21 julho 2009

Carta a mim

O que seria de ti se não fosse assim?
Às vezes penso nisso. Há uma parte da história que, a tua pele transpira na certeza, na escuridão tão evidente que foste capaz de transpor. Essa parte, ainda hoje, te remonta a um passado tão presente e tão ausente de vontade. Retirada, restou-te enfrentar.
Lembro-me de te ver, curvada, de medo de adormecer, lembro-me das tentativas que sempre fizeste para pertenceres, sentires-te quase igual, e afinal, continuava a haver tanto por entender.
Ainda hoje...
Passaram 8 anos, lembrei-me da data hoje. São teus, percorridos por ti.
Não me lembro bem do principio, mas nunca esqueci o teu fim.
Lembro-me de nada ser suficientemente capaz de satisfazer uma ansia que te consumia, lembro-me dos homens que abraçaste enquanto calavas a vontade eterna de fugir, das palavras que ditavas contrarias à tua forma de ser. Lembro-me que, ao principio, as certezas e os teus horizontes valiam mais que as vontades, mas houve um dia em que descobriste que assim entravas enfim, em ti. Estranha ilusão a nossa.
Lembro-me das noites perdida, em frente ao mesmo rio que hoje te embala, de olhos baços das lagrimas e nas mãos, a ilusão de um aconchego criminoso, delicioso, de encontro à escuridão que te abraçava, essa sim, de peito e alma.
Lembro-me da humilhação, do olhar de quem te amava, de embalares a razão, pedindo que te deixasse esquecer. Lembro-me dos dias tornados meses e das decisões guardadas por mais um dia. Sei bem que sofreste.
Um dia vi-te sentada, assistias ao passar da vida, da tua vida hipotecada em troca de nada que te morria nas mesmas mãos, de fechares os olhos e gritares "Chega...". Não chegava, ambas sabiamos o quanto mais havia dentro de ti, oprimido e sabes, ainda hoje, quando falamos e te vejo, risonha com o mesmo semblante de menina, eu sei, que as tuas mãos fechadas ainda escondem a mesma luta ganha por ti numa proporção desigual.
Hoje, olhei para ti, olhamos em volta e sorrimos.
Eu sei de ti!
Os sonhos perderam-se na caminhada, não foste a mãe que devias ser, nem a filha esperada, não foste a mulher sonhada, nao percorreste o altar que imaginaras, não te deste a ninguem e eu sei que tentaste, o caminho fez-se até aqui.
Mas chegaste.
És uma grande mulher!

2 comentários:

Rapariga dos caminhos abstractos disse...

Escreves muito bem. Adorei o blog. Parabéns.

Eduardo Aleixo disse...

São palavras com alma e só isso interessa escrever. Força. Beijo de brisa.