25 outubro 2009

Olhar por mim

Mais que um olhar gritante, sou eu hoje que me anuncio no despir de mascaras em que me encerrei sempre. Sou eu albergada num pensamento que me colhe sem entender. Sou eu que grito perdão, porque alguém ao longe, mil faces de uma só expressão, me ocultam voz  e feição. Sou eu em cada momento, cá dentro, em tudo o que me faz.
Sou eu que vivi em espaços confusos, num tempo parado, num tempo ausente, em que me anunciava sem nunca ter estado presente. Dei tudo de mim, tudo. Dei-me sem existir, dei-me sentida, despedida de cada elemento que me perfaz. Doeu-me a desilusão, a despedida da minha vida em troca do meu vazio.
Posso delinear mil teorias, posso construir mais explicações, sou uma tonta que me esqueci de mim, quase por uma fé na mudança, por um crédito numa luz que me parece só ter sido vista por mim. Ilusão.
Sete anos. Tantos dias limitados a um só. Silencio, silencio, vozes desiguais, submissão.
A minha voz de dentro, calada, zangada pelo virar consciente de costas à essência que me faz, minha. Apagada em mil considerações acerca do certo e errado, dos horizontes escondidos no meu olhar, só isso. Alimentei-me de viagens solitárias, de estradas salgadas, de horas que passava sozinha, onde queria, como queria.
Afastei-me de mim sem perceber. Tornei-me dona de casa, empregada convicta, calada, também gritei o quanto podia, julguei-me louca, sem mim, em troca do nada em que me erguia.
No dia em que me ouvi, calei-me. Envergonhada da minha própria fronteira e derrota. Neguei-me em gestos de auto destruição que não esqueço.
Vi-me ausente, defronte à minha imagem derrotada. De ausencia plena, vi-me longe, sem estrada, contada em historias de tantas. E eu negava, neguei sempre.
Neguei-me envolta em doença, neguei-me sozinha naquela escadaria que me assusta, neguei-me no silencio que pedia tanto. Neguei-me na herança de quem amo tanto. O olhar do meu pai, sabedor de mim como mais ninguém, inquiridor sem resposta, a minha mãe, que me visitava e julgava a mudança detorpada.
Fraca, disfarçada, sou eu que me lembro. Não da vivência banal, lembro-me de mim falsa, lembro-me cada momento importante para mim, feito de neblina e eco.
Também eu sou boa pessoa, esqueço-me pela fraqueza de absorver julgamentos. Sou quem mais se esquece  de mim.
Sete anos desenhados de cores esbatidas, deambulantes como um fantasma de tempo.
Vi mais do que julgava ainda haver, destruí conceitos e valores verdadeiros. Alma, voz, eu por inteiro, uma vez, uma vez.
Desgraça é este passar de memória. Desgraça é esta voz de dentro, aprisionada, sábia, este instinto que não ouvi.
Estou esvaziada de mim. Encontrada, sentida, de um sentir do tamanho do meu mundo. Estou vergada à culpa da minha verdade.
Estou naufragada no meu direito de ser, verdadeira, inteira. Na minha fraqueza de pedir, de mão estendida, por medo, fé destroçada, perdida, depois de me ver. Estou dispersa no erro dos meus gestos, a mentira era a verdade mais sentida que julguei ter.
Hoje, sou o tanto ou o quase nada que sempre mostrei.
Há um horizonte, um sol, duas luas, um mundo inteiro que quis para mim, há este meu ser verdadeiro que já não sei adormecer. Há amar por inteiro sem que a conjugação seja necessária, há esta estrada que percorro na minha direcção, tão vazia como sempre, imaginada de sons e de cheiros, de silencios entendidos e de olhares concordantes. Há um bando de passaros migrantes que quero seguir, sem saber.
Não me sento na tribuna, não me faço juiza, nem julgada. Sou alma.
A voz que me salta, despida, tão cheia de vida, num tempo desconcertado e errado, sou só eu.

1 comentário:

Eduardo Aleixo disse...

Claro que és alma.
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Mantra da alma:


Eu sou alma.
Sou luz divina.
Sou vontade.
Sou amor.
Sou desígnio imutável.

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Somos uma lindeza no fim do caminho a percorrer para dentro de nós.
Não há julgamentos. O que vemos vemos: não existe já: são formas do passado. E o passado morreu. Mas há que olhar para essas formas. Olhar apenas. Assim, elas vºao desaparecendo. E o caminho vai ficando mais vazio, até ao vazio, onde saimos da mente, este turbilhão de ruídos...Sair da mente..
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Beijos