19 julho 2009

Familiazita

Revelam-se em episódios repetidos, atrasam os vivos na dormencia de uma inconsciencia induzida, limpam ao mesmo ritmo que calam e falam ao invés de viverem.
O marido, António, Jaquim, Manel, tem nas faces a voz da pinga e umas camisolas de alsas brancas para agradar a mulher, juntamente com os devidos calções e meias a condizer. A mulher nunca lhe disse, prefere as t-shirts do vizinho mas ele tambem não iria querer ouvir.
Vejo uma casa daquelas que abundam em Moscavide ou no Feijó, com umas pedrinhas salientes que brilham a meio do dia e cujas entradas tem as mesmas plantas e porteiras. Na casa cheira a naftalina misturada com o vapor do ferro e do forno e no chão, os tapetes combinam com os naperons e as naturezas mortas das paredes. Os viventes compõem o quadro. E se olharmos pela janela, lá está ele, paradinho à porta, o belo Reanult 5.
Tem filhos, magricelas, espertalhões, que a calam sempre que falam e que a obrigam a calar mais ainda quando, na caixa da mercearia precisa de contar as mesmas histórias bonitas. A seguir, negligentemente, segue todas as manhãs nas mesmas ruas, nos seus passos leva a mentira com ela, e nas mãos carrega os sacos cheios do que falta e tão vazios do que precisa.
Embriagada pelas conversas toscas e tornadas amigas dos programas da manhã, conhece um mundo que preferiu sem escolher, colheu os frutos de um dia, ter apenas aderido, entre frases convictas e reflexos julgados, olha hoje no espelho redondo da casa de banho, e vira costas, tão simples se tornou.
Aos Domingos de madrugada, antes de alguem despertar, rapa as pernas com a gilette do Jaquim, aproa o vestido e retira os rolos, enquanto confere as iguarias que preparou e que já sabe que ninguem vai reparar e com sorte, talvez durma uma sesta.
Duas horas do Feijó à Trafaria, o marido não abdicou da cassete da Romana. Vale mais este passeio, certeiro, sempre o mesmo e, as conversas com a futura nora, no banco traseiro, enquanto pai e filho revelam o machismo oprimido em dias diferentes.
Esqueci-me do cão, chama-se "Piloto", mas aos Domingos não vai por causa da castidade dos bancos de napa do Renault. Ainda por cima, nestes dias, mesmo que o Jaquim não tome, o carrinho tem sempre direito a banho e pano passado. Imaculado!
Agora é vê-los, estacionados na berma, estendal armado, grelhador, manta e almofadas, no pinhal de S. João, a abanar revistas em vez de leques e a rezar para que a alucinação não tenha um fim.
Nunca suportei estes carros!

1 comentário:

Teresa Queiroz disse...

lool

uma famíla portuguesa ... é mesmo assim

Gostei