindissimo

Beijinhos
Sonhadora

Miguel disse...

É bom voltar atrás, recordar tempos e momentos que foram bons e que nunca se esquecerão, mas a vida está no presente e é a ele que - por mais difícil que por vezes pareça - teremos de nos adaptar, de descobrir quem somos, quem queremos ser, sermos, não importa o que aos outros pareça, não importa o que digam... e vivermos, não deixando que seja a vida a passar por nós. Sim, sempre em frente!