15 janeiro 2010


O meu primeiro olhar do ano.



Eu, eu olho o meu presente, com todas as letras de ver, olho o medo, olho o preço do meu credo, olho em frente o arco iris, que muda de cor todos os dias, olho as crianças puras e as faces mentirosas, olho as montanhas ao longe e descrevo as curvas que me levam, olho de olhos vermelhos, de cansaço e tristeza, olho com um olhar consciente, despida de conceitos, a solidão dos meus dias, que me arrogo a negação de faces bonitas que devoram, perder-me nos sonhos que deixo onde me sinto, e a dor que não passa e que nenhum rio leva, que eu sei, sei mais que isso.
Olho o que fiz, o que faço, o que sinto cá dentro, olho o caos da minha ordem, a minha revolta, olho os anos passados de amena ilusão, os dias seguintes que me trespassam de medo e solidão.
Olho a obra capaz, olho a ilusão, a moeda com que troquei medos e uma mão cansada de estar estendida, por ego e razão. Olho o meu perdão a mim mesma, do devaneio que trago, da minha essencia.
Olho os velhos, os tristes, leio poemas felizes, que outros não estou capaz, olho construção numa canção a mais que uma voz, olho uma casa vazia, uma estrada que não finda, olho a pequenês de fazer doer, por nem se saber dizer o que cá dentro nos traz.
Olho em volta, no meu rio de prata, vejo as minhas asas soltas e, nem aprendi a voar. Cá dentro, num segundo, percorro o mundo, só com o olhar.
Doi-me o peito, está a doer como não julguei ser capaz, doi tudo, e eu grito, ao que for, sou mais que uma folha de obra.

2 comentários:

Kimbanda disse...

Intenso, sentido e profundo.
Gostei imenso e tenho de voltar com tempo a este cantinho cheio de alma.
Óptimo fds, receba um kandandu da minha cubata.

Miguel disse...

Nem toda a gente sabe olhar com olhos de ver, mas não parece o caso. Por falar em caso, ou acaso, diria que ainda há acasos felizes. Não foi a América descoberta por acaso? O acaso que a levou ao meu blogue permitiu-me descobrir este sítio onde, numa primeira e rápida vista de olhos, estimo ir perder - ou ganhar - ainda uma quantidade incontável de minutos, de tão interessante uso das palavras que me saltou à vista, como saltou uma sábia frase que ainda não me saiu da memória: "viver é mais importante que respirar." Parabéns pelo blogue.