21 fevereiro 2010

Pousei o pé do lado de fora da margem que me sustenta, agua cristalina que elabora peninsulas, que passa depressa, baixo os olhos e vejo o fundo refractado, a ordem da minha visão, é mais clara por vezes, tem cores que os meus olhos não discernem de imediato. O meu peito transborda de uma vontade nova, nova por ser decisão, vontade feita de mim sem mais nada, vontade que , nasceu, renasceu e vive comigo.
Urgencia a minha, calada a equação desenquadrada, dos laços de orgulho e dominio, ser dona do agora e do depois, munição desfasada do que me faz. A minha avó dizia que o preço e o valor de cada coisa, definem-se na falta. Na falta, falta de mim. Que evasão pequena, querer juntar no presente, resguardo futuro, se o que levo comigo é a minha alma vergada de laços e embargos, que me escondem e me calam? O valor da falta, tremendo, sou urgente no que me devo.
Agradeço, de dias sofridos, como não sabia entender, tenho pressa de me unir, tenho pressa de crescer a cada movimento, de calar o medo que já me calou tanto. Tenho livros que esperam, tenho sonhos empoeirados, tenho o corpo cansado por ordem do meu desprezo. Agarro os momentos com os meus sentidos, dadivas de vida que ensaiei apenas. De cada lugar que o mundo oferece, deixo as vozes que foram mais fortes do que as brotadas de mim, deixo os laços que desaperto devagar, estão entranhados em mim, sulcados na minha pele. 
Adjectivos e reservas, inicio da madrugada fronteira que morta me ilumina, na substancia mais digna, mais verdadeira. Rios salgados, contradição e guerra imposta das minhas armas e bandeiras hoje depostas. E agora? Agora, renasce o essencial, o fundo cristalino da agua, renasce cada poro ainda dormente.
 "De tanto recompor-me destruí-me. De tanto pensar-me, sou os meus pensamentos mas não eu" FP
Não sei o que penso, não sei o que fiz de mim, por isso, não penso, nem me reponho, tenho um mar ao longe, feito de fundo, de margem, feito de cada pegada de mim. Tenho pés e caminho, se penso, se desfaço ou nada me pertence, ao longe, no horizonte, há o reverso dos cumes, Meu Deus, de embaraço e medo presente, quis construir o meu futuro, sendo este amanhecer crescente, sendo eu sedenta de vida, tanto!
Já não tenho voz, a minha face não se expressa, sequei as palavras pensadas, digo o que o meu corpo precisa, ouço a vontade expressa nas minhas mãos, olho o caminho que os meus pés pedem, sou inimiga de destino. Lutei contra pensar em ser menos de cada vez que tive que encarar a obra da herança que o passado me ofereceu, lutei quando já não acreditava, fui companheira e inimiga de mim. Por um tempo, por agora, por hoje, sou mais querida à loucura que me transborda que aos ensaios de menina bem comportada ou mulher sem eira.
Arrogo-me o tempo, arrogo-me a guerra e não esqueço, não posso, o que sinto, é a obra mais simples que tenho, é a palavra, é uma madrugada infinita do meu desassossego e respiração.

1 comentário:

Sonhadora disse...

Minha querida
Gostei muito do seu texto, identifiquei-me muito com as suas palavras.

Não sei o que penso, não sei o que fiz de mim, por isso, não penso, nem me reponho, tenho um mar ao longe, feito de fundo,

Muito fundo.

Beijinhos
Sonhadora